Lula faz declaração à imprensa recebendo presidente Rodrigo Paz, da Bolívia; “O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico. É uma necessidade histórica”
Veja a íntegra da declaracão à imprensa
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(Brasília-DF, 16/03/2026). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na manhã desta segunda-feira, 16, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, um conservador que recém foi eleito chefe de Estado daquele país depois de muitos anos de presidentes ligados ao campo chamado progressista.
Lula disse a relação entre os dois países não deve ter questões ideológicas.
“O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico. É uma necessidade histórica.”, disse.
Veja a íntegra da declaração à imprensa de Lula no Palácio do Planalto:
Dou as boas-vindas ao presidente Rodrigo Paz e aos ministros, governadores e empresários de sua comitiva.
Já tínhamos nos encontrado em janeiro deste ano, à margem do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, no Panamá.
Assim como o seu pai, o também presidente Jaime Paz Zamora, que visitou o Brasil em agosto de 1990, o presidente Rodrigo Paz muito nos honra ao escolher o Brasil como destino de sua primeira visita bilateral como chefe de Estado.
Bolívia e Brasil são o ponto de encontro entre a Amazônia, o Pantanal, os Andes e o Cone Sul.
Compartilhamos a oitava maior fronteira terrestre do mundo.
São mais de 3.400 quilômetros que conectam os estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aos departamentos de Pando, Beni e Santa Cruz.
Essa não é apenas uma linha no mapa.
É uma fronteira viva, que conecta povos, culturas e economias.
É uma fronteira que se expande, com o comércio, com investimentos em infraestrutura física e energética e com a mobilidade de bolivianos e brasileiros.
O Brasil é hoje o segundo parceiro comercial da Bolívia.
Mas o comércio bilateral ainda está muito aquém de seu potencial.
Em 2013, tínhamos um intercâmbio de 5 bilhões e meio de dólares.
Ano passado, esse valor foi de apenas 2,6 bilhões.
Estamos atuando para reverter esse quadro.
Em setembro de 2025, mais de 100 empresas brasileiras estiveram na Expocruz em Santa Cruz de la Sierra, a maior feira multissetorial da América do Sul.
Nesta visita, 120 empresários bolivianos acompanham o presidente Rodrigo Paz e participarão de um Fórum Empresarial amanhã, em São Paulo.
Essas são iniciativas valiosas para impulsionar nosso intercâmbio comercial.
Há muitas oportunidades no setor de alimentos, lácteos, material genético, sementes, frutas, algodão, cana de açúcar e soja, além de aprofundar a cooperação em biotecnologia, com o apoio da EMBRAPA.
Outra medida que vai surtir efeito no curto prazo é a criação do Sistema Brasileiro de Crédito à Exportação, aprovado na semana passada pelo Congresso Nacional.
A partir de agora o BNDES dispõe de instrumentos mais modernos de financiamento às exportações de bens e serviços, abrindo espaço para maior atuação e competitividade internacional das empresas brasileiras e para a geração de empregos.
Somam-se a isso os investimentos robustos que continuamos fazendo para superar a carência de infraestrutura e fomentar a integração física com nossos vizinhos.
Em 2004, inaugurei a primeira ponte entre Brasil e Bolívia, ligando Brasiléia, no Acre, a Cobija.
Foi preciso aguardar mais de 500 anos para que nossos territórios fossem ligados por uma ponte.
Ano passado, assinei a ordem de serviço para construir a segunda ponte entre nossos países, cujas obras terão início em 2027.
A ponte sobre o rio Mamoré vai facilitar muito a vida dos moradores de Guajará-Mirim, em Rondônia, e Guayarámerin, no Departamento de Beni.
Ela também é peça central para as Rotas de Integração Sul-Americana.
Como parte do Quadrante Rondon, vai melhorar a conectividade dos produtores do Brasil e da Bolívia aos portos do Chile e do Peru, permitindo escoamento pelo Oceano Pacífico e acesso aos mercados asiáticos.
Também queremos avançar em uma das aspirações que mobilizou vários governos bolivianos: obter acesso fluvial para o Atlântico.
Com esse propósito, o Brasil apresentou ano passado projeto de acordo tripartite, com a Bolívia e o Paraguai, para aumento da navegabilidade da hidrovia do rio Paraguai, que inclui a dragagem, sinalização e balizamento do Canal Tamengo, que conecta a Lagoa de Cáceres a Corumbá.
Outro pilar estruturante da parceria bilateral é a cooperação energética.
