ESPECIAL: Estados Unidos celebra 250 anos de independência, mas avaie como sua política externa mudou ao longo desse tempo
DW e BBC analisaram objetivos e táticas da política externa dos EUA desde a independência do país em 4 de julho de 1776.
Publicado em
( reeditado)
(Brasília-DF, 04/07/2026) Neste sábado 4 de julho os Estados Unidos comemoram 250 anos da declaração de independência da Grã-Bretanha.
"Vida, liberdade e a busca da felicidade" eram os "direitos inalienáveis" quando os fundadores dos Estados Unidos declararam independência da Grã-Bretanha, em 4 de julho de 1776. Nos 250 anos que se seguiram, esses ideais de democracia, direitos humanos e liberdades fundamentais foram o principal mote da política externa do país.
Os americanos, porém, demonstram dúvidas crescentes sobre se os EUA têm correspondido a seus valores fundadores. Em 2024, 72% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que a "democracia nos EUA já foi um bom exemplo, mas não tem sido nos últimos anos".
A DW analisou como os objetivos e as táticas da política externa dos EUA mudaram ao longo desses dois séculos e meio, com o uso cada vez mais intenso da força militar, em vez da diplomacia.
Força militar supera diplomacia
As cientistas políticas Monica Duffy Toft e Sidita Kushi identificaram mais de 500 intervenções militares dos EUA em 250 anos, evidenciando o aumento da dependência de ações militares.
"Enquanto no passado os EUA presumiam racionalidade por parte de muitos de seus rivais, no período pós-11 de Setembro essa crença na racionalidade dos inimigos parece ter desaparecido", disse Kushi, professora assistente no Mount Holyoke College.
"A ideia passou a ser: 'Se não podemos dialogar com nossos inimigos, se não podemos usar a diplomacia, só nos resta a violência, só nos resta o uso da força'", afirmou. "E, com um orçamento do Departamento de Defesa crescendo drasticamente e um Departamento de Estado enfraquecido no pós-11 de Setembro, ocorreu o seguinte: se tudo o que você tem é um martelo, tudo começa a parecer um prego."
Embora a América Latina tenha sido o principal palco das intervenções dos EUA desde o início do século 19, países da Ásia, incluindo o Oriente Médio, ganharam destaque nas últimas décadas.
"Há uma mudança clara nos dados, com os EUA se voltando para o Oriente Médio, o Norte da África e a África Subsaariana em muitas intervenções", disse Kushi. "Isso pode ser explicado, em grande parte, pela guerra global ao terror após o 11 de Setembro, mas também pela capacidade dos EUA de projetar poder como a única superpotência. Após o fim da Guerra Fria, com maior capacidade militar, os EUA puderam atuar mais globalmente e redefinir seus interesses."
Construção de nações e mudança de regimes
Não mudou apenas o foco geográfico, mas também os objetivos. Segundo Kushi, os anos 1990 foram "a era do intervencionismo humanitário na política externa dos EUA", com expansão dos interesses nacionais para incluir o combate a atrocidades humanitárias em lugares como Bálcãs e Somália.
"Muitas dessas intervenções mostram outros países pedindo que os EUA atuassem militarmente", afirmou.
Desde 2001, segundo dados de Kushi e Toft, "manter ou construir a autoridade de regimes estrangeiros" tornou-se um dos principais motivadores das intervenções militares americanas.
Apenas neste ano, houve dois exemplos de intervenções com objetivo de derrubar regimes: a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e o início da guerra contra o Irã em fevereiro.
Outro objetivo mostra tendência oposta: embora, no início, a proteção econômica fosse o principal motivo para intervenções militares, sua importância diminuiu desde a Segunda Guerra Mundial.
As Cartas da Liberdade, ou os três documentos fundadores dos Estados Unidos, são compostas pela
Constituição dos EUA (na parte superior, redigida em 1787), pela Declaração da Independência
(no centro, 1776) e pela Declaração de Direitos (na parte inferior, 1789)
Interesses econômicos via diplomacia
Isso não significa que os interesses econômicos deixaram de ser relevantes, mas sim que a estratégia mudou. Entre as décadas de 1960 e 1980, o governo americano intensificou a assinatura de tratados comerciais, segundo o projeto Measuring American Diplomacy.
"Diplomatas são muito eficazes em promover exportações quando têm recursos e pessoal", disse Calvin Thrall, professor da Universidade Columbia. "Eles também negociam investimentos e resolvem disputas comerciais."
Segundo ele, os EUA tendem a se envolver menos com países onde não há interesse econômico relevante. "Hoje não temos embaixadores em lugares como Bolívia, Paquistão e Malawi", disse. "Mas países importantes para exportações americanas recebem atenção constante."
Os dados de Thrall e Matt Malis mostram que o número de novos tratados caiu desde os anos 1980, tanto sob governos republicanos quanto democratas.
Presidentes passaram a preferir acordos executivos, que não precisam ratificação do Congresso, mas esses também estão em queda, especialmente na última década. Isso coincide com outra tendência: os EUA têm se retirado cada vez mais de acordos multilaterais e priorizado acordos bilaterais, muitas vezes comerciais.
"Nos acordos bilaterais, o país mais forte, que, no caso dos EUA, quase sempre são eles mesmos, dita os termos", disse Thrall. "O mais notável nesta atual administração é que ela nem sequer finge apoiar a chamada ordem internacional liberal. O presidente Trump é mais direto ao dizer: 'Estamos nisso pelos nossos interesses financeiros. Não se trata de valores'."
