31 de julho de 2025
Eleições 2026

A nova ordem mundial e o Brasil que ainda não acordou

Enquanto o dólar perde exclusividade, os EUA desindustrializados cercam rotas e minerais, o Brasil segue discutindo taxa de juros. A pergunta não é se a ordem mudou — é se vamos continuar sendo peça ou finalmente virar protagonistas.

Por Humberto Azevedo
Publicado em
O dólar perde o trono. Os EUA cercam rotas e minerais. E nós? Magnific

Há um vício de análise que paralisa o debate público brasileiro: tratar cada crise como um episódio isolado. A alta do dólar é um fato. A guerra no Oriente Médio é outro. A campanha eleitoral, outro ainda. A votação na ONU sobre mapas, uma curiosidade acadêmica. E assim vamos empilhando notícias sem nunca enxergar o quadro inteiro — e é justamente esse quadro que interessa.

 

Porque os fatos, quando lidos em conjunto, contam uma história única e brutal: a ordem mundial que conhecemos está se desfazendo, e o Brasil está dormindo no volante.


 

O dólar não cai, mas perde o trono

 

Comecemos pelo essencial. Durante décadas, quem quisesse comprar petróleo, transferir grandes valores ou negociar internacionalmente precisava de dólares. Não era uma escolha: era uma imposição. Quem desafiasse Washington podia ter suas contas congeladas, suas transações bloqueadas, seu país retirado do sistema internacional. O dólar não era apenas uma moeda — era uma arma.

 

E armas, quando usadas em excesso, geram resistência. O congelamento de cerca de US$ 300 bilhões em reservas russas foi o tiro que acordou o mundo. Se aconteceu com a Rússia, poderia acontecer com qualquer um. A partir daí, reduzir a dependência do dólar deixou de ser discussão econômica e virou questão de sobrevivência nacional.

 

Os BRICS entenderam o recado. Acumulam hoje cerca de 6.000 toneladas de ouro — quase 17,4% das reservas mundiais —, com Rússia e China concentrando quase três quartos desse total. Nos primeiros nove meses de 2025, teriam comprado cerca de 663 toneladas, avaliadas em aproximadamente US$ 91 bilhões. Não é compra aleatória: é seguro contra um sistema que pode confiscar riqueza da noite para o dia. O dólar pode ser criado pelo Federal Reserve, desvalorizado pela inflação ou bloqueado por decisão política. Uma barra de ouro guardada no próprio território, não.

 

E esse movimento vai além do metal. China e Rússia construíram sistemas de pagamento alternativos — CIPS e SPFS — capazes de processar transações sem depender integralmente do Swift. Cerca de 90% do comércio entre os dois países já é feito em rublos e yuan. Brasil e China ampliaram acordos para usar reais e yuan. Irã, Egito e outras economias avançam em mecanismos próprios. E surge o BRICS Pay, cuja proposta não é criar uma moeda única controlada por Pequim ou Moscou — o que seria apenas trocar de mestre —, mas conectar sistemas para que cada país negocie na sua própria moeda.

 

A participação do dólar nas reservas globais caiu para perto de 57%, o menor nível em décadas. Em 1999, era 71%. O dólar continua sendo a moeda mais usada do comércio internacional, mas deixou de parecer intocável. E é essa perda de exclusividade que realmente preocupa Washington.


 

O império que se desindustrializou

 

Mas por que os EUA perdem espaço? A resposta não está apenas na ação dos BRICS — está na autossabotagem americana. O neoliberalismo, que prometia prosperidade, conseguiu o feito de desindustrializar até os Estados Unidos.

 

A busca por mão de obra barata e retornos rápidos levou o capital financeiro americano a transferir produção para a Ásia. O resultado é devastador: os EUA não conseguem mais manter um esforço de guerra prolongado porque não têm base industrial para isso. Enquanto a China construiu 10 mil navios nas últimas décadas, os Estados Unidos construíram apenas dez. A China já construiu mais navios do que os EUA em toda a sua história.

 

E ao matar a indústria, matou também a classe trabalhadora que dela dependia. Os grandes sindicatos americanos foram desmontados. A elite preferiu buscar trabalhadores baratos na China a negociar com os próprios estadunidenses. O que se seguiu foi a decadência social que hoje explode em epidemias de opioides, milhões de desempregados, cidades fantasmas no meio-oeste e uma classe média em colapso.

 

Não é coincidência que Donald Trump tenha emergido exatamente desse caldo. Ele não é exceção, é sintoma. É a resposta reacionária de um império que apodrece por dentro e tenta, desesperadamente, reeditar um pacto de poder que já não se sustenta.


