31 de julho de 2025
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Chefe da comissão europeia, Ursula von der Leyen, sem citar Donald Trump, convida cientistas a escolherem a Europa; Emmanuel Macron, no mesmo evento em Sorbonne, foi direto ao dizer de um erro inimaginável dos EUA

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( Publicada originalmente 19h. 52 do dia 05/05/2025) 

(Brasília-DF, 06/05/2025) Nesta segunda-feira, 5, a chefe da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia, Ursula von der Leyen, esteve ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron, no evento “Choose Europe for Science” em que foi apresentando um pacote de 500 milhões euros para 2025-2027 para tornar a Europa um pólo de atração de pesquisadores.

Ursula von der Leyen convidou os cientistas norte-americanos ameaçados pelas políticas de Donald Trump para se mudarem para a União Europeia, prometendo-lhes maiores incentivos financeiros, contratos mais longos, menos burocracia e um compromisso legal de respeitar a sua liberdade de investigação.

“Mais do que nunca, temos de defender a ciência. Uma ciência que é universal, partilhada por toda a humanidade e que é unificadora”, afirmou a presidente da Comissão Europeia na segunda-feira, num discurso proferido na Universidade La Sorbonne, em Paris.

“Todos podemos concordar que a ciência não tem passaporte, género, etnia ou partido político”.

“Acreditamos que a diversidade é um ativo da humanidade e a força vital da ciência. É um dos bens globais mais valiosos e deve ser protegido”, acrescentou.

Von der Leyen não mencionou Trump pelo nome, e o seu porta-voz disse mais tarde que o discurso não era sobre “a forma como a ciência é gerida noutros países”.

No entanto, as abundantes referências à importância da investigação “livre e aberta” deixaram poucas dúvidas quanto ao seu objetivo final: transformar o caos da América na oportunidade da Europa.

Desde o seu regresso à Casa Branca, Trump implementou cortes radicais no orçamento federal que privaram as agências científicas, as instituições de investigação e os centros médicos de milhares de milhões de dólares em subsídios, pondo em perigo a sua capacidade de sustentar estudos cruciais que exigem um financiamento fiável e estável. Os programas centrados nas alterações climáticas, no cancro, na doença de Alzheimer e na prevenção do VIH já foram afetados.

Num novo pedido, Trump solicitou ao Congresso um corte de 37% nas despesas dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e de mais de 50% na Fundação Nacional de Ciência (NSF), uma medida que, segundo o governo, visava “reorientar os investimentos” em áreas prioritárias, como a IA, a energia quântica e nuclear, e “acabar com as despesas científicas sem interesse”

Estas políticas têm encontrado resistência e têm posto em causa décadas de consenso bipartidário, provocando avisos de que os cortes federais são tão profundos que podem pôr em perigo a capacidade dos Estados Unidos de competir com outras economias importantes.

Um estudo recente da Universidade Americana estimou que uma queda de 25% na despesa pública em I&D reduziria o PIB do país num “montante comparável” ao declínio registado durante a Grande Recessão.

Paralelamente, Trump lançou uma campanha contra as universidades de elite para desmantelar os seus programas de diversidade, ameaçando cortar o financiamento federal e alterar os seus regimes fiscais.

“Infelizmente, o papel da ciência no mundo atual é questionado. O investimento na investigação fundamental, livre e aberta é posto em causa”, afirmou von der Leyen em Paris.

“Que erro de cálculo gigantesco”.

Em seguida, Von der Leyen apresentou uma nova iniciativa, denominada “Choose Europe”, para atrair cientistas e investigadores dos Estados Unidos (EUA) e de outros países para o bloco.

No âmbito desta iniciativa, a líder do executivo comunitário afirmou que o bloco procurará reduzir os encargos burocráticos, facilitar o acesso ao capital de risco e oferecer mais contratos a longo prazo e subsídios mais elevados. Além disso, a UE estabelecerá um “supersubsídio” de sete anos e acrescentará um “complemento” financeiro ao subsídio daqueles que optarem por se mudar.

A liberdade de investigação científica será consagrada na lei, acrescentou.

O plano vai  se basear nos programas de investigação existentes, principalmente o Horizonte Europa, no valor de 93 bilhões de euros, e incluirá uma nova dotação de 500 milhões de euros para o período 2025-2027.

“A primeira prioridade é garantir que a ciência na Europa continua aberta e livre. Este é o nosso cartão de visita”, disse von der Leyen à audiência.

“Temos de fazer tudo o que pudermos para a defendermos, agora mais do que nunca”.

O presidente francês Emmanuel Macron, que falou imediatamente a seguir à presidente da Comissão, foi muito mais explícito na sua condenação.

“Ninguém poderia imaginar, há alguns anos, que uma das maiores democracias do mundo iria abolir programas de investigação sob o pretexto de que a palavra diversidade estava nesse programa”, disse Macron.

“Ninguém poderia pensar que esta grande democracia do mundo, cujo modelo económico se baseia tão fortemente na ciência livre e na inovação (...) fosse cometer um erro destes. Mas aqui estamos nós”.

O líder francês rejeitou qualquer “diktat” que permita aos governos impor aos cientistas o que podem ou não investigar. Macron citou dois campos específicos - a saúde das mulheres e a ação climática - que a administração Trump tem visado.

“As vidas também estão em risco”, afirmou. “É o progresso da nossa humanidade que está a ser posto em causa. É um imperativo moral e humano”.

( da redação com Euro News. Edição: Política Real)