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Jorge Henrique Cartaxo
  • 19/02/2020 19h34

    Bananas ao vento

    Decoro origina-se do latim decorum que significa decência, conveniência, aquilo que convém

    Madona Sistina - detalhe - Rafael Sanzio

    “ Les dames et demoiselles, por être baisées devant leurs noces, il n’este pas la coutume de France ( Não é costume na França beijar as dama e donzelas antes do casamento)”.

    “Ó Catarina! Os costumes mais escrupulosos têm a cortesia de ceder diante dos grandes reis. Querida Catarina, não podemos encerra-nos nos estreitos limites da moda de um país. Somos nós que fazemos a moda, Catarina, e a liberdade que se liga à nossa posição fecha a boca de todos os censores...”

    O diálogo nubente de Henry V com Catarina, filha de Carlos VI, Rei da França – legados ao mundo por Shakespeare no seu drama histórico Henry V – aduz às noções de decoro, conduta, decência, conveniência e moral. Vitorioso e nobre, Henry tem a noção exata de que seus gestos ditam normas e refazem costumes, mesmo aqueles da privacidade. Catarina, futura rainha da Inglaterra e da França, sublinha o valor da sua postura no seu papel,  na sua corte e no seu mundo.

     Decoro origina-se do latim decorum que significa decência, conveniência, aquilo que convém. Ou, como na sua raiz decor  que evoca o sentido do que fica bem. Já a palavra decência que deriva do latim decentia nos remete ao recato, compostura e honestidade individual; e a palavra conveniência, também do latim convenientia que alude ao adequado e/ou estar de acordo. Já a palavra moral provém do latim moralis, morale . Vêm da raiz mores,  “que são o conjunto de normas que define ideias fundamentais sobre o certo e o errado, louvável e repugnante, bom e mau, virtuoso e pecaminoso, entre outras antinomias do comportamento humano”, segundo Allan Johnson – in Dicionário de Sociologia – Zahar/1997.

    Esse grupo de palavras e conceitos, que definem a normatização da sociabilidade na vida cotidiana ocidental, pelo menos desde a Grécia clássica aos nossos dias, com avanços e recuos ao longo dos séculos observadas as circunstâncias e desafios históricos, ainda guarda prevalência nos diálogos e modos entrepares nos dias de hoje.  Ou ainda, como já nos definia Mirabeua na década de 1760: “Se perguntar o que é civilização, a maioria das pessoas responderia: suavização de maneiras, urbanidade, polidez, e a difusão do conhecimento de tal modo que inclua o decoro no lugar de leis detalhadas”.

    Tivesse usado mais seu tempo com livros do que com armas, Jair Bolsonaro teria compreendido melhor o lugar de fala de um homem de Estado e as formas com às quais seus gestos e conteúdos estão subordinados em nome da ordem política, econômica e social de um povo nos desafios e desencontros dos tempos. Certamente encontraria na biblioteca do Palácio do Planalto – que ele vem tentando destruir – a obra de Erasmo de Rotterdam, De ciivilitate morum puerilium ( Da civilidade em crianças ), de 1530. Muito teria aprendido nos capítulos que tratam das condições decorosas e indecorosas do corpo, da cultura corporal, das maneiras nos lugares sagrados, nos banquetes, nas reuniões, nos divertimentos e no quarto de dormir. Não teríamos “bananas”!                                    


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