O STF na lona, a guerra híbrida e a sinuca de bico brasileira
A sessão de 15 de setembro expôs o Supremo, o bolsonarismo comemorou e a mídia mainstream esconde Flávio Bolsonaro. A 18 dias da eleição, o Brasil escolhe entre soberania e colônia.
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O comentário desta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, parte de um fato concreto: a audiência no Supremo Tribunal Federal no dia anterior. Faltam 18 dias para as eleições no primeiro turno, e talvez uma nova guerra eleitoral no segundo turno — ou até mesmo um cenário de encerramento já no primeiro turno, embora os institutos de pesquisa não indiquem isso.
A sessão de 15 de setembro foi marcada por uma pressão da opinião pública, sobretudo por juristas — não todos, e não todos da alta e melhor estirpe — e também por um abastecimento de economistas que pressionaram o presidente Edson Fachin a realizar uma sessão que não tinha regra, não tinha objetivo, não se sabia direito o que ia se fazer. Parecia que ia ser uma carnificina. E realmente foi uma carnificina.
A princípio, o ministro André Mendonça queria levar o ministro Alexandre de Moraes ao banco dos réus. Moraes foi colocado na corte pelo golpista Michel Temer, no lugar do Teori Zavascki, que morreu num acidente até hoje muito mal explicado — estava numa aeronave que ia para uma ilha perto de Angra dos Reis, a aeronave caiu no mar, ele morreu e ninguém sabe. Alexandre de Moraes fez história depois, sendo auxiliar do golpista Michel Temer, o "pitman" de um grande acordo, como profetizou o ex-senador Romero Jucá, que hoje pode estar voltando a ser congressista por Roraima como deputado federal.
Alexandre de Moraes acabou sendo, de auxiliar de golpista em 2017, o combatente ao golpe de 2022 que Jair Bolsonaro e toda a sua claque queriam promover no Brasil — mais ou menos no sentido do golpe de 64 e do golpe de 68. Na verdade, o golpe de 68, o AI-5, foi um golpe que se deu no golpe de 64: fechou-se o golpe que até então estava aberto. E o golpe de 68 durou 10 anos, até 1978. Isso não deu certo: Jair Bolsonaro e toda a sua claque bolsonarista e golpista foram condenados, estão cumprindo penas, e Jair Bolsonaro está cumprindo pena em casa.
André Mendonça, terrivelmente evangélico, apelidado pelo próprio Jair Bolsonaro, escancarou e jogou Alexandre de Moraes aos leões. Deu aquilo que os bolsonaristas queriam: a cabeça de Moraes. Conseguiu. Alexandre de Moraes tem muita coisa a explicar. Até porque ele não explicou ontem — falou que tem advogados, tem policiais como testemunhas para confrontar a acusação, que ainda na verdade não é investigação. O processo está tão atabalhoado.
E essa pressão da opinião pública, de parte dos juristas, de parte dos economistas, mostra que Edson Fachin poderia ter sido — ou poderá estar sendo — uma espécie de linha auxiliar do ministro terrivelmente evangélico, que alguns jornalistas, como Rodrigo Viana do ICL, já chamam de terrivelmente golpista lá dentro do Supremo, porque ele está conseguindo golpear o Supremo por dentro.
Embora na sessão de ontem, que foi ridícula — uma sessão de lavação de roupa suja —, o que se mostrou é que o ministro André Mendonça não tem preparo intelectual e acadêmico nenhum. Ele foi moído pelo ministro Gilmar Mendes, pelo ministro Flávio Dino, pelo ministro Alexandre de Moraes e também nas poucas interlocuções que teve com os demais ministros. Não tem preparo. Mas ele não precisa ter preparo. O objetivo dele, a que tudo indica, é fazer o caos. O bolsonarismo é uma fazenda, é uma receita de caos. E conseguiram. E aí se põe o apoio da mídia mainstream, também conhecida como mídia hereditária, ou corporativa, ou mídia golpista, como Paulo Henrique Amorim chamava: o PiG Partido da Imprensa Golpista.
