31 de julho de 2025

Bahia. Senadores nordestinos prestam homenagem a ACM.

Senado realizou sessão solene pelo líder baiano recém falecido – Veja a íntegra da fala dos senadores nordestinos.

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( Brasília-DF, 08/08/2007) A Política Real está atenta. Como já tínhamos antecipado, o Senado Federal faria hoje uma sessão solene em homenagem a história política do recém falecido senador Antonio Carlos Magalhães(DEM-BA). A homenagem se deu no dia seguinte a posse do seu filho, ACM Filho(DEM-BA), na titularidade do mandato - visto ser o primeiro suplente.

Hoje, começando às 15 horas, se deu a sessão comemorativa- a sessão ainda não foi finalizada - 19 senadores se inscreveram porém a tendência é que mais senadores falem. Vários senadores nordestinos se manifestaram. O senador César Borge(DEM-BA) foi o primeiro, depois veio o presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati(CE), ex-vp da República, senador Marco Maciel(DEM-PE), e o ex-presidente da República, José Sarney(PMDB-AL). Veja a íntegra das falas:

César Borges: “ Sr. Presidente do Senado Federal, Senador Renan Calheiros, Srs. Senadores da República, Sr. Presidente do Tribunal Regional do Trabalho, Sr. Vice-Governador do Distrito Federal, neste ato representando o Governador, Deputado Osmar Serraglio, aqui representando o Presidente da Câmara dos Deputados, Srs. Deputados aqui presentes, Deputados Estaduais, Prefeitos, Vereadores, admiradores, amigos, muitos amigos do Senador Antonio Carlos Magalhães, minhas Senhoras e meus Senhores, quero expressar inicialmente minha solidariedade e amizade com D. Arlete Magalhães, mulher que soube temperar, com sua ternura e sua tranqüilidade, aquele espírito indomável que caracterizou nosso querido Senador Antonio Carlos Magalhães. Solidariedade que se estende à sua família, na figura da sua querida filha, Tereza Helena, seus filhos e seu esposo, a Luis Eduardo Magalhães, meu saudoso amigo, com quem iniciei minha vida política e a quem imaginava continuar parceiro, até que o duro golpe do destino nos privou de sua inteligência e da sua amizade.

Desejo renovar minha solidariedade com esse nosso novo colega, um de seus filhos, o ilustre e querido Antonio Carlos Magalhães Júnior, que o sucede como seu suplente, dando continuidade à vocação política na família, que também já é exercida pelo talentoso Deputado ACM Neto.

Como seu admirador na política e na administração pública, na qualidade privilegiada de seu amigo particular, seu conterrâneo e correligionário, estou aqui para homenagear e prestar meu depoimento sobre o Senador Antonio Carlos Magalhães, que há pouco nos deixou.

Quero, também, e ainda que sem preocupação da família para fazê-lo, mas em nome da amizade fraterna que me mantinha unido ao saudoso Senador, louvar a grandiosidade do gesto dos Colegas desta Casa, que, enfrentando as dificuldades de locomoção impostas pela crise aérea, tentaram, alguns com sucesso, outros não, ir até Salvador levar pessoalmente seu derradeiro adeus ao bravo Senador, seu abraço solidário e sua palavra de conforto a seus familiares.

Para mim, foi um momento muito especial testemunhar o encontro emocionado de amigos e aliados do Senador, mas sobretudo dos seus contrários, que estiveram junto com seus familiares, sentindo, como se fossem suas, as dores deles, derramando, contidos, o mesmo pranto por eles derramado, num gesto que faço questão de registrar, por sua grandeza moral e pela transcendência de seu significado humanitário.

Em seu depoimento aos jornalistas que escreveram o livro Política é Paixão, o Senador Antonio Carlos Magalhães, num momento de vaidade, mas nem por isso exagerando, disse que somente duas siglas derivadas de nomes próprios se fixaram e se imortalizaram na História do Brasil: JK e ACM.

Eu concordo, mas acho que ele não se fez justiça; não fez justiça a si próprio, contentando-se com que as três letras de seu já lendário nome formassem apenas uma sigla, quando, na realidade, elas formavam, como continuam a formar, uma verdadeira legenda.
Não sei nele, pela multiplicidade peculiar com que se entrelaçaram, qual de suas faces se deva mais destacar: se a do Antonio Carlos Magalhães político; se a do Antonio Carlos Magalhães administrador; se a do Antonio Carlos Magalhães como figura humana, todos, porém, convencidos de que, qualquer que seja o ângulo sob o qual o examinem, ele será sempre reconhecido como uma legenda nacional de que o Brasil e, em especial a Bahia, muito dependeram em momentos decisivos.

Ninguém que dele tivesse apenas ouvido falar, bem ou mal, jamais pôde falar dele com indiferença. Amando-o, contestando-o, admirando-o, aplaudindo-o.

Recuo no tempo, para recordá-lo como líder estudantil em processo de ebulição, derramando no meio universitário, mais precisamente no diretório da Faculdade de Medicina da Bahia, de que foi aluno, as primeiras atuações que mais tarde encandesceriam o universo político da Nação.

Saudoso, sigo a recordá-lo como um dos maiores símbolos da alma do povo baiano, a que se costuma chamar carinhosamente de baianidade.

Nenhum outro homem público no Brasil encarnou com tanta fidelidade a alma simples do povo quanto Antonio Carlos Magalhães.

