INTERNACIONAL: Polícia alemã identifica mais suspeitos de planejar golpe; "príncipe" alemão preso por tramar golpe de Estado
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Da redação com DW Brasil
(Brasília-DF, 09/12/2022) A tentativa de uma ação armada com a busca de um Golpe de Estado na Alemanha continua a gerar notícias, com a possibilidade de mais envolvidos, As autoridades alemãs sinalizam que depois das prisões feitas, face as evidências coletadas em batidas policiais contra suspeitos de planejar um golpe de extrema direita para derrubar o governo alemão, o número de pessoas envolvidas deve crescer.
O chefe do Departamento Federal de Investigações (BKA, na sigla em alemão), Holger Münch, disse nesta quinta-feira (08/12) que foram encontrados mais dois indivíduos ligados à conspiração, elevando o número total de suspeitos para 54. A cifra pode continuar a crescer, disse ele à emissora pública alemã ARD.
Münch afirmou que outras pessoas foram "identificadas" e que a polícia está trabalhando para determinar a ligação delas com a rede. Pelo menos 25 pessoas foram presas nesta quarta-feira em conexão com o complô.
Boa parte dos suspeitos eram apoiadores do movimento de extrema direita Reichsbürger ("Cidadãos do Império Alemão", em tradução literal). Os membros do grupo rejeitam a Constituição alemã do pós-guerra e pedem a queda do governo.
"Não dá para supor que um grupo composto por um número de pessoas de dois ou talvez três dígitos tinha condição de realmente desafiar o sistema estatal alemão ou mesmo abalá-lo", ponderou Münch. "Mas temos aqui, sim, uma mistura perigosa de pessoas que seguem convicções irracionais, algumas com muito dinheiro e outras em posse de armas, e com um plano que querem realizar", acrescentou Münch. "Isso o torna perigoso e é por isso que agora intervimos e colocamos um claro sinal de 'pare'."
Münch disse que isso envolve realizar prisões, buscas, ampliar ainda mais a rede dos investigadores e tentar obter uma imagem ainda mais clara do grupo e das capacidades da rede.
Os promotores disseram na quarta-feira que o "objetivo" dos conspiradores era derrubar o governo e que eles estavam dispostos a usar violência e até assassinatos para alcançá-lo; mas falaram pouco sobre até que ponto o golpe era viável ou o quão avançado o plano estava.
A operação de busca de quarta-feira teria alvejado 150 propriedades em 11 estados alemães. Armas foram encontradas em mais de 50 das propriedades revistadas, disse Münch na noite de quarta-feira. A rede está ligada ao movimento de extrema direita Reichsbürger, um grupo sem estruturas formais que pede a dissolução do Estado e do governo alemão.
Líder preso
O secretário do Interior do estado alemão da Turíngia, Georg Maier, disse à rádio Deutschlandfunk nessa quinta-feira que mais prisões são "esperadas" depois que a polícia teve tempo de processar e analisar as evidências apreendidas durante as batidas, incluindo telefones celulares.
O estado do leste da Alemanha tem uma forte presença de grupos de extrema direita. Nele fica um pavilhão de caça de propriedade do suposto líder do Reichsbürger, o "príncipe" Heinrich 13º Reuss, e que agora é palco de uma investigação. Reuss, de 71 anos, que vem de uma família aristocrata, foi preso em sua casa em Frankfurt na quarta-feira.
Maier informou também que o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) forneceu um fórum para a retórica antigovernamental na Turíngia e em outros lugares. "A AfD tornou-se cada vez mais radical. O partido espalha essas fantasias de conspiração e fantasias de derrubar [o governo]", disse Maier. A AfD já está sendo monitorada pelas autoridades na Turíngia por suspeitas de atividades "anticonstitucionais".
Outro líder da conspiração foi identificado como Rüdiger von P., um ex-comandante de paraquedistas de 69 anos.
Entre 1993 e 1996, Rüdiger von P., hoje com 69 anos, foi comandante do batalhão de pára-quedistas 251, que posteriormente ajudou a formar o KSK. Ele teria sido expulso do exército devido à venda não autorizada de armas dos estoques do antigo exército da Alemanha Oriental.
