31 de julho de 2025
FEMINICÍDIO

Lula, no Pacto contra o Feminicídio, diz que o homem tem um papel fundamental no enfretamento deste crime; “cada homem desse país tem uma missão a cumprir”, disse

Confira a íntegra do discurso de Lula

Por Politica Real com agências
Publicado em
Lula e chefes de poder mostra a assinatura do decreto Foto: Ricardo Stuckert

(Brasília-DF, 04/02/2026)   O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quarta-feira, 04, no evento no Salão Nobre do Palácio do Planalto, em que foi anfitrião do lançamento do Pacto Brasil contra o Feminicídio em que estavam envolvidos todos os poderes constituídos foi o último a falar e também assinou o decreto que institui o Pacto.  Lula destacou que os homens tem um missão a cumprir.

“Não basta não ser um agressor. É também preciso lutar para que não haja mais agressões. Cada homem desse país tem uma missão a cumprir”, disse, durante cerimônia no Palácio do Planalto.

O pacto prevê atuações coordenadas e permanentes entre os Três Poderes, com o objetivo de prevenir a violência contra meninas e mulheres no Brasil. A novidade, segundo Lula, é que, pela primeira vez, estão assumido que a responsabilidade na luta pela defesa da mulher não é só da mulher.

“Para o movimento sindical brasileiro, estamos dizendo que este é um tema de porta de fábrica e de assembleia de trabalhadores. O que estamos dizendo para deputados e deputadas é que esse é um tema para todos os seus discursos.”

“Estamos tentando conscientizar crianças, porque é dever dos nossos professores e professoras porque é um tema que vai da creche à universidade. Esta é a possibilidade de criarmos uma nova civilização. Uma civilização na qual não é o sexo o que faz a diferença, mas o comportamento o respeito”, completou.

Lula lembrou que o ambiente doméstico é palco constante de violência contra mulheres e de feminicídio. “[Elas] Morrem pelas mãos de atuais ou ex-maridos e ex-namorados, mas também pelas mãos de desconhecidos que cruzam o seu caminho”.

“Morrem por causa de homens que não aceitam ser chefiados por mulheres. Para esses, é preciso dizer em alto e bom som: as mulheres estão conquistando cada vez mais espaços de liderança no mercado de trabalho e vão conquistar ainda mais. Por justiça e por merecimento. Lugar da mulher é onde ela quiser estar”, concluiu.

A cerimônia foi aberta pela primeira dama Janja da Silva. Ela leu uma história narrada por uma mulher vítima da agressão de um namorado, espancada em público, mas que não conseguiu a ajuda de pessoas que testemunharam a agressão.

"Essa história poderia ser minha ou de qualquer mulher aqui presente", disse a primeira dama ao pedir que os homens também fiquem ao lado das mulheres vítimas de agressão, quando se depararem com esse tipo de situação.

"Temos todos o compromisso de tornar uma sociedade em que as mulheres podem viver em paz. Queremos vocês, homens, nessa luta, ao nosso lado", acrescentou.

Os chefes de poder se manifestaram no lançamento do Pacto antes de Lula.

 

Confira a íntegra do texto lido por Lula no lançamento do pacto:

 

Minhas amigas e meus amigos,

 

A cada dia, quatro mulheres são vítimas de feminicídio no Brasil.

 

Significa que a cada seis horas uma mulher é assassinada pelo simples fato de ser mulher.

 

Significa que, da hora que saímos hoje de casa até este momento, uma mulher teve a vida interrompida com violência.

 

Só pelo fato de ser mulher.

 

Uma amiga querida, uma colega, uma vizinha que enfrentava dupla jornada de trabalho para alimentar os filhos. Uma mulher, uma menina, uma adolescente.

 

Segundo uma pesquisa feita pelo Senado, 27% das mulheres brasileiras declararam ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025.

 

Neste exato momento, enquanto assinamos este Pacto, uma mulher está sendo agredida.

 

Com tapas, socos, chutes, sufocamento, golpes, puxões de cabelo, pontapés e ofensas.

 

Arrastadas por carros, feridas no asfalto, desfiguradas sob o testemunho de câmeras de elevador.

 

Tantas Tainaras, Fernandas, Catarinas, Ritas, Marias, Alanes, Laíses...

 

Mulheres impedidas de viver, pelo simples fato de serem mulheres.

 

De dizerem não a um relacionamento.