A grande paixão correspondida, que durante seu meio século de vida pública provocou no seio do povo baiano, vinha de seu modo carismático de se dar, tantos as manifestações populares, quanto às coisas sagradas da Bahia, jamais as discriminando, ao contrário, com elas se identificando.

Ele foi um estimulador, diria melhor, um agente catalisador, por excelência, do sincretismo, sobretudo do sincretismo nos planos religioso, político e cultural, por considerá-lo um dos componentes essenciais da nossa baianidade.

Em seu amor de devoto pela Bahia e pela sua gente humilde, Antonio Carlos Magalhães não conheceu a virtude da temperança. Amou-os, sem moderação, em cada dia de sua vida, como na canção popular: como se fosse a última vez.

Nas concentrações populares, como na festa do Senhor do Bonfim ou no desfile cívico de 2 de julho – data da Independência da Bahia – era comovente vê-lo cercado por multidões sem fim, movendo-se com dificuldade entre correligionários, estudantes, amigos e as baianas em seus trajes a rigor, que o assediavam para benzê-lo com a água de cheiro de seus cântaros, outros para abraçá-lo, para beijá-lo ou simplesmente para tocá-lo.
O povo tinha muito o que celebrar, em sinal de gratidão pelo que ele fez por sua terra, mas, muitas vezes, ao conduzi-lo em seus braços
não havia motivo imediato aparente para celebração: celebrava-se simplesmente, entre vivas e fogos de artifício, a chegada de Antonio Carlos Magalhães, nos últimos anos carinhosamente chamado de “cabeça branca”, hoje transformado numa grande saudade para o povo da Bahia.

Era comovente ver e ouvir à sua passagem a pé Idosos, jovens e crianças no espetáculo de mãos se agitando, coro de vozes, festa de faixas e bandeirolas nas sacadas do prédio do Centro Histórico de Salvador, por ele recuperado, e assim também em todos os rincões baianos.

Era comovente ver como em festa cívica de feriado municipal do interior ele era recebido pelas comunidades em todo o Estado. Quando lá estava, como Governador, ou não, inaugurando obras ou em campanha política ou em uma simples visita. Nunca vi receptividade igual.

Do meu modo particular, como sempre o vi, mais que o político que honrou, engrandeceu e enriqueceu o Congresso Nacional, quer como Deputado, quer como Senador.

Mais que dono de uma coragem pessoal, que o levou a assumir atitudes que não raras vezes colocaram em jogo sua própria liberdade de locomoção, quando em 1985, Sr. Presidente, em pleno regime militar, rebelou-se contra a candidatura oficial à Presidência da República para apoiar a candidatura oposicionista de Tancredo Neves, consolidando-a, dando de certa forma início a redemocratização do País.

Mais que o administrador que revolucionou o conceito e as práticas da administração pública, para permitir à Bahia a mais radical das transformações de toda a sua história, em todos os campos, dotando-a de obras estruturantes que a projetaram no cenário nacional.

Mais que tudo isso, Antonio Carlos deve ser lembrado, sempre, com uma das figuras humanas mais singulares que o Brasil conheceu.

Sigo a evocá-lo, agora como político, para lembrar que o Senador Antonio Carlos Magalhães vai continuar presente entre nós pelo legado de coragem pessoal que nos deixou; pela forma intransigente com que defendeu os legítimos interesses do Brasil e, de modo particular, os mais legítimos interesses da nossa querida Bahia; mas vai continuar em memória entre nós, principalmente pelo exemplo de homem público trabalhador, sério e competente que ele encarnou.

A responsabilidade dos que o sobrevivem, nesta Casa, aumenta muito sem ele; sem a sua presença física que insinuava respeito; sem a sua sabedoria e a sua experiência postas à disposição e a serviço do Congresso Nacional.

Sem os seus conselhos paternais aos mais novos; sem os seus embates sempre proveitosos com os mais velhos; sem os seus constantes libelos precisos, concisos, diretos e contundentes contra os desvios éticos e morais, Brasil afora.

Que fazer agora sem ele?

Eu me recordo dele, ao perder o filho Luís Eduardo, meu querido amigo, naquele triste e fatídico 21 de abril de 1998, extremamente abalado, como não poderia deixar de ser, quando todos, inclusive os mais íntimos, davam-no como homem vencido e liquidado para a vida pública, Antonio Carlos ressurgiu da dor, redivivo, dizendo que a única forma de compensar o vazio deixado nele pela morte do filho querido era trabalhar pelos dois.
E foi assim que o vimos nesta Casa, até o fim de seus dias. E foi assim que eu o vi na Bahia, nos últimos meses, combalido em sua saúde, mas nem por isso menos valente e destemido na defesa de sua terra e dos mais humildes. Fugindo das recomendações dos médicos, que lhe impunham uma vida de mais resguardo, fugindo dos conselhos dos familiares e dos amigos, preocupados com o processo de debilitação do seu organismo.

Nunca deixou de trabalhar. Recusou-se a se licenciar por entender que o seu lugar era aqui, de onde só se afastava para viajar nos fins de semana, não para descansar, mas para trabalhar em seu escritório de Salvador. Um gigante no trabalho o Senador ACM.
Pois é trabalhando por todos nós e por ele é que haveremos também de preencher o vazio com que o seu desaparecimento físico nos enluta, entristece e, em parte, enfraquece esta Casa.

