Gabriel Galípolo, falando aos senadores, disse que a normalização da política monetária vai demandar uma série de reformas contínuas; ele disse que a última alta da Selic foi impactada pela alta de tarifas de Trump
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( Publicada originalmente às 13h 00 do dia 22/04/2025)
(Brasília-DF, 23/04/2025). Nesta terça-feira, 22 de abril, pós-feriado, o grande destaque no Senado, visto que líderes foram convidados para ir ao Planalto por conta da visita oficial de Estado do presidente do Chile, Gabriel Boric, foi a oitiva que a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) para uma audiência pública com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Galípolo afirmou que a normalização da política monetária vai demandar uma série de reformas contínuas. O presidente da autarquia federal foi questionado pelos senadores sobre o quinto reajuste consecutivo da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 14,25%; aumento da inflação e da dívida pública e os impactos do cenário internacional, principalmente diante da atual guerra tarifária impulsionada pelos Estados Unidos.
Galípolo destacou o “crescimento excepcional” do Brasil, mas chamou a atenção para a inflação. Para o gestor, o cenário internacional, ainda imprevisível, tem sido o vetor principal na determinação da dinâmica dos preços de mercado. O presidente do Banco Central defendeu que é papel da autarquia atuar em uma ação de “contrapé” (como o aumento da taxa básica de juros), como o “chato da festa”, para que não se perca o controle da estabilidade monetária.
“Quando a economia está aquecida, gerando pressões inflacionárias, você deveria freá-la, para que não se perdesse o controle da estabilidade monetária “, disse.
O gestor também salientou que “todos no Banco Central estão bastante incomodados por estarmos fora da meta”.
“Porém, estamos falando de um patamar de inflação muito inferior ao que estávamos discutindo antes e mais próximo com as economias avançadas e com as emergentes.”, disse
Presidente da CAE, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) enfatizou que o país enfrenta incertezas no cenário internacional, que ainda não permitem ver com clareza qual será a trajetória das commodities. Ele destacou o “remédio amargo” do aumento da taxa de juros para contenção da inflação.
“A supersafra vai ajudar, mas os preços dos alimentos não devem regredir com velocidade; assim, temos uma situação peculiar. Vamos muito bem segundo diversos indicadores macroeconômicos, a começar pelo crescimento do produto interno bruto [PIB], aumento da renda média das famílias e baixa taxa de desemprego. No entanto, paira o fantasma inflacionário”, pontuou Renan.
Selic
Segundo o presidente do Banco Central, a última elevação da taxa básica de juros (Selic), de 13,25% para 14,25% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) também foi impactada pela imposição de tarifas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele considera que está em andamento a avaliação de uma possível desaceleração internacional.
“Estamos falando de um cenário de aversão a risco onde aquilo que é conhecido como o ativo de última instância, o ativo mais seguro da economia, está sendo um pouco questionado. (...) É perceptível, entre os agentes econômicos, uma dúvida sobre para onde se deve procurar proteção no momento de aversão a risco. Esse é o cenário em que a gente está entrando, e por isso que a gente está vendo alguns cenários de arbitragem entre moedas de alguns países, ou o próprio preço do ouro, como o ouro tem se valorizado e batido recordes, a gente tem assistido. Então, esse é um cenário de preocupação”, disse.
Galípolo destacou que as commodities são impactadas pelos preços internacionais e que de 60 a 70% da produção agrícola tem “alguma correlação elevada com a taxa de câmbio”. Disse ainda que depreciação cambial de 10% aumenta a inflação de alimentos em 1,4 ponto percentual.
Mas para o presidente do Banco Central a diversificação da pauta comercial brasileira, somada a um mercado doméstico relevante, coloca o país como um local de proteção.
“Na comparação com seus pares, o Brasil pode se destacar justamente por essa diversidade.”, disse.
Galípolo explicou ainda que estão "tateando" agora um ajuste, para verificar se o ciclo de alta dos juros que tem sido adotado está em um patamar restritivo o suficiente.
Galípolo defendeu que a normalização da política monetária vai demandar uma série de reformas contínuas, entre elas a ampliação do acesso da população ao um credito de menor custo. Ele lembrou que o crédito rotativo não deveria ser utilizado de maneira frequente, mas apenas de forma emergencial, daí a importância de se pensar em instrumentos em que se possa oferecer mais garantias.
“Ou seja, que você possa migrar do crédito que tem alto custo para o crédito de baixo custo, de uma maneira estrutural, ou seja, porque se está oferecendo garantias, está aumentando o que a gente chama de colateralização, na minha posição, na minha visão, do ponto de vista estrutural, ele é bem-vindo por isto, porque eu consigo sair daquele crédito que está sendo utilizado de maneira equivocada”, disse.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), indagou se o Brasil está utilizando inteligentemente a busca de competitividade e disse que “estamos deixando os juros altos no Brasil virar quase como um vício”.
“O Banco Central costuma olhar vários anos para frente e também olhando vários anos para trás. O tema de a gente estar convivendo com patamares de juros que são comparativamente elevados, quando comparado com os pares, não é um tema novo, é um debate, como eu disse, que há algumas décadas tem ocupado o debate acadêmico e a literatura econômica brasileira. E aí, essa relação sobre os caminhos, que são a fluidez, vamos dizer assim, do mecanismo de transmissão da política monetária é relevante para a gente poder analisar, porque o que eu acho que acaba acontecendo é que, a cada momento que a gente tem, ou a gente aprendeu a conviver, como o senhor comentou, senador, assim, aprendemos a conviver com uma inflação mais alta, aprendemos a conviver com juros “, expôs Galípolo.
Líder da Oposição, Rogerio Marinho (PL-RN) enfatizou que o governo busca receitas para tentar tapar os buracos na política fiscal. Ele lembrou que a projeção do Relatório Focus era de uma taxa Selic de 8% ao final de 2024, e de 7,75% ao final de 2025, enquanto o atual percentual é de 14,25%.
“Se pegar o dado colocado aqui da nossa dívida, de R$ 9 trilhões, a dívida pública nominal, absoluta, e levarmos em consideração uma Selic de 14%, 1,2 trilhão — mas a composição dessa dívida vai variar, porque alguma parte dessa dívida foi contraída com uma taxa de juro menor —, então bota aí uma taxa média de 10%, R$ 900 bilhões de reais por ano. Se ela fosse a metade, como o Relatório Focus preconizava, nós estamos falando aí de quase R$ 500 bilhões pagos a mais de juros em função da temeridade, em função da má condução da política fiscal por este governo populista que não tem projeto de país”, disse Marinho.
( da redação com informações da Agência Senado. Edição: Política Real)