Acordo Mercosul-União Europeia é assinado em Assunção; Sebastião Peña diz que maior acordo do mundo só seria possível com influência e ação do presidente Lula
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Com agências
(Brasília-DF, 17/01/2026) Neste sábado, 17, após 26 anos, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) foi enfim assinado em Assunção, capital paraguaia, em cerimônia prestigiada por representantes de alto nível dos dois blocos.
Do lado do Mercosul, estiveram presentes os presidentes Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) – que exerce a presidência rotativa do bloco – e Yamandú Orsi (Uruguai), além do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
A cerimônia também foi prestigiada pelos presidentes Rodrigo Paz, da Bolívia, que está em fase final de adesão como membro pleno do Mercosul, e José Raúl Mulino, do Panamá, mais novo integrante do bloco.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recepcionou a delegação europeia no Rio de Janeiro na tarde anterior, não viajou ao Paraguai por conflitos de agenda.
Em seu discurso, Peña lembrou do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não foi ao evento, e disse que, "sem ele, não haveria acordo".
“É com grande alegria que dou as boas-vindas, em dobro, a esta histórica cerimônia de assinatura do Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia. Assunção é justamente chamada de “Mãe dos Povos e Nutridora das Cidades”.
Olhemos para o futuro com mais coragem, mais ousadia, mais audácia, e aprofundemos ainda mais a nossa união, que se fortalece cada vez mais. A Europa e a América do Sul devem unir-se para trilhar um caminho diferente.
Por meio da linguagem comum do diálogo, alcançamos um entendimento que abre as portas para um futuro promissor. O caminho para dias melhores é pavimentado com maior integração, maior cooperação, maior fraternidade e maior humanidade.
Peña fala no evento
Assunção volta a estar na vanguarda da história. Esta cidade nasceu para unir, e cumpriu-o mais uma vez a 26 de março de 1991, quando aqui foi assinado o Tratado de Assunção, dando origem ao MERCOSUL. Hoje, quase 35 anos depois desse momento fundamental, o caminho então iniciado atinge uma nova etapa.
O que começou como um sonho de integração regional tornou-se realidade em Assunção com a assinatura do Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia. O Paraguai, berço da integração, volta a ser o ponto de encontro onde a América do Sul e a Europa fortalecem laços e moldam o futuro.
Com orgulho e convicção, damos as boas-vindas a todos em Assunção, palco de um momento histórico que une duas regiões em um caminho comum.”
Já Paz e Milei aproveitaram a ocasião para prestar solidariedade ao povo venezuelano após a prisão de Nicolás Maduro.
Pelo lado europeu, Costa celebrou a assinatura do acordo em um mundo "cada vez mais turbulento" e von der Leyen destacou que a aliança dos blocos busca um "comércio justo no lugar de tarifas".
Europeus
"Estamos criando a maior zona de livre comércio do mundo, um mercado que vale quase 20% do PIB global", discursou Von der Leyen. "Este acordo envia um sinal forte ao mundo, reflete uma escolha clara e deliberada: escolhemos o comércio justo em vez de tarifas; escolhemos uma parceria produtiva, de longo prazo; e, acima de tudo, pretendemos entregar benefícios reais e tangíveis à nossa gente e às nossas empresas."
Em uma alusão às terras raras, a chefe do Executivo europeu também disse esperar que o acordo assegure ao bloco acesso facilitado aos recursos naturais de que precisa para fazer a sua transição energética. Em troca, os países do Mercosul devem se beneficiar de investimentos para fazer sua própria transição.
Von der Leyen também destacou a "importância geopolítica" do acordo. "Estamos criando uma plataforma para trabalhar em uma série de questões globais, desde a proteção de nosso precioso meio ambiente até a reforma das instituições globais", disse. "E quando nossas duas regiões falarem com uma só voz sobre questões globais, o mundo ouvirá."
Local do evento de assinatura do acordo
O que é o acordo Mercosul-UE e quais impactos ele pode ter?
O acordo Mercosul-UE prevê a redução de tarifas comerciais e a facilitação de investimentos entre os dois blocos, que englobam mais de 700 milhões de pessoas e formarão uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
A principal expectativa é que a parceria alavanque o comércio entre os dois continentes e seja um instrumento de fortalecimento das duas regiões, em um mundo cada vez mais polarizado entre China e Estados Unidos.
O acordo prevê a redução de tarifas de importação, que pode ser imediata ou gradual (em até 15 anos), a depender dos setores.
Essa liberação vai atingir 91% dos bens que o Brasil importa da União Europeia e, do outro lado, 95% dos bens que o bloco europeu importa do Brasil.
