Lula recebe primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin; nota do Planalto diz que os dois discutirem questões comercial e temas globais; os dois concordam que as relações comerciais pode ser bem melhor
Agência ligada a Rússia lista pontos principais da relação entre os dois países
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Com agências
(Brasília-DF, 05/02/2026) O Palácio do Planalto divulgou nota no final da tarde desta quinta-feira,05, após encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin.
Não foi uma visita de Estado. Mishustin veio ao Brasil à frente de delegação composta por ministros e dirigentes de agências do governo russo para participar da VIII Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN). Os dois trataram, segundo a nota “de temas da agenda bilateral e global”.
Criada em 1997, a CAN é liderada pelo vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, e pelo chefe do Governo da Rússia.
Lula ouviu de Mishustin e Alckmin sobre os avanços alcançados na reunião que mantiveram na manhã de hoje, em especial nas áreas de educação, saúde, agricultura, energia, ciência e tecnologia, infraestrutura, defesa e espaço.
O presidente e o primeiro-ministro concordaram sobre o potencial ainda pouco explorado do comércio bilateral, cujas cifras ainda não espelham o tamanho das duas economias. Lula insistiu na importância de manter mecanismo de acompanhamento das iniciativas acordadas para que possam produzir resultados mais rápidos e benefícios concretos para os dois países.
Ao tratarem de temas da agenda internacional, o presidente brasileiro destacou a urgência na adoção de ações para fortalecer o multilateralismo.
A Sputnik Brasil reuniu os principais pontos que ajudam a compreender a importância e os desafios da parceria comercial entre Brasil e Rússia.
Balança Comercial
A balança comercial entre Brasil e Rússia evidencia uma relação marcada pela complementaridade e oportunidade. Em 2025, o intercâmbio bilateral alcançou US$ 11 bilhões, consolidando a Rússia como o 12º maior parceiro comercial do Brasil. Apesar do volume expressivo, o saldo é deficitário para os brasileiros.
O contexto geopolítico internacional teve impacto direto nessa dinâmica. As sanções impostas pelos países do G7 à Rússia, após o conflito na Ucrânia, levaram Moscou a redirecionar fluxos comerciais para parceiros fora do eixo ocidental, com destaque para os países do BRICS. Nesse movimento, as importações russas oriundas do grupo saltaram de US$ 95 bilhões para cerca de US$ 210 bilhões, ampliando o espaço para o Brasil e reforçando a posição russa como grande exportadora de bens essenciais.
Diante desse cenário, o governo brasileiro tem sinalizado interesse em reequilibrar a relação comercial. Em maio de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a ampliação dos canais de comércio bilateral, sobretudo em áreas como minerais críticos e transição energética, com o objetivo de reduzir o déficit e aumentar o valor agregado das exportações brasileiras. A estratégia passa menos por reduzir importações essenciais e mais por diversificar e qualificar a pauta exportadora.
Exportação
As exportações brasileiras para a Rússia seguem fortemente concentradas em commodities agrícolas, o que reforça o papel do Brasil como fornecedor de alimentos em um contexto de reconfiguração das cadeias globais. Soja, café, carne bovina e açúcar lideram a pauta, atendendo à demanda russa por grãos e proteínas, especialmente após a redução das importações vindas de países europeus.
Dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) indicam crescimento expressivo em segmentos específicos, como o café cru, cujas exportações saltaram entre 2019 e 2024, alcançando US$ 266,1 milhões. Esse desempenho reflete não apenas a competitividade do produto brasileiro, mas também a consolidação de canais comerciais mais estáveis entre os dois países.
Apesar do protagonismo das commodities, especialistas apontam que a concentração excessiva limita o potencial da relação comercial. A ampliação das exportações de produtos industrializados e semimanufaturados aparece como um desafio central para o Brasil, especialmente em setores nos quais o país possui capacidade produtiva.
Importação
Do lado das importações, a Rússia ocupa posição estratégica para o Brasil no fornecimento de insumos considerados vitais para a economia. Segundo dados da Comtrade, os principais produtos importados pelo Brasil são combustíveis — cerca de US$ 7 bilhões — e fertilizantes, que somam aproximadamente US$ 4 bilhões anuais. Esses itens são fundamentais para o funcionamento do agronegócio, setor que responde por 29,4% do PIB brasileiro.
A dependência de fertilizantes russos ganhou ainda mais relevância após as disrupções globais provocadas pela pandemia e pelo conflito na Ucrânia. Nesse contexto, o Brasil optou por não aderir às sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia aos produtos energéticos russos, tornando-se o quinto maior comprador de derivados de petróleo da Rússia, segundo o Centro para Pesquisas em Energia e Ar Limpo.
Oportunidades no Brasil
A relação com a Rússia oferece ao Brasil oportunidades que vão além do comércio tradicional. Um dos principais vetores é a atração de investimentos e cooperação tecnológica em áreas estratégicas, como fertilizantes, mineração e energia. Empresas russas detêm know-how relevante nesses setores, o que pode contribuir para reduzir gargalos históricos da economia brasileira.
A cooperação em minerais críticos — essenciais para a transição energética — surge como um campo promissor. O Brasil possui vastas reservas de lítio, nióbio e terras raras, enquanto a Rússia reúne experiência tecnológica e capacidade industrial. Parcerias nesse segmento podem fortalecer a posição brasileira nas cadeias globais de energia limpa e reduzir a dependência de países ocidentais ou asiáticos.
Além disso, o Brasil pode se beneficiar da ampliação de joint ventures e acordos de transferência de tecnologia, especialmente no âmbito do BRICS. A estratégia brasileira busca transformar a relação comercial em uma parceria mais estruturante, capaz de gerar empregos, inovação e maior valor agregado interno, em vez de apenas reforçar a lógica exportadora de commodities.
Oportunidades na Rússia
Para a Rússia, o Brasil representa um mercado estratégico e estável no Sul Global, com grande capacidade de absorção de alimentos, bens industriais e cooperação tecnológica. Segundo o Mapa de Oportunidades da ApexBrasil, existem ao menos 217 oportunidades de exportação de produtos brasileiros para o mercado russo, em segmentos como materiais de construção, couro, ferramentas, utensílios e máquinas, o que também beneficia a economia russa ao diversificar fornecedores.
No setor alimentício, a convergência entre a demanda russa e a oferta brasileira é particularmente relevante. As sanções ocidentais reforçaram a estratégia de Moscou de reduzir dependências da Europa e ampliar parcerias com países emergentes. Nesse contexto, o Brasil se consolida como fornecedor confiável, capaz de garantir segurança alimentar em médio e longo prazo.
A presença de sete projetos setoriais da ApexBrasil voltados ao mercado russo indica uma aposta institucional na consolidação dessa relação. Para a Rússia, isso significa não apenas acesso a produtos brasileiros, mas também a possibilidade de aprofundar laços econômicos e políticos com um dos principais atores da América Latina, reforçando sua estratégia de inserção internacional em um mundo cada vez mais multipolar.
( da redação com informações de assessoria e Sputnik Brasil. Edição: Política Real)