 

De exercerem o direito de decidir sobre suas próprias vidas, e reconfigurar rotas que não lhes servem mais.

 

O feminicídio afronta as estruturas de prevenção e combate, e vem crescendo de forma assustadora no país.

 

É inaceitável que mulheres continuem sendo espancadas e assassinadas todos os dias sob o olhar de uma sociedade que peca por omissão.

 

Que se cala diante de cenas cotidianas de abuso e violência.

 

É preciso deixar bem claro: qualquer sinal de maus tratos na rua, gritos na vizinhança, abusos e intolerância no ambiente de trabalho. Cada gesto de violência é um feminicídio anunciado.

 

Não podemos nos calar. Não podemos mais nos omitir, fingir que não temos nada a ver com isso, que em briga de marido e mulher não se mete a colher.

 

Pois nós estamos e vamos meter a colher, sim.

 

Minhas amigas e meus amigos,

 

O Pacto que assinamos hoje deve ir além das instâncias do Executivo, Legislativo e Judiciário.

 

Lutar contra o feminicídio, e todas as formas de violência contra as mulheres, deve ser responsabilidade de toda a sociedade.

 

Mas, principalmente, e especialmente, dos homens.

 

Não basta não ser um agressor. É também preciso lutar para que não haja mais agressões.

 

Cada homem deste país tem uma missão a cumprir.

 

Conversar com amigos, primos, tios, vizinhos, colegas de trabalho, companheiros de bar e parceiros de futebol.

 

Não podemos no omitir.

 

Enquanto poder público, vamos aprimorar os instrumentos de proteção, prevenção e acolhimento.

 

Enquanto homens, vamos descontruir tijolo por tijolo essa cultura machista que nos envergonha a todos.

 

É preciso punir de forma exemplar os agressores. Mas também é necessário educar os meninos, conscientizar os jovens e os adultos.

 

Fazê-los entender a gravidade do crime que cometem. E que nada, absolutamente nada, justifica qualquer forma de violência contra meninas e mulheres – na vida real ou na vida digital.

 

Minhas amigas e meus amigos,

 

Sabemos que o ambiente doméstico é palco de muitas dessas violências.

 

A maioria das mulheres vítimas de feminicídio morre pelas mãos de atuais ou ex-maridos e ex-namorados.

 

Mas também pelas mãos de desconhecidos que cruzam seu caminho nas ruas.

 

De homens que não aceitam ser chefiados por mulheres. Para esses, é preciso dizer em alto e bom som:

 

As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço de liderança no mercado de trabalho.

 

E vão conquistar ainda mais, por justiça e por merecimento.

 

E porque o lugar da mulher é onde ela quiser estar.

 

É inadmissível que enquanto fortalecemos os instrumentos de proteção, a exemplo da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, homens continuem agredindo e assassinando mulheres.

 

Houve um tempo que a defesa da honra era justificativa para a violência contra a mulher.

 

O ciúme não serve mais de justificativa.

 

Nunca deveria ter servido.

 

Mas continua a ser um dos principais argumentos usados pelos assassinos em suas próprias defesas.

 

Enquanto isso, as redes digitais, algumas delas, ensinam crianças e adolescentes do sexo masculino a odiarem mulheres.

 

As plataformas digitais não podem mais ser usadas por criminosos que aliciam meninas, cometem contra elas toda sorte de abusos, e as induzem à automutilação e muitas vezes ao suicídio.

 

Cabe a cada homem transformar essa realidade.

 

Virar esse jogo.

 

Precisamos fazer com que as mulheres se sintam protegidas, livres e seguras.

 

Seja na internet, no ambiente doméstico, nas ruas, nos locais de trabalho, em qualquer lugar, a qualquer hora.

 

Vestida com a roupa que a faça mais feliz. Na companhia de quem ela quiser.

 

A segurança de meninas e mulheres é condição necessária para a nossa evolução enquanto sociedade e para o exercício pleno da democracia.

 

Muitas vezes, cansados de tanta barbárie, chegamos a pensar que a luta está perdida. Que nossos inimigos são maioria. Que a maldade venceu.

 

Não é verdade.

 

Somos muitos. E fomos feitos para o amor, não para o ódio. Para a alegria, não para o medo. Para o abraço, não para a violência.

 

Juntos, somos capazes de construir um mundo mais humanista, mais fraterno e mais afetuoso.

 

Mãos à obra.

 

Muito obrigado.

 

 

( da redação com informações da Ag. Brasil. Edição: Política Real)