O cenário ficou o seguinte: ninguém venceu, apesar de que todos estão chamando de vitória para si. Vitória para si por quê? Porque o bolsonarismo conseguiu colocar o STF na lona. O STF já estava próximo da lona. Também não vamos disfarçar: o STF estava com quase 60%, 57%, quase 60% de rejeição na opinião pública. Embora o poder do Supremo seja um poder contra-hegemônico — ele não é como o Congresso Nacional, que depende da opinião pública, que depende de eleição. Ele é formado por quadros indicados, que são sabatinados. Isso é o Supremo, e os tribunais superiores seguem a mesma lógica. Então o Judiciário sempre aproveitando isso, até porque o Brasil é isso o que sempre foi. Então o bolsonarismo conseguiu levar o STF na lona. Não era muito difícil, mas conseguiu.
A parte que não quer colocar o Supremo na lona foi para a luta e conseguiu provar, conseguiu mostrar a falta de tato, a falta de formação, a falta de preparo intelectual, preparo acadêmico do ministro André Mendonça. Mas ele não está lá por ter preparo acadêmico. Ele foi colocado lá com o objetivo do evangelistão — uma parte dos evangélicos brasileiros, da cúpula evangélica, de alguns poucos evangélicos, Edir Macedo, Silas Malafaia, essa turma aí, que querem promover uma mudança no Brasil, um Brasil evangelistão. Vão conseguir? Não sei, pode ser que consigam. O Brasil é uma incógnita, sempre foi uma incógnita, a gente nunca sabe para onde vai correr. Acho difícil que o Brasil se transforme num evangelistão, mas eles tentam, eles tem esse objetivo.
Mas o cenário que se mostra é isso: um Supremo na lona. Mas como o ministro André Mendonça é muito frágil, mostrando uma fragilidade que me espantou — eu esperava um pouco mais de preparo —, mas não: ele foi moído, literalmente moído, pelo ministro Gilmar Mendes, pelo Flávio Dino. Os dois principais confrontos que houveram ontem, ele foi moído, ele não mostrou resistência. E no embate que se previa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, Alexandre de Moraes mostrou que é um filho realmente da elite paulista. E o Alexandre de Moraes tem a elite paulista por trás.
Muita gente quer colocar o Alexandre de Moraes como uma peça junto com o PT. Não, o Alexandre de Moraes não tem nada a ver com o PT. E esse caminho que o PIG — ou a mídia mainstream, ou a mídia hereditária, ou corporativa — está caminhando para dizer que a esquerda está caminhando para a defesa do Alexandre de Moraes contra o ministro terrivelmente evangélico, terrivelmente bolsonarista, terrivelmente golpista, porque ele está conseguindo corromper, fazer um golpe por dentro do Supremo Tribunal Federal, está conseguindo. Não sei se ele vai conseguir, mas ele está conseguindo.
A sessão de ontem foi uma prova disso. O Alexandre de Moraes não tem afinidades ideológicas com o PT, com a esquerda. A afinidade ideológica dele é com a Faria Lima, é muito mais com o Tarcísio de Freitas, na linha econômica, na linha liberal. Na questão de costumes, aí tem-se esse embate entre as elites tradicionais com essa nova elite caipira que a Márcia Tiburi tão bem descreveu alguns anos atrás — que não tem nada a ver com o Jeca Tatu, não tem nada a ver. É esse breganejo aí que toma conta dos ouvidos de parte da galera, que não honra as raízes sertanejas do Brasil. Pelo contrário, trazem uma importação do consumo dos Estados Unidos, aquela música texana, aquela música brega mesmo, eles importaram para cá. E como a gente aceita tudo — o Brasil aceita tudo, de coisas ruins; coisas boas o Brasil tem uma dificuldade grande de aceitar, muito grande. Essa é a nossa história.
