Nicolas Maduro assume terceiro mandato presidencial na Venezuela sob intensa contestação internacional
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Com agências.
(Brasília-DF, 10/01/2025) Nesta sexta-feira, 10, Nicolás Maduro deverá tomar posse pela terceira vez consecutiva como presidente da Venezuela, mais uma vez sob intensa contestação internacional e da oposição, para governar o país por mais seis anos.
Apesar de tudo, a recondução de Maduro ao cargo indica sua força doméstica. Por outro, representará um novo desafio para a política externa do Brasil, avaliam três diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado e três especialistas em relações internacionais.
Isso porque o governo brasileiro não reconheceu a vitória de Maduro na votação de julho do ano passado — assim como outros países, como os Estados Unidos, e instituições como a União Europeia e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
Ao mesmo tempo, as relações entre os dois países estão estremecidas depois que o governo brasileiro criticou o processo eleitoral venezuelano e se recusou a aceitar a vitória de Maduro sem que fossem apresentadas as atas de votação que atestam o resultado.
Neste capítulo inédito que se abre nas relações entre Brasil e Venezuela, os entrevistados ouvidos pela reportagem apontam que o primeiro desafio a ser enfrentado pelo Brasil será se equilibrar diante de uma ambiguidade óbvia.
Como manter relações com um governo que se manteve no poder por meio de um processo eleitoral não reconhecido pelo Brasil?
Diplomatas e especialistas afirmam ainda que a tendência é que, ao menos no curto prazo, o Brasil mantenha as relações com a Venezuela em nível técnico, sem maiores engajamentos políticos, enquanto o cenário sobre o novo governo de Maduro não ficar mais claro.
Segundo eles, um dos elementos decisivos para saber qual direção a Venezuela tomará e, consequentemente, como isso vai afetar o Brasil, é a posse do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para 20 de janeiro.
De acordo com os especialistas, Trump pode ser tanto um elemento de estabilização do governo Maduro como pode tentar desestabilizá-lo, o que teria consequências para o Brasil.
Fator Trump
Para os analistas e diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil, um dos principais fatores a se observar sobre o futuro da Venezuela é a postura que será adotada pelo governo Trump.
No primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2021, o governo americano impôs sanções à Venezuela que impactaram a economia do país.
Entre elas, a proibição à compra de petróleo venezuelano por empresas dos Estados Unidos e oferta de recompensa de US$ 15 milhões, em 2020, pela prisão de Maduro, acusado pelo país de narcotráfico e terrorismo internacional.
Durante o governo de Joe Biden, algumas das sanções econômicas foram aliviadas após promessas do governo venezuelano de retorno à normalidade democrática. Isso permitiu que os Estados Unidos voltassem a comprar petróleo do país.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela para os Estados Unidos aumentaram 64% em 2024 na comparação com 2023, chegando a 220 mil barris de petróleo por dia, segundo a agência Reuters.
Atualmente, o país é o segundo maior comprador de petróleo venezuelano, atrás apenas da China.
A dúvida entre os analistas é sobre que postura Trump adotará em relação ao governo de Maduro.
Trump nomeou o senador Marco Rubio como seu futuro secretário de Estado, cargo equivalente ao de ministro das Relações Exteriores.
Rubio é conhecido por ser um duro crítico de Maduro e ter defendido o não reconhecimento de sua vitória nas eleições de 2024.
A pesquisadora Stephanie Braun, doutoranda em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) acredita haver espaço para mudanças nas relações entre os dois países.
"Vai ser complicado para Maduro (lidar com Trump), mas talvez não tanto quanto foi anteriormente", afirma Braun.
"Neste momento, os Estados Unidos estão precisando mais do petróleo venezuelano do que anteriormente. Talvez isso dê uma amenizada na relação entre os dois países e novas sanções não sejam implementadas."
Um dos diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil diz que é a postura do governo americano e não a do Brasil que deverá ter maior influência sobre o futuro da Venezuela.
"Trump pode ser pragmático e dizer: 'Deixa como está. Eu compro seu petróleo barato, mantenho a inflação sob controle e você não me causa problema'. Se isso acontecer, Maduro pode ficar até o final do mandato e até mais", diz o diplomata.
"Agora, se Trump adotar uma postura mais dura, a tensão na região vai aumentar e tudo pode acontecer."
Segundo o diplomata, o receio é de que uma atuação mal calibrada do governo americano possa trazer mais instabilidade à região.
Ele afirma que, historicamente, há uma percepção entre diplomatas latino-americanos de que os Estados Unidos não se interessam pela região.
Segundo ele, o temor agora é de que essa situação mude: "A gente sempre brinca: é melhor que eles não comecem a se interessar por nós".
(da redação com informações da BBC. Edição: Política Real)