Thrall e Malis observaram também um número recorde de cargos de embaixadores vagos. Isso pode prejudicar os interesses americanos. "Há crescente evidência acadêmica de que diplomatas são essenciais para alcançar objetivos internacionais. O que vemos é um subinvestimento histórico nessa capacidade."
Além disso, isso pode aumentar conflitos: estudos mostram que os EUA têm mais probabilidade de entrar em guerra com países onde não têm embaixador."Parece que o equilíbrio entre os instrumentos de poder dos EUA mudou em favor dos meios militares", disse Kushi. "E isso não necessariamente beneficia a segurança dos EUA nem a global."
Popularidade em declínio
Pesquisa do Pew Research realizada em abril mostrou que 62% dos americanos não confiam que Donald Trump esteja usando a força militar de forma adequada ou tomando boas decisões em política externa.
Isso acompanha uma tendência mais longa: desde os anos 1960, o instituto Gallup mede a satisfação dos americanos com a posição do país no mundo. Após um pico de 71% em 2002, esse índice caiu para 38%.
A percepção internacional também piorou. Pesquisas de 2025 e 2026 do Pew Research e da Alliance of Democracies mostram deterioração da imagem dos EUA. Segundo a Alliance of Democracies, a imagem americana melhorou em apenas três dos 48 países analisados: Israel, Rússia e China. No Brasil, essa percepção ficou praticamente estável, com uma piora de 1%.
Mais
Donald Trump não é o primeiro presidente americano a tentar ampliar seus poderes, segundo o professor de História e assuntos públicos Julian Zelizer, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Mas ele destaca que não consegue se lembrar de "outro presidente que tenha ido tão longe e que fosse tão apaixonado pelo poder".
Joshua Treviño, diretor do centro de estudos conservador America First Policy Institute, alerta para não confundirmos a imagem cuidadosamente elaborada de Trump com a expansão dos poderes da presidência.
"É fácil confundir a estética com a substância do presidente Trump", segundo ele.
Treviño cita Franklin D. Roosevelt (1882-1945) e Richard Nixon como presidentes do passado que tentaram ampliar os poderes do Executivo.
"Eu rejeitaria veementemente a ideia de que Donald Trump estaria fazendo algo qualitativamente único na história americana", destaca ele.
Os limites exatos do poder de um único político geram debates acalorados há muito tempo nos Estados Unidos.
Já no século 18, os pais fundadores do país se preocuparam muito com a excessiva concentração de poder nas mãos de um único chefe de Estado. Tanto que alguns deles queriam um comitê executivo para governar o país, em vez de um presidente.
Um líder 'deve ser particularmente consciente das suas próprias deficiências', disse o primeiro
presidente americano, George Washington, em seu discurso de posse
Já outros defendiam a concessão de mais poderes.
"Você tem medo do único e eu, dos poucos", escreveu o segundo presidente americano, John Adams (1735-1826), ao terceiro mandatário, Thomas Jefferson (1743-1826).
"Estamos em perfeito acordo de que os muitos devem ter representação completa, justa e perfeita. Você está apreensivo com a monarquia; eu, com a aristocracia. Por isso, eu teria concedido mais poder ao presidente e menos ao Senado", explicou Adams em 1787.
Em um dado momento, os pais fundadores chegaram a considerar alguns títulos com aparência distintamente monárquica.
George Washington (1732-1799), Benjamin Franklin (1706-1790) e Thomas Jefferson podem ter debatido amplamente estas questões constitucionais na Taverna Middleton, um bar mais velho que o próprio país no litoral de Annapolis, hoje no Estado americano de Maryland.
O local se orgulha de dizer que todos eles bebiam ali nos primeiros dias da nova república.
É ali que encontro Lorraine Ross, comemorando seu 60° aniversário. Ela conta que também deseja celebrar o aniversário dos Estados Unidos, mas está preocupada com o futuro do país.
"Não vou sair por aí, correndo e dizendo 'viva, EUA, estamos livres'", diz ela.
Ross afirma estar particularmente preocupada com os cortes da assistência financeira às famílias carentes e crianças com necessidades especiais.
Ela demonstra sua irritação com o Congresso, por "simplesmente deixar [Trump] fora de controle, ignorando todas as leis" que restringiram o comportamento dos presidentes americanos no passado.
Outros americanos com quem conversei na taverna simplesmente aguardam as festividades do Dia da Independência (4 de julho). O governo Trump prometeu que elas serão as maiores e melhores comemorações já realizadas.
John Knox conta que não quer ficar preso à política em torno do atual presidente. Ele veio de Atlanta, no Estado da Georgia, para visitar o local.
Para ele, se as pessoas discordarem de Trump, o momento para expressar sua insatisfação são as eleições de meio de mandato, em novembro, não durante as comemorações do dia 4 de julho.
O modelo do presidente americano foi estabelecido em 1789, quando o país deu posse a George Washington como o primeiro mandatário do país.
No seu discurso de posse, Washington pareceu contido em relação ao poder que recebeu. Ele afirmou que um líder "deve ser particularmente consciente das suas próprias deficiências".
É difícil imaginar Trump, que se autodeclarou "o maior presidente da história", expressando um sentimento similar.
( por DW e BBC. Edição: Política Real)