 

A resposta coercitiva: rotas, minerais e mapas

 

Se a base material se erodiu, qual é a resposta estratégica de Washington? Os fatos recentes revelam um padrão claro: deslocar a dominação do plano produtivo para o plano coercitivo.

 

Em Ormuz, os EUA tentaram apresentar o estreito como área submetida ao seu poder. A resposta veio de Irã e Omã, que acertaram uma rota temporária de 7 milhas — entrada por águas iranianas, saída por águas iranianas e omanis. O entendimento não entrega a Washington o comando da passagem e transforma a soberania dos dois países costeiros em regra operacional. O coronel Ali Mohammadi, da Guarda Revolucionária do Irã, desafiou: "Se é assim, avancem. Aproximem um de seus navios de guerra a 100 quilômetros." A geografia impõe limites à força.

 

Em Bab el-Mandeb, os houthis do Iêmen tomaram a costa inteira do Mar Vermelho e as ilhas do meio do canal. O barril de Brent encostou nos US$ 110, e autoridades do movimento ameaçam fechar o estreito como o de Ormuz, empurrando o preço aos US$ 200. O fluxo de petróleo, que já foi de mais de 9 milhões de barris por dia, encolheu para cerca de 4,1 milhões. A resposta dos mercados e das marinhas ocidentais nos próximos dias definirá se o barril firma ou dispara.

 

E há a disputa pelos minerais críticos. A China concentra cerca de 60% da produção mundial de terras raras, entre 85% e 90% do refino global e perto de 90% da fabricação de ímãs permanentes. Essa concentração explica a corrida de Washington por fornecedores alternativos — e o Brasil entrou no radar porque tem uma das maiores reservas do mundo. Levantamento da Associated Press e da Repórter Brasil apontou 268 pedidos de pesquisa de terras raras apenas no primeiro semestre de 2026, com investidores de fora respondendo por mais de quatro em cada dez pedidos.

 

Há, ainda, a disputa simbólica. A ONU aprovou uma resolução pedindo que governos reconsiderem o mapa mundial e privilegiem cartografias que representem de fato a dimensão dos continentes. 164 países apoiaram, inclusive o Brasil. Seis se abstiveram. Só um votou contra: os Estados Unidos. A projeção de Mercator, de 1569, amplia drasticamente as massas de terra próximas aos polos: a Groenlândia parece quase do tamanho da África, quando a África é 14 vezes maior. A Europa e a América do Norte parecem maiores do que são; a África, a América do Sul e as regiões equatoriais são reduzidas. O mapa não é neutro: ele naturaliza a hierarquia global. Trump, dias depois, publicou um mapa mostrando os EUA, o Canadá, a Groenlândia, o México e até a Islândia cobertos pela bandeira norte-americana. Quem controla o mapa controla o mundo.


 

O Brasil no olho do furacão

 

E é aqui que a história deixa de ser sobre "eles" e passa a ser sobre nós. Pedro Sang, empresário carioca apontado como articulador no Brasil da Rockbridge Network — rede fundada por J.D. Vance, atual vice-presidente dos EUA —, passou a atuar no comitê presidencial de Flávio Bolsonaro. Segundo apuração do site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, Sang se apresentava como "Pedro da Rockbridge", ocupava uma sala no QG e participava da montagem física do comitê.

 

O caso ganha peso porque a Rockbridge apareceu ao lado de um memorando com a inscrição "Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign" que propunha aproximação entre Brasil e EUA para exploração, processamento e industrialização de minerais críticos e terras raras. Flávio já defendeu publicamente que o Brasil seria "a solução" para os EUA reduzirem a dependência da China.

 

A suspeita de apoio estrangeiro à campanha foi levada ao STF pelo deputado Lindbergh Farias. Não há prova pública de repasse, mas há documento com marca de campanha, relato de atuação no QG, contatos com a Rockbridge e uma representação ao Supremo. A controvérsia deslocou a disputa eleitoral para o terreno da soberania mineral.

 

O que está em jogo é simples: se a proposta do memorando virar programa de governo, a exploração de terras raras e minerais críticos brasileiros pode ficar condicionada à estratégia industrial e militar dos Estados Unidos antes de responder a uma política nacional de tecnologia, emprego qualificado e agregação de valor.


 

A armadilha que nos impuseram — e que aceitamos

 

Mas por que o Brasil chega a esse ponto? Porque, como nação, abraçou com devoção a cartilha que os países desenvolvidos nunca seguiram. O Consenso de Washington — austeridade fiscal, privatizações, livre fluxo de capitais — foi seguido com fervor religioso. E o resultado está aí: a "teoria do gotejamento" revelou-se fraude. A caixa d'água encheu, mas tamparam todas as torneiras. A concentração de riqueza aumentou. A desigualdade se aprofundou.

