O espelho da IA: como a "Inteligência Artificial" pode destruir a democracia e humanidade
O cientista Miguel Nicolelis fez um alerta contundente sobre os perigos da IA, denunciando a falta de lucro real do setor, o viés discriminatório dos algoritmos e a tentativa de criar uma "monarquia tecnocrática global".
Por Humberto Azevedo
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O neurocientista Miguel Nicolelis, uma das mentes mais brilhantes do Brasil e do mundo, concedeu uma entrevista de quase duas horas aos canais do jornalista Gustavo Conde - editor do site Brasil 247, na qual fez uma análise profunda e crítica sobre o atual estágio da inteligência artificial (IA). Segundo ele, a IA atual, que prefere chamar de "Nina" (Nem Inteligente Nem Artificial), representa uma ameaça existencial à democracia e à própria humanidade, sendo fruto de uma bolha financeira e de um plano de dominação global.
Nicolelis desmonta o discurso dos "senhores supremos ou soberanos", aos quais chama de "overlords" da tecnologia, como Elon Musk - primeiro trilionário do planeta e dono da Tesla - e Sam Altman - ceo da OpenAI, classificando-os como "bobinhos" e "papagaios estatísticos" cujo verdadeiro objetivo não é o progresso, mas a criação de um sistema de vigilância e controle social. A entrevista abordou desde o uso discriminatório da IA em tribunais americanos até a polêmica instalação de data centers no Brasil, que o cientista compara a "parasitas digitais".
"A inteligência artificial é a concretização formal tangível de toda a visão filosófica do Ocidente, de que para você definir algo como conhecimento, você tem que ter regras que formalizam fatos. Só que, infelizmente, para todo esse povo, um certo Kurt Gödel [filósofo, matemático e lógico austríaco, naturalizado norte-americano, considerado, ao lado de Aristóteles, um dos mais importantes lógicos da história, e que causou imenso impacto no pensamento científico e filosófico no século XX] acabou com eles definitivamente (...) Se você elimina o pensamento crítico, se você elimina a inteligência orgânica e se você provê esses caras acesso a tudo que você produz, seus e-mails, seus artigos, seus livros, basicamente você cria o maior sistema de dominação, controle e vigilância da história. É o sonho de qualquer ditadura", comentou Nicolelis.
O NEGÓCIO DA IA
Nicolelis expõe a fragilidade do modelo de negócios da indústria de IA, que ele descreve como uma "operação em loop", que fica num movimento contínuo sem sair do lugar, sem lucro real, mas com potencial gigantesco de destruir a economia global. Ele explica como as empresas denominadas de "big techs" se financiam mutuamente em um ciclo especulativo que não gera retorno, mas suga toda a liquidez do mercado, colocando em risco os fundos de pensão e a poupança dos cidadãos.
O cientista revela que o investimento em infraestrutura de IA pelas quatro maiores empresas (Amazon, Meta, Microsoft e Google) está projetado para R$ 4,1 trilhões em 2026, um valor superior a todo o investimento em infraestrutura tradicional do governo dos Estados Unidos (EUA). Apesar disso, segundo ele, citando um dos principais bancos operadores do mercado financeiro Goldman Sachs, esse investimento não teve impacto no Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano.
"O título do meu capítulo é 'Um negócio que não dá lucro, mas pode destruir a sua economia'. (...) A Nvidia vai lá e fala: 'Vou investir x bilhões na OpenAI'. Aí no outro dia você fica sabendo que a OpenAI vai comprar o mesmo valor de chips da Nvidia. Ou seja, nenhum centavo se moveu de uma empresa para a outra. É o chamado 'operação em loop'. (...) Eles vão aspirar todo o dinheiro, toda a liquidez que existe no sistema financeiro americano para sustentar essas miragens, né?", continuou Nicolelis - vencedor de prêmios ofertados por instituições renomadas como Daniel E. Noble Award 2017 (IEEE), na categoria "Tecnologias Emergentes", por suas pesquisas em interfaces cérebro-máquina e Prêmio Pioneer do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, sendo o primeiro brasileiro a receber essa honraria, que incluiu o financiamento de quase R$ 13 milhões para pesquisas biomédicas inovadoras.