Rüdiger costuma passar parte do seu tempo no Brasil, mas estava em Freiburgo, no sul da Alemanha, onde mora sua filha, quando foi preso. Há empresas registradas em seu nome em Santa Catarina e ele atuou como representante comercial de companhias de energia no Brasil.
Em 2019, numa página de um agitador de ultradireita alemão, alguém se identificando com o nome de Rüdiger von P., deixou uma mensagem pedindo a eliminação de "maçons" e afirmando "a verdade só estará acessível à humanidade após a mudança do sistema". Finalizou afirmando "saudações do Brasil".
Outra suspeita detida pela polícia foi identificada pelos promotores como Birgit M.-W., uma juíza em Berlim e ex-parlamentar do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD). O partido está cada vez mais sob escrutínio dos serviços de segurança alemães devido a seus laços com extremistas de direita.
Preocupação com forças de segurança envolvidas
Entre os suspeitos na investigação do Ministério Público Federal estão um soldado do Comando de Forças Especiais (KSK) das Forças Armadas Alemãs, além de vários reservistas.
O governador do estado de Renânia do Norte-Vestfália, Hendrik Wüst, disse em entrevista à rádio Deutschlandfunk ser muito preocupante que pessoas com treinamento militar ou acesso a armas estejam envolvidas na suspeita rede terrorista.
No entanto, ele acrescentou que os ataques foram um sinal de que o Estado alemão é capaz de se defender e espera que mais ações sejam tomadas contra o movimento Reichsbürger.
O chefe do BKI, Holger Münch, acrescentou que mais verificações de antecedentes devem ser realizadas nos membros das forças de segurança. "Em tempos como estes, quando as forças de segurança são muito solicitadas, devemos poder contar com o fato de que todos estão apoiando a ordem democrática", disse ele à emissora pública ARD.
O chefe dos serviços de inteligência doméstica da Alemanha, Thomas Haldenwang, também pediu o aumento das verificações de segurança de qualquer pessoa que trabalhe nas forças de segurança estaduais ou federais, acrescentando, no entanto, que a grande maioria da polícia e das forças de segurança não nutre sentimentos antigovernamentais.
Nos últimos anos, o número crescente de Reichsbürger tem alarmado as autoridades de segurança alemãs. Em seu relatório de junho de 2022, o serviço de inteligência doméstico estimou que cerca de 21 mil pessoas estão ligadas ao movimento.
Falando à ARD nesta quinta-feira, Haldenwang disse que desses 21 mil, cerca de 10% são avaliados como com tendência a cometer atos de violência. "Aqui, pela primeira vez, você tem a situação em que havia uma rede nacional com planos muito concretos. Havia planos para realmente implementar uma derrubada do governo", disse.
Príncipe
Há mais de um século, os ancestrais de Heinrich 13º, "o príncipe Reuss", governavam a cidade de Gera e seus arredores, onde hoje é o estado da Turíngia, no leste da Alemanha. Se Heinrich tivesse conseguido o que planejava – um golpe de Estado armado contra o governo alemão –, ele teria conquistado isso e muito mais.
"Conheça o homem que quer se tornar o rei da Alemanha", escreveu em sua conta no Twitter o político da legenda A Esquerda Dietmar Bartsch.
No entanto, ele acabou sendo preso pela polícia alemã na quarta-feira, junto com outras 24 pessoas,
Heinrich e os outros suspeitos presos pertencem ao movimento de extrema direita Reichsbürger ("Cidadãos do Império Alemão", em tradução literal). Além de propagar teorias de conspiração, os membros do grupo rejeitam a Constituição alemã do pós-guerra e pedem a queda do governo.
Estima-se que o movimento possua cerca de 21 mil integrantes. Eles acreditam que a Constituição alemã, o chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, e o parlamento do país, o Bundestag, fazem parte de um sistema criado pelos Aliados no fim da Segunda Guerra Mundial para tornar a Alemanha um Estado vassalo de seus interesses.
Golfe, imóveis e teorias de conspiração
Heinrich 13º, o "príncipe", de 71 anos, divide seu tempo entre Frankfurt, onde está a sede de sua empresa imobiliária, e seu pavilhão de caça na Turíngia, onde abrigou simpatizantes do Reichsbürger e um clube de golfe. Ele também é produtor de vinho.