Sua falta para os baianos é imensa; a saudade, maior ainda, mas não há outra forma de homenageá-lo e preencher o vazio de sua ausência que não procurar imitá-lo na vida que Antonio Carlos Magalhães levou nos últimos cinqüenta anos.

Foram cinqüenta anos inesquecíveis para os baianos, Sr. Presidente. Meio século de uma vida dedicada à Bahia, 50 anos de uma paixão a que não se pode contrapor outra igual e cuja conseqüência lógica e inevitável seria como foi: a incorporação da legenda ACM à história mais moderna da Bahia como seu principal construtor.

Minhas senhoras e meus senhores, como nordestino, como ex-Governador de um Estado tantas vezes discriminado, gostaria de dizer que o grande mérito de Antonio Carlos foi também mostrar ao Brasil, juntamente com outras grandes lideranças regionais, muitas delas aqui presentes, que o Nordeste é viável e que dispõe de condições para promover meios que gerem emprego, renda e divisa para os Estados nordestinos sem necessidade dos programas assistencialistas.

Foram ele e os executivos que o sucederam no Governo do Estado – pois, entre outros méritos do Senador Antonio Carlos, está o de descobrir e lapidar executivos para o serviço público, promovendo-se por mérito – que mostraram, a partir da Bahia, que o Nordeste, com oportunidades iguais a que se dão a regiões mais prósperas do País, também pode andar com seus próprios pés, também pode ter seus tratores no lugar do arado ou da enxada, também pode ter seus complexos industriais, a exemplo do Pólo Petroquímico de Camaçari, uma das maiores realizações do Senador Antonio Carlos quando Governador da Bahia.

À nova Bahia juntam-se empresas químicas, petroquímicas e de tantos outros ramos da atividade, a exemplo da metalurgia do cobre, da celulose, têxtil, bebidas, serviços e, agora mais recentemente, a indústria automotiva

capitaneada pelo complexo da Ford, cuja fábrica, que tive o prazer e a honra de inaugurar como Governador, em 2001, foi uma conquista com a participação fundamental do Senador Antonio Carlos como Presidente desta Casa. Hoje, os automóveis já respondem por maior parcela das exportações da região Nordeste.

Foi Antonio Carlos Magalhães quem mostrou ao País, a partir do projeto de recuperação do Pelourinho, tombado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, e de outros prédios e sítios históricos da capital da Bahia e do interior do Estado, que é possível modernizar uma cidade, como ele modernizou Salvador, quando a administrou como seu Prefeito, na década de 70, recebendo, inclusive, o título de Prefeito do Século, mas preservando sempre o passado rico na Bahia.
Gostaria de encerrar, lembrando, neste momento, uma frase de Carlos Lacerda: “Só porque vejo antes, dizem que enxergo demais”. Essa era uma das frases preferidas do nosso querido ACM, que, aqui mesmo, nesta tribuna, tantas vezes a repetiu em discursos. Agora, sou eu que repito a frase, como a grande síntese da vida de Antonio Carlos Magalhães: “Só porque vejo antes, dizem que enxergo demais”.

Antonio Carlos Magalhães foi mesmo este homem à frente do seu tempo, aquele que viu antes, que apontou caminhos e que, muitas vezes, foi combatido como alguém que enxergou demais. Enxergou demais e foi combatido, mas nunca abandonou suas idéias, nunca parou de lutar, lutou por toda sua vida, até o final, como aqueles homens imprescindíveis e insubstituíveis.

Muito obrigado. (Palmas.)


Veja a fala do senador Tasso Jereissati(PSDB-CE):

“ Sr. Senador Renan Calheiros, Presidente do Senado Federal; Deputado Osmar Serraglio, representante do Presidente da Câmara dos Deputados; Sr. Ministro Rider Nogueira, Presidente do Tribunal Superior do Trabalho; Vice-Governador do Distrito Federal, Sr. Paulo Octávio; Srªs e Srs. Senadores; Srªs e Srs. Deputados, lideranças, Prefeitos, amigos do Senador Antonio Carlos Magalhães, Srª Dona Arlete, Antonio Carlos Júnior, Teresa, eu trouxe um discurso escrito para homenagear o nosso querido amigo Senador Antonio Carlos Magalhães. Confesso, no entanto, que estou sentindo enorme dificuldade, não sendo um orador nato, para fazer esse discurso, porque sinto uma enorme compulsão de falar com o meu coração a respeito de um dos maiores políticos dos últimos 50 anos da História brasileira, um homem, um ser humano com quem tive o privilégio de conviver. Mais que isso, sempre terei o privilégio de dizer para meus filhos, meus netos e meus amigos: fui amigo de Antonio Carlos Magalhães e com ele convivi.

Dona Arlete, Antonio Carlos Magalhães não era um homem comum. Tudo nele fugia ao ordinário. Nada nele era moderado, comum, trivial.

Que homem forte! Que homem fantasticamente forte, Teresa!