Há décadas, a Petrobras ajuda a construir na Bolívia uma das mais importantes experiências de integração energética da América Latina.
Em um contexto internacional marcado por conflitos que ameaçam a provisão segura de combustíveis, a Bolívia permanece como uma fonte segura e mantém a condição de maior fornecedor de gás natural para o Brasil.
Conversamos sobre a possibilidade de ampliar investimentos nessa área e incrementar o volume exportado para o mercado brasileiro.
O Gasoduto Brasil–Bolívia serviu muito ao crescimento da indústria brasileira e do setor de hidrocarbonetos boliviano.
Hoje, ele pode ser aproveitado para uma integração mais ampla dos mercados de gás do Cone Sul.
Também poderá contribuir para abastecer a fábrica de fertilizantes que o governo boliviano considera instalar em Puerto Quijaro.
Também avançamos firmemente rumo à interconexão de nossos sistemas elétricos.
O acordo que assinamos hoje abre caminho para a construção de linha de transmissão entre a província de Germán Busch, no departamento de Santa Cruz, e o município de Corumbá.
Vamos otimizar o uso dos recursos existentes nos dois países e levar eletricidade a regiões ainda dependentes de diesel.
O Brasil está disposto a cooperar com a Bolívia também com apoio à produção de biocombustíveis e outros recursos renováveis.
Isso significa mais segurança energética e diversificação de fontes de fornecimento, além de possibilitar a descarbonização de nossas economias.
Nossa integração vai além dos setores de infraestrutura e energia.
Bolívia e Brasil estão unidos na preocupação com a segurança pública.
O acordo que assinamos hoje renova nosso compromisso com o combate ao crime organizado nos dois lados da fronteira.
Ele prevê maior coordenação para prevenir e punir o tráfico de drogas e de pessoas, contrabandos, roubos de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais.
Ao mesmo tempo, é fundamental facilitar a mobilidade das pessoas.
Caro Presidente Rodrigo Paz,
A presença de milhares de estudantes brasileiros em universidades bolivianas, especialmente nos cursos de medicina, é um exemplo dos laços humanos que unem nossos países.
Esses jovens fortalecem o intercâmbio acadêmico e cultural entre Brasil e Bolívia e aproximam ainda mais nossas sociedades.
Hoje também assinamos um Memorando de Entendimento sobre Cooperação Turística.
Queremos que mais turistas bolivianos conheçam a nossa Copacabana carioca; e que mais brasileiros visitem a Copacabana andina, histórica cidade às margens do Lago Titicaca.
O presidente Paz e eu concordamos que a integração regional não é um projeto ideológico.
É uma necessidade histórica.
Em um mundo cada vez mais competitivo, nenhum país da nossa região terá condições de prosperar isoladamente.
Somente uma América do Sul integrada poderá ocupar o lugar que merece na economia e na política global.
A adesão da Bolívia ao MERCOSUL representa um passo histórico.
O MERCOSUL se fortalece e nos dá mais autonomia estratégica diante das instabilidades do mercado global.
Com a Bolívia, o MERCOSUL deixa de ser um projeto restrito ao Cone Sul e passa a se consolidar como um verdadeiro eixo de integração continental.
Integração que ainda conta com instrumentos importantes como a CELAC.
Participarei, em 21 de março, da Décima Cúpula da CELAC, em Bogotá, ocasião em que também abriremos o debate aos nossos parceiros africanos, no Primeiro Fórum de Alto Nível CELAC-África.
Bolívia e Brasil são guardiões de uma das maiores riquezas ambientais do planeta, a Amazônia.
A proteção da floresta, da biodiversidade e dos povos que nela vivem é nossa responsabilidade compartilhada.
Essas prioridades que orientam em nossa atuação como membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
Presidente Paz,
Em seu discurso de posse, você defendeu uma “América Latina livre, democrática e em paz”.
Como no Brasil em 8 de janeiro de 2023, a democracia também enfrentou desafios na Bolívia, em 2019 e 2024.
Em ambos os casos, saímos fortalecidos.
Nossos países provaram que instituições democráticas e a vontade popular são capazes de superar tentativas de ruptura.
O futuro da nossa região depende da nossa capacidade de cooperar.
Sem amarras ideológicas, sem ódio e sem violência, construiremos uma América Latina pacífica, integrada e próspera.
Desejo muita sorte ao presidente Rodrigo Paz nesse mandato que se inicia e felicidades ao povo boliviano.
( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)