 

Hoje, todas as grandes empresas de tecnologia do mundo têm engenheiros brasileiros em seus quadros. Cientistas brasileiros trabalham em universidades e laboratórios estrangeiros. Por quê? Porque não há indústria no Brasil para absorvê-los. O país forma profissionais de altíssimo nível e os exporta, como se exporta minério de ferro. É o retrato mais cruel da desindustrialização: o Brasil não consegue nem reter o capital humano que produz.

 

E enquanto isso, o Banco Central refém da Faria Lima aumenta a taxa de juros. Pratica a austeridade fiscal. Corta investimentos em ciência e tecnologia. Segue obedientemente a cartilha que os países desenvolvidos nunca seguiram. Como denunciou Ha-Joon Chang em Chutando a Escada, os países ricos usaram o Estado para se desenvolver e, depois que chegaram ao topo, puxaram a escada para que os outros não subissem. O Consenso de Washington não foi um receituário para o desenvolvimento. Foi uma estratégia para manter a periferia na periferia.


 

O caminho da soberania

 

A saída não é escolher entre ser colônia dos EUA ou da China. É construir nosso próprio caminho. E ele passa por três eixos.

 

Primeiro: reindustrialização. Não se trata de voltar aos anos 1970, mas de construir uma indústria de novo tipo, voltada para a fronteira tecnológica, a transição energética, a economia digital. O Estado precisa voltar a planejar, investir, proteger setores estratégicos. Como fizeram EUA, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais recentemente, a China. Não há desenvolvimento sem indústria. Não há empregos de qualidade sem indústria.

 

Segundo: educação como centro. O Brasil forma bons profissionais, mas não os retém ou não os dá a mínima chance. É preciso criar condições para que o conhecimento produzido aqui se transforme em inovação, empresa, emprego. Isso significa investir pesado em educação básica, técnica e superior. Valorizar o professor, dar-lhe salário digno, infraestrutura, formação continuada. Colocar a escola no centro da sociedade — como lugar de proteger, alimentar, acolher, mapear os problemas da comunidade. A escola não é apenas um lugar de aprender. É o núcleo de qualquer projeto de desenvolvimento.

 

Terceiro: soberania monetária e fiscal. O Brasil precisa parar de se submeter ao rentismo. Usar sua moeda soberana para financiar o desenvolvimento e não para enriquecer especuladores. Entender que inflação se combate com produção, não com juros. Romper com a camisa de força ideológica liberal, ou neoliberal, ou ultraliberal, que lhe foi imposta.


 

A escolha é nossa

 

Há sinais de que o mundo está mudando. A China desafia a hegemonia americana. O BRICS constrói alternativas ao dólar. A Rússia se reindustrializou sob sanções. O Irã forma mais engenheiros que os EUA. O Sul Global começa a construir uma ordem multipolar.

 

O Brasil tem uma janela de oportunidade histórica. Mais uma. Tem recursos naturais, universidades públicas fortes, uma juventude ávida por oportunidades, um mercado interno gigantesco. O que falta é coragem política para romper com a cartilha liberal e enfrentar os interesses do mercado financeiro. Falta um projeto nacional de longo prazo — não para quatro anos, mas para vinte ou trinta. Falta entender que o Estado não é o problema; o Estado é a solução, desde que a serviço do povo e não do rentismo.

 

A pergunta não é se o dólar vai desaparecer amanhã. A pergunta é: quanto poder ele perderá nos próximos anos? E, mais importante: qual será o lugar do Brasil nessa nova ordem? Seremos eternamente periferia, exportando commodities e talentos, importando manufaturados e decisões? Ou seremos protagonistas, construindo nosso próprio caminho?

 

O Brasil não está condenado ao subdesenvolvimento. Não está escrito nas estrelas que devemos ser eternamente um país de renda média, desigual e dependente. A história mostra que os países que se desenvolveram o fizeram com projeto nacional, indústria, educação, Estado indutor. O Brasil já teve tudo isso. Perdeu-se ao longo do caminho em meio a golpes, seduzido pela promessa fácil do neoliberalismo.

 

Mas a história não acabou. A crise do império americano, a ascensão da China, a construção de alternativas ao dólar, a emergência do Sul Global — tudo isso abre espaço para que o Brasil retome seu projeto de soberania. Não se trata de escolher entre Washington e Pequim. Trata-se de escolher o Brasil.

 

E essa escolha começa com uma pergunta simples: quem manda neste país? O povo, que produz a riqueza, ou o 1% que a concentra? A resposta definirá o futuro do Brasil nas próximas décadas. E ela não será dada nos gabinetes de Brasília, mas nas ruas, nas redes, nas escolas, nas fábricas, nas urnas.

 

A luta pela soberania é a luta do nosso tempo. E ela está apenas começando.