Quando entrar em vigor, o acordo vai alavancar alguns setores brasileiros (principalmente o agronegócio) e pode prejudicar outros, mas governo e economistas têm uma visão otimista sobre o saldo desse impacto para o crescimento do país.
Além disso, pode beneficiar o consumidor, com o potencial barateamento de produtos importados, como azeites, queijos, vinhos e frutas de clima temperado (frutas secas, peras, maçãs, pêssegos, cerejas e kiwis).
Esse impacto, porém, vai ser gradual e pode ser compensando por outros fatores que afetam os preços dos produtos, como a taxa de câmbio, ressalta o economista Felippe Serigatti, pesquisador da FGV Agro.
Fernando Ribeiro, coordenador de estudos de comércio internacional do Ipea, ressalta que o principal impacto nos preços do consumidor será indireto, ao deixar a produção brasileira mais barata, devido à importação de máquinas e insumos a preços menores.
"E quando a gente vê os produtos cuja importação mais cresce [nas simulações sobre o impacto do acordo], são exatamente máquinas, equipamentos elétricos e outros itens usados como insumos para produção industrial", reforça Ribeiro.
Críticas e resistências ao acordo Mercosul-UE
Nem todos os países estão satisfeitos com a assinatura do tratado.
A França lidera, ao lado da Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda, o grupo que se opõe de forma contundente ao acordo.
Para muitos agricultores europeus, o acordo representa a abertura do mercado para uma concorrência desleal, já que esses produtos sul-americanos tendem a ser mais baratos em razão de custos trabalhistas e ambientais mais baixos.
Nos últimos dias, agricultores franceses voltaram a ocupar as ruas em protestos contra o acordo.
Cerca de 350 tratores invadiram a icônica avenida Champs-Élysées, em Paris (capital francesa), e acamparam nas proximidades do edifício do Parlamento.
Os protestos refletem um profundo mal-estar no setor agrícola francês, e a assinatura prevista do acordo entre a União Europeia e o Mercosul é vista como a gota d'água.
Os tratores de agricultores irlandeses também se fizeram ouvir nas últimas semanas. Dezenas ocuparam em massa as estradas de Athlone (Irlanda), no centro do país, exibindo faixas com slogans como "Pare UE-Mercosul" e a bandeira da União Europeia com a palavra "vendidos".
O mesmo ocorreu na Polônia, Hungria e Áustria: estradas bloqueadas, agricultores indignados e tratores nas capitais cobrando de seus parlamentares que reconsiderem um tratado negociado há 25 anos.
O temor generalizado em alguns países europeus é o de perda de renda em um setor submetido a normas de produção consideradas muito mais rigorosas do que as sul-americanas, o que implica custos mais elevados.
Especialistas concordam que as diferenças nas regras sanitárias e de bem-estar animal entre o bloco do Mercosul e o europeu são significativas. Na União Europeia, há normas rígidas sobre rastreabilidade, uso de pesticidas, hormônios e bem-estar animal.
Há receio de que produtos importados não cumpram padrões equivalentes, mas ainda assim concorram em preço, um ponto que gera rejeição tanto entre produtores quanto entre consumidores.
Embora o impacto no setor agropecuário europeu seja algo previsível, existem outros setores econômicos onde esses países podem se beneficiar do acordo com o Mercosul, apontam analistas.
É o caso, por exemplo, da indústria automobilística e de serviços. A Europa também pode ter um acesso ampliado aos minerais raros que vêm da América do Sul, o que diminuiria a dependência de importação desse material da China.
Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia concentram uma parte considerável dos recursos mundiais de lítio, grafite e níquel.
O acordo também é criticado pelas Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), grupo que reúne lideranças sindicais da América do Sul, como a Central Única dos Trabalhos (CUT) do Brasil.
A entidade avalia que o tratado "não contempla direitos, proteção e desenvolvimento social para trabalhadores".
"Não há mecanismos de participação social e ameaça a estrutura produtiva da região", critica Quintino Severo, secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT e secretário-geral da CCSCS.
"A perspectiva é de desindustrialização, menos produção nacional e maior dependência de produtos industrializados da Europa. Isso significa enfraquecimento da indústria local e perda de empregos de qualidade", complementa ele.
Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) vê a assinatura como "um passo significativo para avançar na inserção internacional do Brasil e para o fortalecimento da indústria nacional".
Para a entidade, "o acordo deve promover impactos mais significativos sobre os investimentos bilaterais, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e fortalecer disciplinas relacionadas à facilitação de comércio e investimentos".
( da redação com informações da DW e BBC. Edição: Política Real)