Mercado reflete Focus com Selic estimada em queda, mas avalia que sem compromisso fiscal “crível” a taxa tende a avançar em 2027
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(Brasília-DF, 13/10/2026) Em dia que Focus estimou taxa Selic em 13,25% mesmo com alta dos juros, o mercado avalia que sem compromisso fiscal dos candidatos à presidência é provável que a taxa Selic acabe aumentando 2027.
Veja algumas estimativas feitas por agentes do mercado que chegaram à redação da Política Real:
"Se as eleições brasileiras não produzirem um compromisso fiscal crível, considero possível que a Selic termine 2027 entre 13,5% e 14%", Thiago Secco, Sócio e CFO da Friggi & Secco.
“O Focus revela uma divergência importante, já que enquanto a inflação de 2026 continua pressionada, a redução das expectativas para o dólar, a Selic e a inflação dos próximos 12 meses sugere que o mercado já começa a incorporar um cenário econômico mais favorável após as eleições. Mas vale lembrar, que essa melhora ainda depende de um ajuste fiscal concreto, capaz de controlar o crescimento das despesas públicas e estabilizar a trajetória da dívida. Sem isso, o otimismo pode ser revertido rapidamente, pressionando o câmbio, os juros futuros e as expectativas de inflação. Caso o próximo governo frustre essa expectativa, considero plausível, em um cenário de deterioração fiscal relevante, que a Selic aumente em 2027. O que significaria crédito mais caro por mais tempo, maior comprometimento da renda das famílias, pressão sobre a inadimplência e adiamento de investimentos empresariais, dificultando a recuperação da economia”, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“Existe uma contradição importante no Focus: a inflação projetada para 2026 chegou a 5,22%, superando em 0,72 ponto percentual o teto da meta, enquanto a expectativa de Selic para o fim de 2027 permanece em 12%. Isso mostra que o mercado não está necessariamente antecipando uma economia estabilizada após as eleições, mas apostando que o Banco Central conseguirá iniciar a flexibilização monetária mesmo com riscos ainda relevantes. O problema é que essa trajetória depende de credibilidade fiscal. Caso o próximo governo não apresente um plano convincente para estabilizar a dívida e conter o crescimento das despesas, considero plausível uma Selic entre 13,5% e 14% ao fim de 2027, de 1,5 a 2 pontos percentuais acima do cenário central do Focus. A consequência não seria apenas uma rentabilidade maior dos títulos públicos, mas uma reprecificação de toda a estrutura de capital da economia. O Banco Central mostra que o crédito livre às empresas já custa, em média, 24,2% ao ano, praticamente o dobro da Selic esperada para 2027. A diferença evidencia como risco, inadimplência e spread prolongam o efeito dos juros elevados. Na gestão patrimonial, essa assimetria exige distinguir a queda da taxa básica da efetiva redução do custo financeiro: mesmo com cortes da Selic, os juros longos podem continuar pressionados se o mercado não acreditar na sustentabilidade das contas públicas”, Gustavo Assis, CEO da Asset.
“A recente valorização do real, mesmo diante da revisão para cima das expectativas de inflação para 2026, evidencia que o comportamento do câmbio e a dinâmica dos preços domésticos respondem a fatores distintos. Um dólar mais baixo pode aliviar os custos de importação, mas não elimina as pressões inflacionárias sobre serviços nem reduz, isoladamente, os riscos fiscais. Para 2027, o Boletim Focus ainda projeta IPCA de 4,30%, 1,30 ponto percentual acima do centro da meta. Caso o resultado eleitoral aumente as incertezas sobre a condução das contas públicas, a Selic poderá encerrar 2027 entre 13% e 13,5%, acima dos 12% atualmente projetados pelo mercado. Esse cenário tende a se refletir primeiro na curva de juros futuros, com elevação dos prêmios de risco e dos custos de captação das empresas, antes mesmo de uma eventual mudança na taxa básica. Segundo o Banco Central, o crédito ampliado às empresas alcançou R$ 7,3 trilhões em agosto, crescimento de 8,7% em doze meses, evidenciando a importância de condições estáveis de financiamento. Para o mercado de capitais, o principal desafio será transformar a melhora pontual das condições financeiras em confiança duradoura. Nesse contexto, disciplina fiscal, gestão de riscos, governança e transparência serão fundamentais para preservar a capacidade de financiamento das empresas e a segurança dos investidores durante a transição política”, Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
“O mercado está discutindo quando a Selic chegará a 12%, mas a questão mais importante é quanto dessa redução efetivamente chegará ao tomador de crédito. Em agosto, segundo o Banco Central, a taxa média do crédito livre às famílias alcançou 61,7% ao ano, enquanto a inadimplência chegou a 6%. Isso significa que, mesmo se a Selic encerrar 2027 no patamar projetado pelo Focus, o custo final dos empréstimos poderá continuar elevado por causa dos spreads, das garantias exigidas e do risco de inadimplência. O cenário externo também exige cautela: o FMI projeta crescimento global de 3,4% em 2027, mas alerta para pressões de energia e endividamento que podem manter os juros internacionais elevados. Se as eleições brasileiras não produzirem um compromisso fiscal crível, considero possível que a Selic termine 2027 entre 13,5% e 14%. Para dimensionar essa diferença, um financiamento hipotético de R$ 1 milhão teria R$ 20 mil adicionais de juros em um ano caso sua taxa contratada subisse de 12% para 14%, considerando juros simples e principal constante. É uma comparação ilustrativa, não uma estimativa de transmissão direta da Selic aos contratos. A recuperação da atividade dependerá justamente dessa transmissão: famílias, empresas e construtoras precisam conseguir planejar compromissos financeiros com segurança. Nesse ambiente, operações com garantias, prazos adequados e estruturas de pagamento compatíveis com a geração de caixa podem tornar o acesso ao crédito mais previsível, mesmo antes de uma redução mais expressiva da taxa básica”, Thiago Secco, Sócio e CFO da Friggi & Secco.