Como pôde, eu me pergunto, aquele coração suportar tamanha paixão? Nada que ele fazia era sem paixão. Quando se aborrecia, era de uma maneira intensa, e ele colocava todo esse aborrecimento dentro do seu coração. Quando amava, essa intensidade era maior ainda.
Quantas vezes, Neto, por um pequeno detalhe de que ele discordava, eu o vi iniciar uma discussão. Eu lhe dizia: “Senador, para que essa discussão? Esqueça! Deixe para lá!”. No entanto, ele não aceitava sequer viver sem riscos. Em tudo ele carregava o risco junto.
Ele não aceitava, Senador José Sarney, seu grande amigo e homem conhecedor das palavras, a mediocridade. Ele não convivia com a mediocridade. A sua vocação não era para a mediocridade; e, se isso o levava ao risco, que viesse o risco, mas ele sucumbiria a essa vocação.

Nos últimos anos, no Senado, todos convivemos com essa sua fortaleza e com essa sua paixão. No último momento, lembro-me aqui, quando ele teve uma indisposição, todos nós, Presidente Sarney, sugerimos a ele que pegasse uma cadeira de rodas e fosse para o hospital. E ele, de maneira absolutamente altiva – a resposta não foi nem um não –, levantou-se, desenrolou a manga da camisa, vestiu o paletó e saiu andando, marchando, com pressa e altivez, olhando-nos como se dissesse: ando ainda melhor do que vocês todos.

com essa sua fortaleza e com essa sua paixão. No último momento, lembro-me aqui, quando ele teve uma indisposição, o Presidente José Sarney e todos nós sugerimos que pegasse uma cadeira de rodas e fosse para o hospital. E ele, de maneira absolutamente altiva – a resposta não foi nem um não – levantou-se, desenrolou a manga da camisa, vestiu o paletó e saiu andando, marchando, com pressa e altivez, olhando-nos como se dissesse: ando ainda melhor do que vocês todos.

Nunca vi, perdoem-me aqui todos os homens públicos, com certeza, nunca vi um amor pelo seu Estado como o amor do Senador Antonio Carlos Magalhães pela Bahia. E aquilo não era um sentimento político, não era um sentimento criado, aquilo era fruto dessa fonte de paixões e emoções que ele tinha.

Lembro-me de uma vez em que, sobrevoando Salvador, chegando a Salvador, pela janela do avião, ele olhou Salvador, olhou para mim e disse: “Como é bonita esta Bahia”. E olhava assim com orgulho, como se aquilo fosse ele. Antonio Carlos foi uma lição para mim nesse aspecto. Aqui muito foi dito do administrador brilhante que transformou a Bahia e mudou o traçado da cidade de Salvador, do criador de quadros, do descobridor de talentos, do lançador na vida política brasileira de grandes, importantes e brilhantes políticos, e da sua participação na história recente da política brasileira.

Mas eu hoje sou convencido de que o grande diferencial de Antonio Carlos era o seu amor por aquilo que fazia principalmente o seu amor pela Bahia. Conheci administradores, Vice-Governador Paulo Octavio, muito bons, muito competentes e que conseguiram fazer em seus Estados e suas áreas grandes administrações. Agora, a diferença entre ele grande administrador e os outros grandes administradores foi essa paixão. Ele fazia isso com muito amor. E, de uma maneira até compulsiva, eu diria, ele fazia as coisas pela Bahia e defendia a Bahia.

Eu acho que esse amor foi o que fez com que Antonio Carlos fosse se transformando ao longo do tempo, mesmo com revezes políticos aqui e acolá. Observávamos isso na Bahia. Ele não era mais o político Antonio Carlos como eu sou o político Tasso Jereissati no Ceará. Ele virou uma instituição na Bahia. Mesmo que em determinado momento não vivesse ele o auge da sua popularidade, ele era uma instituição. ACM era uma instituição. Acabou transformando-se, no imaginário popular brasileiro, em uma instituição baiana, como os personagens de Jorge Amado, como o som de Caymmi e como as cores do Caribé. ACM Bahia; Bahia ACM.

Fui ao casamento de um neto de ACM. Lembro-me dele, com seu jeito tão peculiar, sendo cumprimentado. Fiquei observando, Presidente Sarney. Lembro-me muito bem da cena. A mãe de Caetano, Dona Canô, beijou-lhe as mãos. Com muita naturalidade ele estendeu-lhe as mãos, que foram beijadas como as de uma instituição como Mãe Menininha. Em qualquer outra parte, em qualquer outro Estado, não seria uma circunstância tão natural, tão normal. Mas ACM na Bahia era uma instituição, virou uma instituição.

A paixão que ele tinha...Permita-me falar sobre a paixão que ele tinha – e tive a felicidade de conviver muito com ele nos últimos anos – pela sua família, Dona Arlete. Não me lembro – e não foram poucas vezes; eram constantes – de vê-lo falar em Luís Eduardo sem que seus olhos ficassem, no mínimo, lacrimejando. Quando ele ou alguém puxava algum assunto sobre o Luís Eduardo, seus olhos começavam imediatamente a lacrimejar. Que homem forte! Como pode um homem conviver tantos anos com tanta dor, fora outras dores que ele teve ao longo da vida, e uma dor tão intensa? Aquela dor era muito intensa, muito aguda, e ele convivia com ela com certa naturalidade. Sobre o amor por sua família, ele nunca deixou de falar, Dona Arlete. Talvez isto eu faça questão de dizer: ele nunca deixou de mencionar, em conversas que tínhamos aqui, quando estávamos um pouco mais descontraídos, o amor e a sua preocupação com seus filhos e netos e com a qualidade e a vida de cada um deles.

Esse homem deixou um vazio enorme neste Plenário, Senador Renan Calheiros.

