• Cadastre-se
  • Equipe
  • Contato Brasil, 18 de outubro de 2021 02:07:52
Jorge Henrique Cartaxo
  • 09/06/2021 21h45

    Os revolucionários da vez

    “A política não me interessa. O que me interessa é a opinião pública”, conceituava Casaleggio ao criar, em 2005, o blog de Beppe Grillo que, em poucos dias, tornou-se o blog italiano mais visitado do País

    Linhas de Interseção - Kandinsk/1923( arquivo do colunista)

    Gianroberto Casaleggio, Steve Bannon e Arthur Finkelstein. Esses nomes não são, isoladamente, os responsáveis diretos pela feição tenebrosa da era do insulto, do preconceito, do racismo, da estupidez como estilo, da mentira como argumento, da produção do medo e da disseminação do ódio como método que, neste início de século, vêm refazendo nossas feições, sentimentos e palavras nas brumas do espaço público contemporâneo. Mas são deles os arranjos, mais ousados e fundadores, na organização e produção desse mal que parece ter cravado sua estaca no coração do espírito do tempo.

    Nascido em uma família judia de classe média baixa, em 1945, criado no Brooklyn’s Oriental em Nova Iorque, estudando em escolas públicas, Arthur Finkelstein conquistou os diplomas em economia e ciências políticas na Universidade de Columbia, em 1967. Depois de uma rápida experiência como produtor de programas de rádio, Finkelstein montou sua empresa com especialidade em pesquisas, estratégia, mensagens, mídia, publicidade e aconselhamento sobre gerenciamento de campanhas políticas. Com esse perfil passou 40 anos assessorando o Partido Republicano, com destaque para as campanhas e os governos de Nixon e Reagan. Assim ele torna-se uma lenda no mundo conservador americano e o mais notável spin doctor (manipulador de notícias) da sua geração, refinando uma técnica que se tornaria eficaz na política americana e, posteriormente, decisiva nas eleições de George W. Bush e Donald Trump.

     Em 1996, depois da morte violenta de YItzhak Rabin, o establishment de Israel preparava-se para eleger, como substituto do antigo líder, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres. Respeitado mundialmente, moderado, acreditava-se que obteria uma vitória fácil nas urnas. É nesse cenário que Finkelstein desembarca em Tel Aviv para fabricar a vitória do, até então, pouco conhecido Benjamin Netanyahu. O bruxo americano impõe uma inédita campanha difamatória no mundo político de Israel, colocando Peres como um traidor da pátria. Finkelstein convenceu os israelenses que Peres queria dividir Jerusalém dando a metade da cidade sagrada aos palestinos. Netanyahu venceu e consolidou uma liderança, nesse padrão, só interrompida há poucos dias num famoso mar de lamas.

    Lendário mago da nova direita nacionalista no mundo, o acreditado spin doctor da América leva seu estilo para o Leste Europeu. Depois de deixar sua marca na República Tcheca, na Ucrânia, no Azerbaijão e na Áustria, Finkelstein vai ao encontro, em 2009, de Viktor Orbán na Hungria. Constrói-se ali a primeira grande cunha contra a União Europeia. Orbán, na linha de Finkelstein, faz brotar no imaginário do seu povo que os inimigos da Hungria são a Europa, Bruxelas e os imigrantes. 

    Planejada pelo arquiteto Bernardo Buontalenti na última década do século XVI, Livorno é uma das pérolas da Toscana e ficou conhecida durante a Renascença Italiana como a “cidade ideal” por sua beleza e harmonia. Foi ali, num camarim do Teatro Goldoni, em abril de 2004, que Beppe Grillo ouviu pela primeira vez a voz pausada e consistente de Gianroberto Casaleggio. O encontro da comédia com o gênio da tecnologia distópica das redes sociais, nas margens do mediterrâneo, marcaria o início do fim do Estado Moderno italiano pensado por Maquiavel no século XVI. “Ele estava bem seguro do que dizia. Imaginei que fosse um gênio do mal ou algum tipo de São Francisco de Assis que falava de internet em vez de dissertar sobre lobos e pássaros”, disse Grillo ao comentar sua primeira impressão sobre Casaleggio. 

    “A política não me interessa. O que me interessa é a opinião pública”, conceituava Casaleggio ao criar, em 2005, o blog de Beppe Grillo que, em poucos dias, tornou-se o blog italiano mais visitado do País. Quatro anos depois, sob a liderança de Beppe Grillo, surge o, hoje poderoso e paradigmático, MoVimento 5 Stelle – M5S. Populista, eurocético, fora dos padrões ideológicos clássicos, o M5S tem como suas cinco prioridades: água pública, ambientalismo, transporte sustentável, direito à Internet e desenvolvimento sustentável. Fruto direto da internet e das redes sociais, o M5S se contrapõe a todo o sistema político clássico, italiano em particular e europeu de um modo geral, e joga na cena pública personagens bizarros. Matteo Salvini, quando ministro do Interior com a expressiva vitória eleitoral do Movimento em 2018, passava a maior parte do seu tempo a tuitar medo e ódio. Luigi Di Maio, nomeado vice-presidente do Conselho de Ministros da Itália em 2018, não tinha curso superior, sua única experiência profissional tinha sido como guia do estádio de San Paolo de Nápoles, e notabilizou-se pela produção de gafes e fake news em série.

    Mas é para Steve Bannon que devemos voltar o nosso mais atento olhar. Com um currículo notável – exército, Virginia Tech, Georgetown, Harvard Business School, Goldman Sachs, Hollywood e Washington -,   inteligência e ousadia raras, articulação e relações pessoais com a desabrida elite conservadora mundial, Bannon é contra a globalização, a União Europeia e a consequente fragilização dos Estados-Nação. Com uma aversão notória a intelligentsia liberal que sempre reinou em Washington pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, de quem pretende se apropriar da evidente hegemonia cultural, foi fundamental na improvável vitória de Donald Trump (2016) e dos, ainda desconcertantes, Brexit e o escândalo da Cambridge Analytica. Claro, Bannon esteve também presente na, ainda pouco compreendida, campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República.

    Toda essa reflexão, com mais vigor e detalhes, pode ser lida nos livros recentes: “Os Engenheiros do Caos – Como as  fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições” – de Giuliano Da Empoli e “O povo contra a democracia – porque nossa liberdade corre perigo e como salvá-la" - de Yascha Mounk. São textos esclarecedores diante da realidade convulsiva que se anuncia, onde Bolsonaro, seu “Exército” e suas diatribes constituem apenas uma das peças desse inquietante desafio do nosso tempo.