Estados Unidos lucram com o Brasil há 4 décadas, informa o próprio Departamento do Censo dos EUA
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Com agências
(Brasília-DF, 24/07/2026) Na semana em que o Brasil está acumulando 37,5 % em tarifas aplicadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, que coloca o Brasil como o terceiro país, atrás do Canadá e da China, com mais tarifas acumuladas.
O que chama atenção é que o Brasil acumula um déficit de 144 bilhões de dólares (R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Ou seja, a balança entre os dois parceiros favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica disponibilizada pelo Departamento do Censo dos EUA.
Os EUA, ao incluir bens e serviços, chegaram a lucrar 480 bilhões de dólares (R$ 2,4 trilhões) com o Brasil entre 2000 e 2025, mostram dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA. A vantagem não impediu a imposição de uma nova tarifa de 25% contra as exportações brasileiras ou de uma taxa de 12,5% por suposta falha no combate ao trabalho escravo.
Perguntado durante sabatina no Senado americano sobre esse desequilíbrio que favorece os americanos, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu nesta semana que seu país mantém um superávit expressivo, mas evitou justificar a nova sanção. "Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas", afirmou.
Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também contornou o argumento de que o superávit americano deslegitimaria a medida tomada por seu órgão. "Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias", disse ao Atlantic Council em dezembro do ano passado
‘Conta Grande”
As falas das autoridades são sintoma da evolução das trocas entre os dois países ao longo do último século, uma relação marcada por oscilações e que se tornou mais intensa nas últimas quatro décadas.
"Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil", diz a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequilo.
"Porque o Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial e também um reposicionamento regional. E isso afeta o interesse americano", continua.
Entre 1985 e 1995, por exemplo, Brasília chegou a registrar saldos positivos nas trocas comerciais com os EUA. O cenário muda gradualmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), período marcado pela ampliação das compras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e aparelhos de telecomunicações americanos.
A balança comercial passa então a alternar momentos de superávit e déficit. O Brasil retoma vantagem em 2002 e atinge um lucro recorde em 2005, impulsionado pelas vendas de minério de ferro, ouro, petróleo e café.
A inflexão definitiva ocorre em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os Estados Unidos não voltaram a registrar déficit no comércio de bens com o Brasil. O saldo positivo alcançou recordes de 16,5 bilhões de dólares (R$ 81 bilhões) em 2014 e de 15,75 bilhões de dólares (R$ 80 bilhões) em 2021, considerados valores nominais.
O padrão se repete nos últimos dois anos. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a 14,4 bilhões de dólares (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior.
Já no setor de serviços, a balança favorece os americanos ao menos desde 1999. Em valores nominais, 2025 marcou o maior superávit dos EUA dos últimos 26 anos: foram 27,4 bilhões de dólares (R$139 bilhões) obtidos com o mercado brasileiro.
Os dados para 2026 indicam que um novo recorde deve ser confirmado até dezembro. Se considerado o mês de maio, o país se tornou o sexto maior gerador de superávit para os Estados Unidos. Ainda assim, figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, atrás apenas da China.
As medidas dos EUA extrapolam
"A balança comercial, assim como o comércio exterior, não se trata somente do produto em si. Não é sobre os bens, mas sobre os ganhos relativos dessa relação comercial", afirma o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo.
Para o pesquisador, o superávit dos EUA mostra que as tarifas não visam corrigir um déficit inexistente, mas reorientar os fluxos comerciais em meio à perda de competitividade de Washington em vários setores, como o de tecnologia.
"Os percentuais [tarifários] são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. [...] Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade", completa.
Isso se traduz na lista de exceções elaborada pelo USTR, que inclui cerca de 2.100 itens, como commodities agrícolas, minerais e metais. Trata-se de produtos cuja demanda interna os EUA não conseguem suprir e que não têm relação com as práticas sob investigação.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, isso faz com que apenas 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos sejam efetivamente atingidas pela nova medida.
"O comércio é o que está menos em jogo", diz Pecequilo, da Unifesp. "Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores. [...] Conter o Brasil no campo dos organismos multilaterais, das alianças de geometria variável com os outros países emergentes." Disputas políticas também alimentam as sanções.
(da redação com informações da DW. Edição: Política Real)