PRECONCEITO ALGORÍTMICO
Um dos pontos mais alarmantes levantados por Nicolelis, na entrevista, é o uso de sistemas de IA para tomar decisões cruciais na justiça e na concessão de crédito, que carregam vieses racistas e discriminatórios contra afro-americanos e hispânicos. Ele cita exemplos concretos nos Estados Unidos, onde algoritmos decidem se uma pessoa fica presa ou não, ou se consegue um empréstimo para comprar a casa própria, perpetuando desigualdades históricas.
Nicolelis critica duramente a visão de figuras como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, que elogiou a IA como mais objetiva que juízes. Para o neurocientista, essa é uma "bobagem" que ignora o fato de que os algoritmos são programados por humanos e carregam todos os seus preconceitos, além de serem caixas-pretas cujo processo de decisão é incompreensível até para seus criadores.
"No momento que você delega funções fundamentais de uma democracia, como as que o poder judiciário tem que intervir, para um sistema que foi programado com interesses que ninguém sabe quais são, basicamente para ser vendido como um produto comercial... Você começa a demolir a estrutura jurídica, política, econômica de qualquer democracia. (...) O software usado por várias prefeituras e tribunais municipais nos EUA para decidir se você fica preso esperando julgamento foi demonstrado que tinha um viés absolutamente tremendo contra afro-americanos. Eles ficavam presos 10, 20 vezes mais frequentemente do que anglo-saxões", complementou.
DATA CENTERS, PARASITAS
Nicolelis fez ainda um alerta severo sobre a instalação de data centers de IA no Brasil, classificando-os como "parasitas digitais". Ele denuncia que o programa Redata, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Centers, é uma "tragédia" e uma "vergonha", pois oferece incentivos fiscais a empresas estrangeiras sem nenhuma contrapartida em transferência de tecnologia ou geração de empregos, enquanto consome recursos hídricos e energéticos em um país que já sofre com secas históricas.
O neurocientista compara a situação ao movimento de resistência que cresce nos Estados Unidos, onde comunidades rurais estão bloqueando a construção de data centers devido aos impactos ambientais, como o consumo excessivo de água, a poluição sonora que afeta a produção de leite e ovos, e o calor gerado, equivalente a "23 bombas atômicas sendo detonadas todos os dias".
"O Brasil já tem 200 data centers, boa parte na região Sudeste que tá enfrentando uma seca histórica. A cidade de São Paulo todas as noites não tem água. E a ONU soltou um relatório que a IA em 2027 é capaz de consumir um volume de água equivalente a 1,3 bilhão de pessoas. (...) O que as comunidades americanas estão descobrindo é que o ruído, um zumbido que está afetando tanto as pessoas quanto os animais. As vacas estão deixando de produzir leite, as galinhas estão deixando de produzir ovos por causa do estresse induzido. E o calor: um data center maior que [a ilha de] Manhattan [em Nova York] vai produzir calor equivalente a 23 bombas atômicas sendo detonadas todos os dias", completou.
A RELIGIÃO DA IA
Para Nicolelis, a inteligência artificial se tornou uma "religião" e um "culto" criado por um pequeno grupo de bilionários que se apresentam como "overlords" e "gênios", mas que, na verdade, são apenas homens de negócio com complexo de inferioridade. Ele traça um paralelo entre a mitologia criada em torno de Elon Musk, Mark Zuckerberg - dono da Meta - e Sam Altman com a dos antigos faraós egípcios, onde a retórica e a encenação são usadas para manipular as massas e justificar um projeto de poder global.
O cientista conclui que o futuro não está definido e que a resistência é possível. Ele critica a postura de diversos políticos brasileiros - da direita à esquerda - que, alinhados aos interesses das "big techs", aprovam projetos como o Redata sem ouvir a comunidade científica, e faz um apelo para que a sociedade reaja contra essa "monarquia tecnocrática global" que visa homogeneizar culturas e eliminar a democracia.
"Nada é inevitável. O destino não está definido, não está traçado. Eu tenho visto fora do Brasil que a resistência, essa visão de futuro, porque ninguém elegeu esses caras para decidir qual é o nosso futuro. (...) Os 'overlords' da inteligência artificial estão aproveitando desse vazio, desse vácuo criado pela distância entre os representantes e os representados para entrar no meio e tentar dizer que nós temos que viver assim, que é para acabar com a democracia. Esse é o projeto global desses caras, é instituir uma monarquia tecnocrática global", disparou.