O “futuro glorioso” e o caminho para lugar nenhum
Candidato do MBL vende “proposta de afirmação”, mas tropeça nas próprias contradições geopolíticas e na herança de um movimento que se especializou na negação.
Em uma apresentação na Frente Parlamentar do Ambiente de Negócio (FPN) na última terça-feira, 18 de agosto, o candidato à Presidência da República, Renan Santos (Missão), detalhou um plano de governo ambicioso, que promete reformas fiscais e trabalhistas, “desfavelização”, guerra ao crime organizado e reindustrialização.
No entanto, sua fala revela um movimento que tenta se descolar do passado de negacionismo do Movimento Brasil Livre (MBL) enquanto permanece refém de suas amarras ideológicas — especialmente na geopolítica, onde aponta a China como modelo tecnológico, mas recusa o maior parceiro comercial brasileiro por um alinhamento automático com os Estados Unidos (EUA).
Fundador do MBL, movimento que emergiu das "jornadas" de 2013 com uma agenda liberal radical e ataques sistemáticos à esquerda, ao socialismo e à China, Santos tenta agora se vender como o candidato da “afirmação”. Mas seu discurso ainda oscila entre o elogio aos tigres asiáticos e o receituário neoliberal que ajudou a desindustrializar o Brasil.
“O futuro é glorioso. Ao invés de ficarmos nesse curto circuito de ser crítico a tudo e a todos o tempo todo, atacando o bolsonarismo, atacando a esquerda, a gente ficava naquele ciclo de mau humor e da não proposição”, afirmou o candidato, tentando enterrar o passado de seu próprio movimento.
“Só que a real é a seguinte: para uma pessoa tão difícil estar criando uma mobilização dessas, é que algo que nós estamos fazendo está muito, mas muito certo”, disse Santos, justificando o engajamento digital que não se reflete, ainda, nas pesquisas de intenção de voto — onde aparece com cerca de 4% a 5%, segundo ele próprio.
O ENIGMA CHINÊS
O candidato aponta a China e os tigres asiáticos como modelos a serem perseguidos — especialmente no desenvolvimento de zonas econômicas especiais e na indústria de tecnologia. Mas, em nenhum momento, aborda o principal trunfo do Brasil na geopolítica atual: a relação comercial com o gigante asiático, maior parceiro comercial do país.
Em suas respostas, Santos defende “joint ventures” e “transferência de tecnologia” com “nações interessadas”, mas deixa claro que seu horizonte estratégico continua sendo os Estados Unidos. A contradição expõe a dificuldade de um movimento que se diz liberal, mas que insiste em uma visão de mundo bipolar que já não corresponde a realidade.
“O Brasil tem que ser um intermediário entre Ocidente e Sul Global. A minha orientação será o Brasil. Não faço alinhamento automático. Mas você tem um alinhamento automático entre o Lula e os BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã], e do Bolsonaro com o Trump”, afirmou em resposta a este Blog, tentando se colocar em uma terceira via que, na prática, não se sustenta.
“Vamos fazer zonas econômicas especiais focadas em temáticas que o Brasil tem clara competitividade. É ir trazer essas indústrias. Pense em toda a indústria criada ao redor das terras raras. Os americanos querem só extrair e levar embora. A gente não é para extrair e processar, é para fazer joint venture com empresa brasileira, transferência de tecnologia”, disse, mas sem explicar por que seu modelo seria diferente das políticas de “campeões nacionais” que ele mesmo critica no governo atual.
O PESO DO PASSADO
A apresentação de Santos tenta, a todo custo, enterrar o legado do MBL — movimento conhecido por ataques virulentos a economistas keynesianos, ao “socialismo” e à socialdemocracia, além de uma postura declaradamente anticomunista e, em muitos momentos, hostil à China. Ele admite que o “antipetismo” como identidade política é um erro de “nascença”, mas sua fala ainda é repleta de ataques à esquerda e a candidatos concorrentes deste campo progressista.
