São Francisco.
Coordenador da Bancada do Nordeste diz que a questão da transposição é assunto nacional ; Deputado fala com a autoridade de que seu estado, o Piauí, estará de fora do projeto.
( Brasília-DF, 03/10/2005) O deputado B. Sá(PSB-PI), coordenador da Bancada do Nordeste disse hoje à tarde, no pequeno expediente da Câmara dos Deputados que a proposta de interligação de bacias, a transposição do São Francisco, é uma questão de interessa nacional que não surgiu de uma hora outra e é comum, a transposição de águas, em todo o mundo.
Ele inicia comentando a greve de fome de bispo baiano contra a obra e fala de controle social e natural ajustes, ao longo do tempo. Veja a íntegra da fala do deputado que fala com a autoridade de representante de um estado que mesmo tendo semi-árido, não receberá as águas do “Velho Chico”:
“ Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, a grande imprensa tem destacado o que acontece com um Bispo católico lá nas barrancas do São Francisco, altura do cidade de Cabrobró.
Amanhã comemora-se o Dia de São Francisco e a tradicional romaria para Canindé, Estado de Ceará, faz um caminho alternativo. E muitos romeiros vão se deslocar para uma pequenina capela onde se encontra o Bispo em greve de fome há alguns dias.
Na ida para Cabrobró vão pessoas com os mais diversos tipos de interesse. Poucos, lamentavelmente muitos poucos, são os que vão lá fazer uma oração contrita, religiosamente falando, pelo bem do Bispo e por sua causa.
É lamentável que tal fato aconteça com um bispo católico. Se a moda pegar, quando alguma administração for construir uma hidrelétrica, uma estrada de ferro, um porto, uma barragem aqui, ali ou acolá, alguém poderá muito bem achar que não éconveniente, adequado e fazer greve de fome no País.
O Bispo disse que ou o Governo suspende a obra de interligação da Bacia do São Francisco aos rios do setentrião nordestino seco ou, então, ele vai entregar sua vida.
Sr. Presidente, dizia Cristo: Dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede Uma coisa é estar às margens do Rio São Francisco com muita água e outra éestar no sertão do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do próprio Pernambuco onde as pessoas não têm água para beber.
O projeto de interligação das bacias não nasceu da noite para o dia, não foi feito à socapa, não foi feito por cima de pau e pedra canhestramente. Pelo contrário, o assunto éalardeado no País desde 1877, quando D. Pedro II enviou uma comissão para investigar no Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba os efeitos de mais uma grande seca da época. E ele pensou: temos de levar a água do São Francisco para os rios secos do Nordeste.
De lá para cá, vários foram os governantes que, em campanhas eleitorais e já em suas administrações, levantaram a bandeira da transposição das águas do São Francisco.
Estou nesta Casa há quase 15 anos. No Governo do Presidente Itamar Franco o tema foi levantado e participei ativamente da discussão.
No Governo passado, formou-se uma Comissão Especial na Câmara dos Deputados, cujo Relator foi o grande Deputado paraibano Marcondes Gadelha, quando discutimos o tema por mais de um ano. Várias visitas externas foram feitas em regiões ribeirinhas ao São Francisco.
Este projeto foi finalmente tomando corpo, tomando forma, e o Presidente Lula, pelo que se sabe, não prometeu durante a campanha eleitoral nem sim, nem não, mas mandou que o projeto fosse executado. Agora, está no galgar do processo de realização de obra, no entanto aparece um protesto dessa natureza.
Sr. Presidente, há muitos equívocos em tudo isso. É preciso que as pessoas de sã consciência, da própria Igreja Católica, façam uma reflexão adequada de que não é agindo assim que iremos encontrar a solução para este impasse, ainda mais quando isso está sendo grosseiramente aproveitado com interesses politiqueiros de segunda ordem.
A transposição, a interligação de bacias, é fundamental para a região nordestina, e quem está falando é um Deputado do Estado do Piauí, Estado que foi preterido do projeto de transposição que aí está e que será alcançado apenas numa segunda etapa, por meio do eixo oeste, vindo de Sobradinho. Mas eu tenho a visão de conjunto. O interesse nacional é que está em jogo, não é apenas o da região semi-árida nordestina. Trata-se do interesse nacional.
Nós acudimos quem está nessas regiões, que serão beneficiadas com a interligação das bacias, ou presenciaremos uma situação muito mais desagradável não apenas na região foco, como nos locais mais distantes, que jáalcançaram o seu desenvolvimento.
Sr. Presidente, nós vamos tirar 26 metros cúbicos de água do Rio São Francisco, de um local onde a vazão é de 2,1 mil metros cúbicos por segundo. Se ninguém disser que aquela água está sendo retirada, ninguém notará que isso está acontecendo.
Por último, é exatamente esta luta que se faz nesta Casa, para que esta transposição aconteça, que chamou a atenção para o grave problema do sofrimento por que passa o rio, devido a vários fatores, inclusive por causa de mais de 400 cidades da sua bacia que derramam livremente esgoto. O Governo Federal já está executando o projeto de revitalização por meio do saneamento de cidades como Bom Jesus da Lapa, Cabrobó, Salgueiro mais de 30, até o final do ano, e, mais de 400 ao todo, dentro do projeto.
Por isso, Sr. Presidente, é irracional essa atitude. Perdoa-se pela ignorância que, eventualmente, esteja permeando algum cérebro perturbado, mas não se pode, diante de assunto tão sério como este, tirar proveito político-eleitoral.”