A cortina de fumaça da risada: como O Globo (não) retratou a crise do STF
Ao publicar foto dos ministros do STF em meio a risos, O Globo esconde a gravidade do golpe continuado e reafirma a tradição da família Marinho de manipular o debate público pelo que omite — não pelo que noticia.
Publicado em
A foto publicada por O Globo, em meio à mais grave crise institucional do Supremo Tribunal Federal (STF) desde os atos golpistas de 8 de janeiro, é um exemplo cristalino do que o jornalismo da família Marinho sempre fez de melhor: manipular a percepção pública escolhendo o frame que lhe convém, em vez de retratar a realidade em sua complexidade.
A imagem mostra os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e o presidente da corte, Edson Fachin, rindo, em aparente confraternização, logo após uma sessão plenária.
O Globo, com sua legenda cuidadosamente elaborada, tenta vender a ideia de que a Corte está “sem tensão”, que os ânimos se acalmaram, que o “oba-oba” prevaleceu sobre o “rachadouro” que, dias antes, parecia ameaçar a própria sobrevivência da democracia brasileira.
A pergunta que não quer calar: qual é a piada? E quem a contou? Para o leitor atento, a resposta é irrelevante. O que importa é o que O Globo não mostrou e não disse. Porque a foto, por si só, não conta a história completa. Ela é um recorte, um instante, uma cena descontextualizada.
A piada pode ter sido contada por qualquer um deles – talvez o próprio Alexandre de Moraes, alvo da campanha de desgaste movida por André Mendonça, tentando aliviar a tensão com um gracejo sobre o “terrivelmente evangélico” ministro que tenta implodir a Corte por dentro.
Ou talvez Gilmar Mendes, com seu humor ácido, tenha feito um comentário sobre a “farsa” montada por Mendonça e seus aliados da imprensa. Mas o conteúdo da piada, na verdade, é secundário. O que O Globo quer transmitir é que a crise acabou, que tudo está bem, que os ministros estão de bem com a vida.
Essa estratégia não é nova. Ela remonta ao velho Roberto Marinho, que definia a linha editorial do grupo com uma máxima que Paulo Henrique Amorim, repórter e correspondente do próprio O Globo por décadas, revelou em seu livro "O Quarto Poder": a Globo é o que é muito mais pelo que não deu do que pelo que deu.
A escolha do que publicar, do que fotografar, do que destacar – e, sobretudo, do que omitir – é a verdadeira essência do poder editorial do grupo. Neste caso, O Globo optou por mostrar a risada, mas ocultou o que realmente importa: a gravidade do gesto de André Mendonça ao quebrar o sigilo de uma investigação ainda em curso, transformando suspeitas em fatos políticos na véspera da eleição.
Omitiu que a PGR pediu a nulidade do relatório. Omitiu que a Polícia Federal questionou o procedimento do ministro. Omitiu que Mendonça atuou como um “justiceiro” lavajatista, usando a máquina do Estado para desgastar o colega Alexandre de Moraes, justamente o ministro que impediu o golpe de 2022 e que se tornou alvo de Washington e das Big Techs por defender a soberania digital do Brasil.
A foto dos ministros rindo, portanto, não é um registro da realidade. É um ato de propaganda. Ela serve para desmobilizar a opinião pública e mostrar que a Corte, em meio a uma de suas maiores crises, está rindo, gargalhando da e para com a sociedade, para fazer crer que a crise é coisa de política, que os ministros são amigos e que tudo não passa de “fogo de palha”. Este é o objetivo por trás da foto que estampou a capa do velho O Globo.
É a mesma tática usada pelo jornal e demais veículos do grupo em 2016, quando ajudou a construir o golpe contra Dilma Rousseff, e em 2018, quando ajudou a eleger Jair Bolsonaro com uma cobertura que escondia seus vínculos com o crime organizado e o fascismo.
A família Marinho nunca aprendeu, porque nunca quis aprender. Roberto Marinho, em vida, ditou o que o Brasil via e deixava de ver. Seu legado permanece vivo na redação do jornal: a escolha do que publicar ainda é guiada pelo interesse de classe, pela defesa do baronato paulista e pela submissão aos interesses dos EUA.
A foto dos ministros rindo é a prova cabal: em vez de investigar a fundo o papel de Mendonça no golpe continuado, O Globo prefere mostrar uma cena de descontração, como se a democracia não estivesse em jogo.
Mas o leitor crítico sabe que a piada, na verdade, é sobre nós. É a piada de quem acha que pode nos enganar com uma foto e uma legenda. A crise não acabou. Ela está apenas começando. E O Globo, como sempre, estará do lado de quem quer enterrar o Brasil na dependência e na submissão.