Era impossível – e hoje eu comentava isso, se não me engano, com a Senadora Patrícia e com o Senador Arthur Virgílio – não sentir a presença do Antonio Carlos neste plenário. Era tal seu carisma, era tal sua presença, sua energia, que a entrada do Antonio Carlos neste plenário era imediatamente sentida, era imediatamente percebida. Ninguém, nem na Bahia nem fora da Bahia, ficava indiferente a Antonio Carlos. Podia-se até odiá-lo, mas indiferente ao Antonio Carlos ninguém ficava. Confesso, Dona Arlete, que, para mim pessoalmente, vai ser muito difícil entrar neste plenário e me acostumar à convivência nesta sala sem sua presença absolutamente marcante.

Talvez seja um exagero, mas vou dizer o que penso na hora da despedida: acho difícil que este Plenário tenha, nesses três anos, o mesmo brilho, a mesma vivacidade que teve enquanto Antonio Carlos esteve aqui. Ele, indiscutivelmente, gostando ou não gostando, criava aqui dentro um clima de polêmica, de controvérsia, de democracia e de paixão. De paixão.
A sua discussão não era fria; era uma discussão apaixonada.

Penso que vamos ter que fazer muito esforço para cobrir a lacuna por ele deixada. Para mim, este Plenário hoje é mais triste. Confesso que ainda não consigo olhar e entrar nesta sala, neste salão azul, e não sentir um enorme vazio. Esse sentimento foi abrandado quando vi ali a sua fotografia exposta nesse telão.

Tenho a idéia sempre presente em nós cristãos – sou cristão, sou católico – de que quem sabe, finalmente, ele não está dando vazão às suas lágrimas encontrando o seu querido Luís Eduardo, a sua filha que se foi também. Talvez estejam lá juntos, de mãos dadas, e nós estejamos sendo objeto, Senador Arthur Virgílio, daquele finíssimo humor que ele possuía. Espero que seja do finíssimo humor que ele possuía, e não de algum tipo de reprovação, porque ele não escondia também quando havia reprovação.

Mas penso que, para todos nós que privamos da sua amizade, é impossível não imaginar ou não ter essa visão de que quem sabe ele esteja com Luís Eduardo, sabendo desse poço de paixão que era Antonio Carlos. E, sem dúvida alguma, um dos pontos altos da paixão de Antonio Carlos era o seu querido filho Luís Eduardo.

Portanto, dona Arlete, eu gostaria de deixar aqui a nossa homenagem e o nosso respeito. Conheci Antonio Carlos e sei do enorme respeito e admiração que ele tinha por V. Sª. Sei que não é uma mulher “normal” – normal no sentido de uma mulher comum, uma mulher que não tenha talentos extraordinários – que domaria aquele vulcão e conviveria com ele.
Ao estender as nossas homenagens à senhora e a sua família, tenho a certeza, a convicção de que estaremos fazendo aqui mais do que o meu, mas o desejo de Antonio Carlos.
Muito obrigado.

(Palmas)

Veja a íntegra da fala do senador Marco Maciel(DEM-PE, 1);

“Exmº Sr. Senador Renan Calheiros, Presidente do Senado Federal; Exmª Srª Arlete Magalhães, viúva do Senador Antonio Carlos Magalhães; Exmº Sr. Deputado Federal Osmar Serraglio, que, nesta cerimônia, representa a Câmara dos Deputados; Exmº Sr. Ministro Rider de Brito, Presidente do Egrégio Tribunal Superior do Trabalho; Srª Teresa Helena Magalhães, filha do Senador Antonio Carlos Magalhães; Senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, ao saudá-lo, quero saudar também o Deputado Antonio Carlos Magalhães Neto; Exmº Sr. Vice-Governador do Distrito Federal, Paulo Octávio, que, nesta cerimônia, representa o Governador José Roberto Arruda; Srªs e Srs. Senadores, autoridades presentes ou representadas.

Sr. Presidente, se gramático fosse e pretendesse definir morfologicamente a figura do Senador Antonio Carlos Magalhães, não o classificaria como substantivo comum, muito menos como substantivo abstrato. Antes o consideraria substantivo coletivo, pois, embora de forma singular, exprimia diversos seres, portanto, um ente múltiplo.

Ou seja, Antônio Carlos Magalhães, era uma instituição, identificado por uma legenda – ACM, como, aliás, apreciava ser chamado. Ele haveria de constituir-se um autêntico líder, posto que dotado plena e abundantemente do dom da vitalidade, recurso energético básico, essencial para ser grande em qualquer função, especialmente no sáfaro território da política.

Em todas as formas de grandeza humana nenhuma, na opinião de Ortega y Gasset, é tão dependente da vitalidade como a grandeza política. Não se pode retirar do político uma visão de mundo; mas viver para o político não é só pensar, é, sobretudo, fazer. O político nasce e nessa condição se exercita; a natureza parece enlaçar-se com a evolução da história. Natureza e história quase se confundem, foi o que vimos ao longo de quase meio século de atuação de ACM na vida política nacional.

A política, sabemos, é ciência mas, sobretudo, arte. Exige uma enorme “provisão de sol interior”, para usar uma expressão de Joaquim Nabuco ao lutar pela abolição do trabalho escravo. Política é pois uma atividade que se constrói muitas vezes desconfiando da solidez dos materiais e do terreno. Por isso, mais do que uma profissão, é sobretudo uma atitude de vida a reclamar doação integral à causa abraçada. Nada do que é humano, frise-se, é indiferente à vida pública.