“Uma projeção de IPCA de 5,22% em 2026, combinada com Selic de 12% em 2027, pressupõe alguma recomposição da confiança, mas não garante uma retomada consistente do investimento. O FMI acaba de projetar crescimento global de 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027, destacando que boa parte da resiliência internacional vem dos investimentos em inteligência artificial. Esse contraste é relevante: enquanto parte do mundo direciona capital para ganhos futuros de produtividade, o Brasil ainda precisa reduzir o prêmio exigido para financiar projetos de longo prazo. Se as eleições não forem acompanhadas por sinais concretos de disciplina fiscal, uma Selic entre 13% e 13,5% no fim de 2027 seria um cenário possível, preservando a atratividade das aplicações conservadoras e retardando a migração de recursos para investimento produtivo. Para a economia crescer de maneira sustentada, não basta reduzir os juros nominais; é necessário aumentar a previsibilidade sobre o custo de capital nos próximos anos. É nesse ambiente que o venture capital ganha relevância, ao direcionar recursos para empresas capazes de desenvolver tecnologia, produtividade e novos modelos de negócio, criando caminhos de expansão que não dependem exclusivamente do ciclo de crédito bancário”, Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.
“O Focus desta semana mostra um mercado mais otimista com o curto prazo, mas ainda cauteloso com o futuro. A projeção de inflação para 2026 subiu pela quarta semana seguida, de 5,01% para 5,22%, acima do teto da meta de 4,5%. Ao mesmo tempo, as estimativas para o fim do ano caíram: o dólar passou de R$ 5,20 para R$ 5,15, a Selic de 13,50% para 13,25% e a inflação esperada para os próximos 12 meses de 4,59% para 4,48%. Na minha leitura, isso não quer dizer que o mercado já conte com um alívio duradouro depois das eleições. A Selic de 12% prevista para 2027 está parada há 17 semanas, e a projeção da dívida pública continua subindo, de 70% do PIB neste ano para 73,9% em 2027 e 76,5% em 2028, com déficit nas contas do governo em todos esses anos. Ou seja, a queda dos juros ainda depende de um compromisso fiscal crível. Se o resultado das urnas frustrar essa expectativa, o espaço para cortes diminui, e não seria surpresa ver a Selic de 2027 mais perto dos 13,25% previstos para o fim deste ano do que dos 12%, uma diferença de mais de um ponto percentual. Para empresas e famílias, isso significa crédito mais caro por mais tempo, mais pressão sobre quem já está endividado e uma recuperação mais lenta, num cenário em que o próprio mercado já projeta crescimento de apenas 1,4% para 2027”, André Matos, CEO da MA7 Capital.
“O Focus revela que o mercado está enxergando uma melhora futura da inflação, mas ainda não há evidência suficiente para tratar essa expectativa como uma recuperação consolidada do crédito. A inflação projetada para 2026 chegou a 5,22%, enquanto o crescimento esperado do PIB para 2027 está em apenas 1,40%. Essa combinação indica uma economia que pode atravessar a transição política com pouca margem para absorver novos custos. O dado que mais chama atenção está nas estatísticas do Banco Central: o crédito livre às empresas custa, em média, 24,2% ao ano, enquanto o spread bancário médio de todas as operações alcançou 21,2 pontos percentuais. Ou seja, o principal desafio não é simplesmente diminuir a Selic, mas reduzir o conjunto de riscos que determina o preço do financiamento. Se a eleição resultar em frustração fiscal, estimo que a Selic possa permanecer entre 13% e 13,5% no fim de 2027. Nessa hipótese, a recuperação da economia seria mais gradual, porque empresas continuariam priorizando liquidez, prazos e eficiência no uso do capital. Existe, porém, uma mudança estrutural importante: companhias de varejo, indústria e serviços têm condições de incorporar pagamentos, financiamento de clientes e soluções de capital de giro à própria operação. Isso permite organizar melhor os fluxos financeiros, reduzir fricções e diversificar fontes de receita, em vez de depender exclusivamente das condições tradicionais de crédito”, Leticia Moschioni, Sócia da Finscale.
“A queda da expectativa para o dólar, acompanhada da redução das projeções de juros à frente, pode criar a impressão de que o Brasil já está atravessando uma mudança estrutural de cenário. Eu teria cautela com essa interpretação. O câmbio responde não apenas à economia brasileira, mas também aos juros americanos, aos fluxos internacionais de capital e à percepção global de risco. O FMI acaba de projetar crescimento mundial de 3,1% em 2026, inferior aos 3,5% registrados em 2025, em um ambiente de pressões sobre energia e endividamento público. Isso significa que uma valorização do real pode ocorrer mesmo sem uma melhora definitiva das contas fiscais brasileiras. O ponto sensível é que o Focus projeta inflação de 5,22% para 2026 e ainda espera uma Selic de 12% ao fim de 2027. Se o próximo governo frustrar as expectativas de ajuste fiscal, não descartaria juros entre 13,5% e 14% no encerramento do próximo ano. Nesse cenário, o crédito permaneceria caro e a retomada do consumo e do investimento seria mais lenta. Para o investidor, a consequência mais importante é que uma eventual queda do dólar não elimina a necessidade de diversificação internacional. A exposição a ativos globais deve responder à composição do patrimônio e aos objetivos de longo prazo, não apenas à previsão de câmbio para dezembro. O diferencial de juros entre países, a evolução da inflação americana e os movimentos de liquidez global continuarão influenciando o retorno dos investimentos dolarizados”, Fábio Murad, Consultor da Wiser Asset.
( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)