Quase bandido, por meia hora
A coluna de Rangel Cavalcante é publicada todos os domingos aqui e nos "Florida Review" e
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( Brasília-DF) Já que o País não criou ainda vergonha suficiente para fazer uma limpeza geral, um saneamento absoluto nos quadros políticos nacionais, bem que os nossos governantes poderiam cuidar de evitar que novos marginais surjam sob a proteção do Estado para a sucessão dos que aí já estão. E o primeiro passo seria uma revisão séria do famigerado Estatuto da Criança e do Adolescente. Criado com as melhores intenções, dentro da mania de imitar os outros, esse documento é talvez a maior contribuição do Estado brasileiro ao desenvolvimento da criminalidade entre crianças e adolescentes. Uma lei da Suécia com base de aplicação de Biafra. O ECA virou o guarda-chuva que protege quem tem menos de 18 anos desse negócio chamado justiça. O chamado "di menor" já conhece a lei e usa da menoridade para afrontar a sociedade. E a culpa não é dele. É do Estado que não criou os mecanismos para a aplicação da lei. Ao invés de instituições de recuperação e ressocialização, criou os CADES e outras escolas do crime. E o Estado finge cumprir o seu papel enquanto a delinquência infanto-juvenil toma conta do País, agora como força auxiliar do crime organizado. Nunca na história deste País a participação de jovens em roubos, furtos, assaltos, assassinatos e no tráfico de drogas e armas foi tão intensa e avassaladora. Um exemplo triste e ao mesmo tempo jocoso do sucesso da bandidagem entre menores ocorreu recentemente aqui em Brasília. A polícia cercou um bando que cometera um assalto com morte. Em meio à troca de tiros, um dos bandidos decidiu entregar-se. E explicou a causa da rendição. Olhara no relógio e vira que eram 11h30 da noite. No dia seguinte era o seu aniversário. Completaria 18 anos. Aproveitou para ser preso nos seus últimos 30 minutos de "di menor". Pois se esperasse por mais meia hora, deixaria de ser apenas "apreendido" como um "menor infrator" que cometera um "ato infracional", para se tornar num bandido de verdade, autor de um assassinato. E ao invés de uns dias num arremedo de reformatório e volta às ruas do crime, iria mesmo para a cadeia. Assim, graças à generosidade da Lei, deixou de ser bandido, por meia hora.
Juízo
Sujeito ajuizado mesmo é Heber Fabiano Dias, um desempregado de 41 anos que pulou o alambrado do Centro de Detenção Provisória, uma cadeia de Sorocaba, São Paulo, exigindo que o mantivessem preso ali, com um argumento poderoso: não se sentia seguro nas ruas da cidade.
Mais uma
Depois de financiar com US$ 322 milhões a construção de uma rodovia na Bolívia, o Brasil se prepara para oferecer um novo mimo a um vizinho, custeando o asfaltamento de um trecho de uma rodovia na Guiana, a que liga Lethem, na fronteira com Roraima. Agora, tentem viajar entre Manaus e Boa Vista por terra...
Pobre Bill
Franklin Martins, ministro da Comunicação Social , chamou o ex-presidente Collor de ladrão, em entrevista a um semanário de Brasília. Processado, foi condenado a pagar R$ 50 mil de indenização por danos morais ao ex-inimigo e hoje amigo de infância. Se Collor cobrar indenização de todo mundo que o chamou de ladrão, vai tomar o lugar do Bill Gates na cabeça da lista dos homens mais ricos do mundo.
Racismo
Incrível. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou projeto instituindo o Hino à Negritude. Mais uma boa contribuição à escalada do racismo, iniciada no Brasil com a invenção do sistema de cotas, que começou a tornar legal a divisão dos brasileiros pela cor da pele. Por sorte alguém conseguiu retirar o dispositivo que tornava obrigatória a exibição do mostrengo nas solenidades do movimento negro em todo o País.
Na hora
Bem na hora em que o Congresso consagra a candidatura de corruptos, o ex-governador Joaquim Roriz, aquele que renunciou ao mandato de senador para não ser cassado por corrupção, anuncia pela televisão a sua candidatura ao governo do Distrito Federal.
Por Rangel Cavalcante
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