Nessa interação metabólica entre política e história, não se deve esquecer que liderança não é sinônimo de carisma, ou seja, liderança não prescinde da capacidade de o político antever o futuro, antecipar-se aos fatos e saber decidir no instante acertado. Para tal, a intuição, entendida como certeza do inconsciente, é essencial. ACM a possuía em alta voltagem. Apesar de muitos considerarem a intuição ilógica, irracional, uma vez que exclui a prova da razão, a intuição é, a meu ver, importante, porque permite pressentir ou mesmo sentir o momento da conduta a adotar, sobretudo quando se está – e quantas vezes vivemos essas situações – no solitário vale das decisões. E, para isso, é necessário, também, coragem: coragem no decidir. A coragem para Churchill, das virtudes, é a primeira. Deve ser algo inerente ao político. E ninguém pode afirmar que tem coragem se nunca defrontou o perigo, como aliás salientou certa feita La Rochefoucauld.

Coabitavam também em ACM alguns atributos weberianos como o senso de responsabilidade e o senso da proporção e, com intensidade, como aqui se salientou, a paixão. A paixão é entendida por Weber não como agitação estéril, mas no sentido de total disponibilidade a uma causa que a inspira.

O seu amor pela Bahia, certamente sua primeira devoção, expressa bem a apaixonada dedicação pela terra. O Senado, aliás, por constituir-se em Casa da Federação – leia-se Casa dos Estados – convive cotidianamente com esses conflitos que continuam a marcar a diversidade brasileira até conseguirmos realizar nosso projeto de desenvolvimento.

Sr. Presidente, Srªs e Srs., a pátria de todo cidadão, como escreveu de certa feita o notável Senador Bernardo Pereira de Vasconcelos, século e meio atrás, é o lugar onde se nasceu. É nela que buscamos alento, nos retemperamos para os desafios e nos refugiamos nas adversidades. Ser telúrico não é ser um mero provinciano. Ademais, é possível ser telúrico e amar a terra e, ao mesmo tempo, dispor do "instinto de nacionalidade", para usar uma expressão de que falava Machado de Assis.

ACM cultuava também – como aqui também foi lembrado – o gosto pela polêmica, cativando admiradores e muitas vezes gerando adversários e até mesmo inimigos. Com alguns logo se reconciliava. Enfim, sabemos, "o estilo é o homem", como sinteticamente definiu o escritor francês Louis Buffon.

Sr. Presidente, em todo o percurso de mais de trinta anos de amizade, ACM e eu militamos nas mesmas agremiações políticas – Arena, PDS, PFL e, a partir de dezembro passado, no Democratas. Conquanto as siglas possam indicar direções diferentes, conservamo-nos na mesma família partidária.

Divergimos em raríssimas oportunidades; nossa convivência foi marcada pela identidade de posições. Praticamos, como diria Vinícius de Morais, a "arte do encontro".

Foi o que aconteceu, inclusive em alguns instantes, como na composição da Aliança Democrática, que tornou possível a eleição de Tancredo Neves e José Sarney, porque sempre entendíamos que o diálogo era a matéria-prima da política.

Sr. Presidente, não esqueçamos nesta saudosa evocação que o Senador Antonio Carlos Magalhães é um amigo fiel e afetuoso esposo, pai e avô. Deixa ilustres descendentes e amigos, muitos dos quais vocacionou para a vida pública. O Brasil inteiro se comoveu com a perda do seu querido filho e meu amigo Luís Eduardo Magalhães, tão jovem e já encaminhado em brilhante carreira, cujo falecimento abalou tão profundamente o pai que o País com ele se associou na dor.

Sr. Presidente, certa feita Jó, o servo sofredor, disse que a vida era um sopro. É verdade. Somos peregrinos neste mundo e sabemos que “a morte não é o contrário da vida, mas o avesso dela”, conforme certa feita escreveu Alceu Amoroso Lima.

A perda de Antonio Carlos Magalhães gera um vácuo em todos nós e parece deixar o País menor.

Convém lembrar a memória de Antonio Carlos Magalhães recordando palavras de outro ilustre baiano. Rui Barbosa, patrono desta Casa, cujo busto nos inspira, disse, em discurso necrológio, que “A morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima”.

Que Deus o acolha e sua vida continue a inspirar nossos trabalhos.

Muito obrigado. (Palmas)


Veja a íntegra da fala do senador José Sarney(PMDB-AP):

“ Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, Arlete Magalhães – na pessoa de quem quero cumprimentar toda a família porque sei que ela representa, em conjunto, as virtudes de todos –, Sr. Deputado Osmar Serraglio, representante do Presidente da Câmara dos Deputados, na pessoa do Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, quero cumprimentar também todas as autoridades presentes.

É muito difícil – talvez um dos mais difíceis discursos que tenho e tive de fazer na vida – dizer essas palavras em memória de Antonio Carlos Magalhães. Certamente já tive momentos difíceis – e recordo quando também tive de falar com a morte de Tancredo.
Mas, hoje, há um sentimento de perda, um sentimento de profunda perda.
Já ouvi aqui de outros oradores que o Senado está menor. Não diria que ele está menor, porque, sem dúvida alguma, julgo esta instituição como maior que a soma de todos nós que passaremos aqui por várias e várias gerações, como outras já passaram. Mas, certamente, ele está diferente.