Então, enfim, o que nesse comentário aqui dá para dizer? Quem venceu? Boa pergunta. Os bolsonaristas venceram porque jogaram o Supremo na lona. Mas a campanha do presidente Lula e a esquerda também venceram porque mostraram a falta de preparo intelectual e acadêmico do ministro terrivelmente evangélico, bolsonarista e que agora se prova golpista. Está realmente com uma tentativa de golpe por dentro do Supremo Tribunal Federal. E tudo isso a 18 dias das eleições, no primeiro turno.
O que isso vai ocasionar nas eleições? Provavelmente isso vai ser colocado no liquidificador com todas as outras notícias, com todas as outras bombas. Inclusive, que o bolsonarismo e a mídia mainstream estão tentando esconder: a ligação de Flávio Bolsonaro, o Bolsonaro Júnior, com o Daniel Vorcaro. Ele pediu, ele confessou que pediu dinheiro. E até agora não se explicou para quem foi esse dinheiro, para onde foi esse dinheiro. A suspeita é que esse dinheiro está sendo utilizado — ou foi utilizado, porque pode ter acabado já, porque esse povo, dinheiro na mão é vendaval — para financiar as aventuras golpistas do zero três na terra do Tio Sam. Mas isso é uma linha de investigação, ainda tem que se provar. Está em caminho para isso, mas tem que se provar.
Então, o que vai dar isso? O que isso vai resultar na eleição? Por que a mídia mainstream, ou hereditária, ou corporativa, ou PIG, está tão ferozmente escondendo o Flávio Bolsonaro e as suas relações com o Vorcaro e indo para cima com as relações nada republicanas dos ministros do Supremo, que envolvem o Alexandre de Moraes, envolvem o André Mendonça, envolvem o Kássio com K Nunes, envolvem o Luiz Fux — embora ele ficou todo nervoso na sessão de ontem, mas porque não é por ele, é pelo filho dele —, pelo Dias Toffoli, que ontem ficou quieto, aproveitou ali, “não é comigo”, ninguém mais falou. A revista Piauí trouxe uma matéria na última segunda-feira trazendo todos os detalhes do caso do Dias Toffoli, que foi escondido, que ficou escondido, e a mídia só estava trazendo os casos do Alexandre de Moraes, e nada. E o Dias Toffoli aproveitou: “não, estou suspeito, mas vou ficar aqui, vou ficar assistindo aqui de camarote”, não deu uma palavra, ninguém falou o nome dele e ele passou ao largo da discussão.
E tudo isso a 18 dias da eleição. E agora, dia 23 de setembro, próxima quarta-feira, parece que vai ter uma nova sessão do Supremo para discutir as acusações do Alexandre de Moraes contra o André Mendonça. Ou seja, o Supremo vai continuar sangrando no meio da rua, lá na Praça dos Três Poderes, numa guerra fratricida. E não vão faltar mais 18 dias para as eleições, vão faltar 11 dias, 12 dias, 13 dias. Então, como isso vai bater no eleitorado? Isso vai mudar, impactar o indeciso? O evangélico, por exemplo, vai sair em defesa do André Mendonça, porque o André Mendonça é evangélico? Perguntas a serem respondidas e que só vão ser respondidas no dia da eleição.
Mas é isso: o Brasil está numa sinuca de bico. Mas também nunca deixou de estar. O Brasil sempre esteve em sinuca de bico, mas agora a sinuca de bico é mais visceral.
Ou o Brasil vai caminhar para um projeto autônomo, junto com o Sul Global, com o BRICS, com independência econômica — a gente tem que resolver os nossos problemas aqui internamente —, ou a gente vai voltar a ser colônia. Não de Portugal, como a gente já foi no século XVI, XVII, XVIII. A gente vai ser uma colônia mesmo dos EUA.