Uma importante figura da política nacional dos bastidores, em comentários após a apresentação feita por Renan, presente no evento, reforçou o tom do grupo (FPN) ao afirmar que a “dependência do Estado” é um problema a ser combatido. Sua fala ecoa o discurso de um setor que vê a pobreza como questão de mérito individual, não como resultado de um modelo econômico que privilegia poucos.
Nas palavras desta eminente figura da política brasileira da direita tradicional, ao final do evento, foi direto: “A dependência do Estado é para quem é mais pobre, é para quem mora em casa. É a população que mais precisa por ser sofrida.” Esta fala expõe a visão de um grupo que trata a pobreza como um fardo individual, não como um problema estrutural.
A fala acima comenta a seguinte declaração de Renan dada no evento da FPN: “Você se definir como negação ao PT, você está afirmando o PT. O PT se tornou o motor da política brasileira desde os anos 80. Eles surgiram com um grupo de jovens que tinham imaginação de um futuro diferente, errado, mas diferente. Nós basicamente fizemos uma engenharia reversa dessa lógica”, reconheceu o candidato, em um raro momento de autocrítica.
A BOLHA DIGITAL
Renan Santos é um fenômeno digital. Seus vídeos bombam, suas sabatinas batem recordes de audiência — ele mesmo celebrou ter sido recorde no ano no canal de notícias do grupo O Globo, Globo News. Mas, nas pesquisas de intenção de voto, o candidato patina com cerca de 4% a 5% das preferências.
O descompasso expõe a principal contradição do novo player político: ser uma máquina de engajamento sem tradução em votos reais. Eleito pelo “hype” do MBL, que construiu sua relevância midiática atacando tudo e todos, Santos agora tenta se vender como o “candidato da afirmação”, mas que ainda carrega o fardo de um movimento que se especializou na crítica destrutiva e no alinhamento automático com uma direita que, segundo ele próprio, “se tornou um bando de influenciador de rede social”.
“Pessoas tentam tirar foto comigo no shopping, eu falo: 'Por que você está fazendo isso? Não faz muito sentido.' A real é que para uma pessoa tão difícil estar criando uma mobilização dessas, é que algo está muito certo”, disse, tentando explicar seu fenômeno.
Quando questionado sobre o descompasso entre o engajamento digital e as pesquisas, Santos respondeu: “Talvez haja uma tendência de crescer. O grande desafio é quebrar o ceticismo que pessoas mais velhas têm em relação ao novo. As pessoas se machucaram muito com o que foi o governo Bolsonaro. Elas estão presas. Não querem ver nada de diferente”. A fala revela que o próprio eleitorado conservador desconfia do discurso “renovador”.
O FUTURO (NEM TÃO) GLORIOSO
Ao final da apresentação, Santos foi questionado sobre seu ministro da Fazenda, sua política externa e seu plano para a segurança pública. Suas respostas, porém, revelaram um candidato que tem mais certeza do que quer destruir do que do que quer construir. Promete reformas, mas não diz como viabilizá-las. Fala em “Brasil potência”, mas se recusa a encarar o parceiro comercial mais importante do país.
Enquanto a China avança em autonomia tecnológica e os EUA se fecham em seu protecionismo, o candidato do MBL insiste em vender um passado que não volta — e um futuro que sua própria base ajudou a inviabilizar. O “Brasil” de Renan Santos parece ser um país imaginário, onde é possível copiar a China sem dialogar com ela, e ser potência sem sair da sombra dos Estados Unidos.
“O que eu trago como boa nova é que está surgindo algo que é afirmativo, que é positivo, que vê o Brasil cheio de potencial. Ou o Brasil se torna potência, ou o Brasil se torna escravo. Não existe caminho do meio”, sentenciou.
Quando questionado sobre como conciliar o discurso liberal com a inspiração nos modelos asiáticos para reindustrializar o país, o candidato desconversou: “Nós temos que ter uma industrialização aberta para o mundo. Uma boa parte dos nossos programas se inspira na China, na Coreia e nos EUA. Mas a minha orientação será sempre o Brasil."
Em suma, O “Brasil” de Renan Santos, no entanto, parece ser apenas um país imaginário, onde é possível copiar a China sem dialogar com o gigante asiático, e ser potência sem sair da sombra do Tio Sam.