Antonio Carlos era uma presença que era referência dentro desta Casa. E eu, ao voltar meus olhos, ainda o vejo, perfeitamente, aqui sentado nessa primeira fila, no segundo lugar, com aquela saudação que fazia sempre ao entrar, naquele gosto que transmitia amizade, naquele beijo longo que jogava, muito comum fazer sempre.
Recordo-me de um verso de Pablo Neruda, quando ele falava sobre Silvestre Revueltas, que era um amigo seu. Ele disse: tem um carvalho tombado no meio da casa. Este é o sentimento nosso: temos um carvalho tombado no meio da casa. A figura de Antonio Carlos era tão predominante que era uma referência.

Até pensei, Sr. Presidente, não falar nesta sessão, por que
o meu silêncio seria muito maior do que todos os sentimentos que as minhas palavras pudessem ter nesse instante.

Todos sabem da profunda amizade que nos unia. Foram 50 longos anos desde que chegamos ao Rio de Janeiro, em 1959, jovens, Arlete e Marly. E construímos uma amizade que passou de nós dois para nossas famílias, transbordou para nossos filhos. E foi crescendo com o tempo, decantando de tal modo que ela ficou naquela normalidade que sem dúvida não era sempre essa tranqüilidade. Antonio Carlos era uma pessoa que tinha característica tal que nunca o ouvi falar profundamente de duas palavras: uma era neutralidade e a outra, morte. Ele nunca era neutro em nenhum momento, inclusive nas atitudes dos amigos. Quantas vezes divergíamos. Certa vez, quando em uma divergência ele estava com certa excitação, de dizer: Antonio Carlos, você vai lembrar que nesses últimos 50 anos eu talvez seja o seu amigo com quem você não brigou. Vamos parar por aqui! E parávamos.

E isso foi de tal modo que começamos a nos entender que pudemos chegar a cumprir essa longa caminhada que nós todos cumprimos. Todos nós temos os nossos defeitos e nossas qualidades,
Mas há um provérbio que é citado por Ovídio nas Metamorfoses: "De mortuis nil nisi bene". Quer dizer, dos mortos não se deve falar senão o bem, só se deve guardar senão as coisas boas.

E é justamente isso que nós temos que lembrar. Temos que lembrar o que Antonio Carlos representou não somente para nós, mas para o País. Ele era uma personalidade poliédrica, vamos dizer assim. Tinha muitas faces. Se quebrarmos esse poliedro, em primeiro lugar, vamos ver dentro dele o cidadão, o homem de afetos, o chefe de família, o patriota que nunca falhou nem ao Brasil, nem à Bahia.

Falou-se muito aqui no seu sentimento pela Bahia. Rui Barbosa, quando chegou ao Senado, também teve a oportunidade de dizer: “Toda a minha inspiração e tudo o que sou devo à Bahia”. E Antonio Carlos fez um gesto pela Bahia, um gesto simbólico mas nessa mesma linha. Ele pegou Rui Barbosa, que é o patrono do Senado, que estava escondido, pelo projeto do Niemeyer ali, no fundo da Casa, e o colocou aqui para que nós víssemos não somente Rui Barbosa, como também, na pessoa dele, tudo o que ele tinha de amor pela Bahia.

As suas virtudes cívicas eram grandes. Sempre vi Antonio Carlos com essa visão do País pelo lado do civismo. Sempre vi Antonio Carlos como servidor do povo. Ele vivia – já foi dito aqui – a política, com paixão, vivia dia e noite, ele gostava da política. O Senador Aloizio Mercadante falou que ele gostava do poder, sim, porque o político é um homem que não quer influenciar o poder, se ele acredita nas suas idéias, ele quer, através do poder, exercer suas idéias. Era justamente nesse sentido que ele tinha essa determinação do servidor público.

Se quebrarmos esse poliedro em outro pedaço, vamos encontrar dentro dele o político. Ele era um ser político, aquele que tinha a arte do bem comum, já foi dito isso, mas ele vivia 24 horas por dia a política e tudo na vida dele ele colocava um pouco de política. A política nunca pode se separar dele porque ele tinha o sentimento de ser baiano misturado com o seu corpo.

Se quebrarmos mais vez esse poliedro nas várias faces vamos encontrar o chefe, aquele que sabia criar equipes, aquele que sabia comanda, aquele que sabia mandar, mas sempre no bom sentido. Ele nunca utilizou esse poder de mando, senão naquilo em que julgava os maiores interesses do país e os maiores interesses do seu estado. Ele tinha essa virtude de comandar, de saber fazer escolhas, uma coisa tão difícil. Certamente, junto de Antonio Carlos da Magalhães, ele deve ter tido, ao longo da vida, muitas pessoas e ele gostava de ser cortejado. Nós não podemos

ós não podemos deixar de notar isso na sua personalidade. Mas, quando tinha de entregar uma missão do interesse público, de responsabilidade, ele nunca se levava pelo coração; ele se levava pelo espírito público. Essa era a sua capacidade de chefia, que ele exerceu permanentemente.