Está bem posto isso. E tudo o que fizeram a partir de 2013, a guerra híbrida que a CIA, que os EUA promoveram a partir de 2013, que levou à derrocada do governo Dilma — não que o governo Dilma não teve culpa, teve culpa também, mas teve uma ajuda fantástica. Dilma conseguiu ser reeleita, mas não conseguiu governar, porque estava no meio de uma guerra híbrida. Então a incompetência na administração em meio à guerra híbrida resultou no golpe que resultou em Alexandre de Moraes, que resultou no golpista que evitou o golpe de 2022. Ele veio com o golpe de 2016, que colocou Temer na jogada — o aliado do golpista Temer, que salvou o Brasil do golpe dos Bolsonaros, que fecharia o sistema. E agora a gente não sabe para onde que a gente vai.
Ou a gente vai seguir esse caminho que a gente está trilhando, tímido ainda, porque a gente poderia estar num caminho mais célere, mas a gente não está, até porque o atual governo, o Lula III, ele foi tímido. Por quê? Porque ele teve medo de aderir plenamente à Rota da Seda. De aderir plenamente à Rota da Seda em 2024 e comprar uma briga com o império ianque, que ainda é um império, apesar de ser decadente. Mas estar decadente não significa que ele tenha menos poder. Pelo contrário, ele vai colocar todas as suas forças de poder para destruí-lo. Então o governo Lula III teve medo e não aderiu à Rota da Seda.
Que, se tivesse aderido, seria eleito no primeiro turno com o pé nas costas, porque o Brasil estaria em um canteiro de obras, estaria caminhando para zerar o déficit habitacional, estaria fazendo um canteiro de obras com a infraestrutura — infraestrutura rodoviária e, sobretudo, ferroviária —, estaria iniciando uma revolução nos trilhos, e com o projeto de colocar já a escola em tempo integral. Então, o que revolucionaria o Brasil. Seria um projeto de longo prazo. Mas não teve. O governo Lula III não adotou, não assinou, não aderiu de maneira plena à Rota da Seda. Ficou com medo dos Estados Unidos. Essa é a realidade. Ficou com medo. E falou: “não, o nosso caminho é por nós aqui”.
O problema é que as nossas elites não querem um projeto de desenvolvimento econômico que nos liberte economicamente. Elas querem que a gente continue sendo uma nação agroexportadora. E a eleição está nesse ponto. É tudo isso colocado. Tudo isso.
E o presidente Lula é forte, se mostrou, chega aos 80 anos, vencendo três eleições, disputou outras três eleições antes, perdeu, ganhou três das seis eleições que disputou, vai para sua quarta disputa que ele poderia ganhar, contra um consórcio que quer que o Brasil volte ao governo Jair Bolsonaro. Só que não vai ser um governo Jair Bolsonaro de 2018, vai ser um governo Jair Bolsonaro 2.0. Mais ou menos como a gestão Trump está sendo nos Estados Unidos. A gestão Trump I foi tímida perto da gestão Trump II. Vai ser mais ou menos assim. Vai ser pauleira.
E essa mídia mainstream, que está brincando com esse abismo, acha que vai se dar bem? Olha, não sei. Não sei, porque eles estão brincando com fogo. A gente não sabe. Depois que a porta do inferno foi aberta em 2013, e até hoje a porta do inferno não foi fechada, a mídia mainstream, hereditária, corporativa ou PiG está querendo escancarar essa porta para o inferno agora em 2026.
Então, vamos ver que caminho o Brasil vai trilhar daqui a 18 dias. Ou a gente assusta esse monstro que está se avizinhando, ou a gente vai para uma guerra que, quem acompanhou a eleição do segundo turno de 2014 sabe que foi guerra. O segundo turno de 2018 foi guerra. O segundo turno de 2022 foi guerra. Então, pegue essas guerras de 2014, 2018 e 2022 e leve-as ao cubo. A guerra vai ser levada ao cubo. O segundo turno de 2026 vai ser uma guerra ao cubo do que foram os segundos turnos das últimas três eleições.