31 de julho de 2025
Brasil e Poder

Após filho de Bolsonaro afirmar que CPI seria ruim por incentivar aglomerações, Calheiros ironiza: "é importante a declaração do senador Flávio"; "talvez, ele esteja saindo do negacionismo", provocou

Emedebista alagoano, escolhido relator da CPI, falou ainda que "esse discurso" dos aliados do governo Bolsonaro "de que a CPI vai politizar é um discurso para inglês ver"; segundo ele, "quem tem politizado é o governo"

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( Publicada originalmente às 14h 00 do dia 27/04/2021) 

(Brasília-DF, 28/04/2021) Após o senador Flávio Bolsonaro (sem partido), filho do presidente da República – Jair Bolsonaro (sem partido), afirmar que a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) seria ruim, neste momento, por incentivar a aglomeração num momento de agravamento da pandemia do novo coronavírus (covid-19), o senador Renan Calheiros (MDB-AL) ironizou e afirmou que "é importante a declaração do senador Flávio". De acordo com o emedebista alagoano, isso significa que "talvez, ele [o senador fluminense] esteja saindo do negacionismo e aderindo à ciência".

O senador alagoano, escolhido relator da CPI – que investigará os possíveis crimes e omissões dos governantes do país adotados entre as medidas de enfrentamento a doença respiratória que já matou mais de 395 mil brasileiros – de acordo com dados do Conselho Nacional de Secretários estaduais de Saúde (Conass), falou ainda que "esse discurso" utilizado pelos aliados do governo Bolsonaro "de que a CPI vai politizar é um discurso para inglês ver". Segundo ele, relator da CPI, "quem tem politizado" a enfermidade é o próprio "governo" federal.

"Eu acho que antes de qualquer coisa, é muito importante comemorar a declaração do senador Flávio Bolsonaro. Por que afinal é a primeira vez que ele se preocupa com a aglomeração. Significa que, talvez, ele esteja saindo do negacionismo e esteja aderindo à ciência e a necessidade dos brasileiros. (...) Uma outra coisa é que esse discurso de que a CPI vai politizar é um discurso para inglês ver. Quem tem politizado é o governo. Haja vista o que tivemos ontem de uma decisão de juiz de primeira instância tentando com isso subtrair competência do parlamento nacional. Ora, quem faz isso não está politizando? Quem vai politizar é a CPI? A sociedade compreende muito bem essas coisas", falou.

Apuração responsável

Calheiros falou também que seu relatório representará fielmente os anseios da maioria da CPI e que não fará um parecer monocrático. E que buscará uma apuração responsável, sem se basear em apenas convicções. Neste ponto, o ex-presidente do Congresso Nacional aproveitou para fazer uma crítica indireta aos procuradores federais que participaram da operação Lava Jato que vem agora tendo suas denúncias revisitadas e anuladas pelo Poder Judiciário.

"Vamos apurar com profunda responsabilidade, com critério. Eu não serei um relator monocrático. Nós vamos a todo momento ouvir a comissão. Só valerão provas efetivamente. Nós não vamos condenar por convicção. Nós não vamos fazer power point contra ninguém. Nós queremos fazer uma investigação criteriosa e que dentro dos desdobramentos da legislação possa ser consequentemente encaminhada para qualquer providência", prometeu.

Desafio

O relator da CPI falou ainda que o principal desafio do colegiado será tentar encontrar uma maneira de acelerar o Plano Nacional de Imunização (PNI) ao mesmo tempo que fará uma investigação baseada em provas.

"Eu acho que o primeiro desafio da comissão parlamentar de inquérito é de verificar uma maneira, seja qual for, para destravar a vacinação, para que o nosso país recuperando o tempo perdido possa ter acesso a vacinas e insumos para que a gente possa rapidamente cumprir esse calendário e, paralelamente, a comissão parlamentar de inquérito vai investigar, se por ação, ou omissão, dissídio, ou irresponsabilidade, alguém colaborou para que essa matança avançasse, não é? Nós vamos apurar isso", acrescentou.

Sem ódio

Na sequência, Renan Calheiros prometeu produzir um relatório isento e que saberá distinguir suas críticas pessoais, políticas e ideológicas do governo do presidente Bolsonaro.

"Quem me conhece sabe, eu não sou de guardar ódios, né? E ver o propósito é levar a relatoria com absoluta isenção, de uma maneira criteriosa, numa investigação que sabemos será árida, mas tenho convicção que vai chegar ao seu final e esse é o propósito também da comissão, é uma comissão composta por bons quadros do Senado Federal, né? Tem um fato determinado a investigar, tem muita coisa já produzida no que se refere a provas, a postagens, a atos publicados e nós esperamos fazer a nossa parte, dar com isso as respostas que a sociedade cobra", complementou.

Método

Por fim, o relator comentou que sua atuação na CPI será a mais possível agregadora e que seu parecer resultará os trabalhos realizados pelos demais colegas de colegiado.

"Olha, todas essas questões que dizem respeito a encaminhamentos administrativos e políticos, isso tudo vai ser discutido por ocasião do plano de trabalho. Nós abrimos um espaço de tempo de 24 horas para até amanhã (28), [para] todos os membros da comissão se desejarem, possam apresentar as sugestões. Por enquanto, só apresentou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que é o vice-presidente da comissão, e o senador Humberto Costa (PT-PE). Nós esperamos que todos apresentem por que eu quero ser mais do que um relator, eu quero ser um redator, um sistematizador dessas propostas todas que os senadores deverão apresentar", completou.

"A ideia do presidente é reunirmos terça e quarta. Essa semana excepcionalmente por conta do prazo para recolher sugestões para o plano de trabalho, aí nós faremos a próxima reunião quinta-feira, quando já colocou aqui o Randolfe, nós aprovaremos aqui algumas convocações do ministro atual da Saúde, dos ex-ministros, do presidente da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária, almirante Barra Torres] e aprovaremos também vários requerimentos de requisição de informações", finalizou.

(por Humberto Azevedo, especial para a Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)