Entre a organização de clubes de golfe para elites locais e a venda de imóveis de luxo, Heinrich encontrou tempo para dar uma palestra sobre temas do movimento no World Web Forum, em Zurique, na Suíça, em 2019.
Defensor da volta da monarquia, Heinrich reiterou a crença de que, por não existir um tratado de paz no fim da Segunda Guerra Mundial, a atual República Federal da Alemanha democrática não tem uma base legal válida. Depois, soltou várias alegações antissemitas contra a família Rothschild antes de concluir que o único passo lógico seria voltar ao tempo do Império Alemão, cujo kaiser (imperador) teria sido afastado do poder há 100 anos contra a vontade do povo.
Horrorizados, os participantes deixaram a palestra ou vaiaram o "príncipe", que havia sido convidado para discursar na conferência global para líderes empresariais, digitais e políticos no último minuto, após uma desistência.
Processo contra o governo alemão
Amante do automobilismo, com cinco irmãos, e parceiro de uma modelo russa, Heinrich fez campanha durante anos para a reconstrução do mausoléu de sua família no centro de Gera. Pelo lado materno, ele é neto do duque Adolf Friedrich de Mecklenburgo (1873-1969), o último governador da antiga colônia alemã do Togo, na África.
Assim como outros membros de sua família, ele tentou receber uma indenização do Estado alemão por bens culturais e obras de arte expropriadas no século 20. Em 2017, um grupo de herdeiros recebeu 3,1 milhão de euros.
Tentativas posteriores de Heinrich de processar o governo alemão para reaver terras e propriedades, que ele afirma serem suas por direito inato, falharam. Ele gastou grandes somas de dinheiro nesta cruzada e começou a alegar ser vítima de uma conspiração do sistema judicial.
Enquanto processava o Estado, o "príncipe" coordenava uma "tropa de defesa da pátria", que, segundo os serviços de segurança, possuía algumas de dezenas de membros planejando um golpe armado. Entre seus companheiros suspeitos estão ex-membros e atuais integrantes das forças armadas e da polícia.
Segundo a imprensa local, conhecidos do "príncipe" disseram não imaginar que ele pudesse ser o líder de um grupo terrorista de extrema direita. Sua família, no entanto, já havia se distanciado dele no verão de 2022, quando ele se reuniu com um prefeito simpático à causa Reichsbürger.
Um porta-voz dos Reuss, cuja história familiar remonta 700 anos, afirmou à época que Heinrich considerava um "velho confuso".
“Receio que ele agora seja um teórico da conspiração, um velho confuso", disse Heinrich 14° de Reuss, que fala pela Casa de Reuss, ao canal MDR na época, acrescentando que Heinrich 13° já havia rompido todos os laços com o família mais de uma década antes. (Os membros masculinos da família são tradicionalmente chamados de Heinrich e com numerais para diferenciá-lo e o porta-voz não é filho de Heinrich 13°)
Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a primeira Constituição democrática alemã aboliu oficialmente a realeza e a nobreza, além de seus respectivos privilégios legais e imunidade. Atualmente, a nobreza não é mais conferida, e a Constituição rejeita privilégios legais a integrantes de antigas famílias nobres.
Rússia nega envolvimento
De acordo com autoridades, os colegas suspeitos de Heinrich incluem homens e mulheres na maioria alemães. Eles já tinham até um esboço para a organização do governo após o golpe. Heinrich 13º seria o novo chefe de Estado.
Segundo os promotores, Heinrich tentou entrar em contato com representantes da Rússia na Alemanha, mas não há indícios de que as pessoas com quem ele entrou em contato tenham reagido positivamente.
Em seu vídeo de 2019, distribuído em canais QAnon e Reichsbürger, Henrich disse ser parente da antiga casa imperial russa dos Romanov por meio de sua mãe e que essa era "uma das razões pelas quais gostava da Rússia”.
A parceria de Reuss, a russa Vitalia B., também foi presa. Segundo a promotoria alemã, ela é suspeita de ter "apoiado a associação, em particular, ajudando o acusado a estabelecer contatos com representantes do governo da Rússia".
( da redação com DW Brasil, DPA, Reuters, AFP). Edição: Genésio Araújo Jr.)