O Líder, que tinha a virtude inata de saber não só comandar, como também, por meio da chefia, reunir pessoas em um mesmo sentido, e aglutiná-las em uma só direção. Isso ele fez, ao longo de toda a sua vida, na construção da sua personalidade política na Bahia. Se nós, então, também quebrarmos, uma vez mais, esse poliedro, nós vamos encontrar o seu espírito público. O seu pensamento era sempre em favor do bem comum. Ele não tinha o sentimento, quando ele lidava com a coisa pública, do instinto privado; ele tinha o sentimento do interesse público.
Eu estou dando mais um testemunho do que realmente prestando uma homenagem, porque todas as homenagens que eu tinha de fazer a Antonio Carlos, eu as fiz na vida, dando-lhe a minha estima. Pois, bem. Se nós quebrarmos ainda mais esse poliedro, nós vamos encontrar dentro dele esse sentimento já tão falado aqui, esse sentimento tão profundo das nossas raízes. Ele era a Bahia. O sangue dele era a Bahia. Se se pudesse dizer qual era a substância do seu sangue, era a Bahia.

Ele falava na Bahia com encanto. Vamos dizer que a Bahia tem esse poder encantatório sobre todos os baianos e sobre todos os seus homens públicos. Eu me recordo de como Seabra, que era um grande político baiano, falava sobre a Bahia! Este homem, cujo busto está aqui, Rui Barbosa, falou e escreveu tanto, é difícil se encontrar uma página ou uma frase de Rui Barbosa sem que ele colocasse a Bahia no centro. Era o poder encantatório da Bahia! Era o poder encantatório que Antonio Carlos também recolheu e transmitia, porque ele transmitia aquele poder encantatório, também tentando ser essa serpente encantadora que ele era.

Se quebrarmos mais ainda esse poliedro, vamos encontrar também o homem que sabia ser amigo. Antonio Carlos era um amigo que sabia ser amigo, distinguia as coisas da amizade das coisas de ser amigo. É difícil se pensar numa coisa e noutra. Eu quero dizer que amizade não é uma comunhão de interesses; a amizade não é um pacto de pensarmos juntos as mesmas coisas e de lutarmos juntos pelas mesmas coisas. A amizade é uma coisa mais profunda, na qual ela estabelece um pacto de deveres, que são chamados os deveres da amizade. Entre esses, há os deveres da solidariedade e os deveres de comungar as tristezas e as alegrias. Coroando o que é amizade realmente, está o gosto da convivência.

E Antonio Carlos tinha o gosto da convivência com as pessoas a quem ele estimava, de quem ele era amigo.

Todos já falaram muito sobre esse seu poder de amizade. Quero também realçar, quebrando esse poliedro uma vez mais e encontrar o Parlamentar, que é uma faceta do político. Lembro-me do Antonio Carlos Deputado Federal, irrequieto, quando chegamos lá no Rio de Janeiro. Ele era tido como homem que chegava como representante de Juracy Magalhães, que era presidente da UDN, uma das figuras mais importantes da política nacional. A UDN, vendo, ali perto, chegar o poder, que era a eleição de 1960, com Jânio Quadros, que nós ganhamos, em seguida, ela desapareceu.

Ele era um Deputado irrequieto. De repente, aquele tempo era um tempo que tinha algo assim também de novidades: De Gaulle tinha, por exemplo, feito a Quinta República; o Kennedy tinha sido eleito nos Estados Unidos, e foi com a sua mensagem das novas fronteiras que se tinha falado. O homem tinha ido ao espaço; Juscelino criara o sentimento diferente do desenvolvimentismo. Esse sentimento do desenvolvimento era um sentimento diferente no Brasil. Essa palavra desenvolvimento, que hoje se ouve com tanta freqüência, quase não existia nos dicionários brasileiros. Começou a existir depois de Juscelino. Eu mesmo me espantei quando, pela primeira vez, ouvi “desenvolvimentismo”.

O que era isso?

Isso era a mudança da mentalidade do homem prático, do homem empreendedor. Nós, da UDN, tínhamos outra visão das coisas. Era um sentimento de que o Brasil não caminhava por causa dos seus defeitos, por causa dos homens que se conduziam pessimamente, por causa da corrupção que imperava. E Antonio Carlos procurou Juscelino, porque era do seu temperamento, o temperamento do homem ligado ao desenvolvimento.

Eu, por exemplo, era do grupo do Carlos Lacerda, contrário àquele grupo, mas fundamos um grupo chamado Bossa Nova, porque tínhamos outro sentimento, que era o sentimento social, que ainda existe hoje. Criamos o movimento Bossa Nova com o sentido de desenvolvimento, sim – pois não negávamos o desenvolvimento –, mas com justiça social. Avançávamos no tempo, pensando no problema social que justamente não existia naquele tempo.

Assim, chegamos ao Rio de Janeiro e vimos Antonio Carlos assumir essa liderança e construir sua vida pública, manifestando, depois, sua bravura e sua coragem nos momentos decisivos. Ele nunca deixou de ser presente. Ele nunca se omitiu em nada. Ei-lo à frente do movimento contra Jango Goulart, fazendo os discursos mais violentos e contundentes, assumindo as suas responsabilidades, fazendo discursos contra Jânio Quadros, quando Jânio Quadros renunciou.

Digo isso para que possamos aliviar um pouco e saber como Antonio Carlos era objetivo. Quando Castelo Branco foi eleito, Luiz Viana, Aliomar Baleeiro e Antonio Carlos foram falar com Castello.”

( da redação com informações de taquigrafia do Senado Federal)