Chanceler alemão Friedrich Merz disse que vai continuar governando a Alemanha apesar das derrotas eleitorais estaduais; confira lições sobre eleições no país de maior economia na União Europeia
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Com agências
(Brasília-DF, 21/09/2026). Ontem, 20, o o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, num pronunciamento incomum feito logo após o encerramento da votação nos estados de Berlim e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, prometeu reformas e anunciou que pretende continuar a governar o país.
"Assumo essa responsabilidade porque quero fazer nosso país avançar. O que precisa ser feito agora exige coragem, firmeza e paciência. Vou demonstrar isso como presidente da CDU e, sobretudo, como chanceler federal do nosso país", afirmou.
Merz reconheceu, diante dos resultados eleitorais, que o país se encontra em uma situação difícil, "mas assumimos essa responsabilidade". Ele disse estar convencido de que o sucesso das reformas "não apenas melhorará nossa convivência, mas também nossa autoimagem e a imagem que o mundo tem de nós".
Segundo Merz, a Alemanha é capaz de realizar reformas. "Vou ainda mais longe e digo que essas reformas são o antídoto contra o veneno autoritário que, impulsionado pelo fascínio pelo autoritarismo, está penetrando cada vez mais profundamente em nossa sociedade", declarou.
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O partido do líder alemão, a conservadora União Democrata Cristã (CDU), teve uma votação desastrosa e amargou uma derrota histórica no estado do nordeste alemão.
Os pleitos confirmaram ainda o avanço da legenda de ultradireita e anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) no país. A atual situação é extremamente amarga para Merz, que, em novembro de 2018, quando disputava o posto de presidente da CDU, havia prometido que, sob sua liderança, o apoio eleitoral à sigla poderia ser reduzido pela metade. Desde então a AfD mais que dobrou sua votação em eleições estaduais, como na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.
A seguir, seis lições das eleições regionais realizadas em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste da Alemanha, e na capital do país, Berlim.
1. Eleitores se afastam do centro político
Os partidos que saíram vitoriosos desses pleitos e cresceram entre os eleitores não fazem parte do tradicional centro político. A legenda A Esquerda e a AfD obtiveram uma votação recorde em Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, respectivamente.
Em Berlim, A Esquerda, da carismática candidata Elif Eralp, foi o partido mais votado, com 25,7% dos votos, praticamente dobrando a votação obtida no pleito estadual anterior, em 2023. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD conquistou o primeiro lugar, com 38,2% dos votos. A sigla mais do que dobrou os 16,7% obtidos no pleito estadual anterior.
Ambas as siglas conseguiram mobilizar pessoas que não costumam votar, além de conquistar votos de eleitores de partidos tradicionais.
Segundo a pesquisa Infratest Dimap, em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, A Esquerda atraiu 28 mil eleitores da CDU e 45 mil do Partido Social-Democrata (SPD). Em Berlim, o SPD perdeu cerca de 36 mil eleitores para a sigla. O Partido Verde, frequentemente decisivo na formação de governos na política alemã, perdeu 53 mil eleitores para a mesma legenda.
Já a AFD atraiu 8 mil eleitores do SPD e 60 mil da CDU em Berlim, de acordo com a mesma pesquisa. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a legenda conquistou 48 mil eleitores do SPD, 32 mil da CDU, 16 mil dos liberais e 9 mil de A Esquerda.
A atual governadora de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Manuela Schwesig, do SPD, afirmou que a oposição à ajuda à Ucrânia e o apoio ao desativado gasoduto Nord Stream, que levaria gás da Rússia direto para Alemanha, são as duas razões pelas quais eleitores da antiga Alemanha Oriental migraram para a AfD, considerada favorável a Moscou.
2. Merz em baixa, mas não fora do jogo
Os resultados representam um grande revés para Merz e seu partido, cujos eleitores migraram em massa para a AfD, cada vez mais céticos de que o político de 70 anos seja capaz de reanimar a economia alemã e reduzir o custo de vida.
Com os menores índices de aprovação de um chanceler federal desde o início dos registros, Merz, que classificou o resultado como um "desastre", tenta implementar reformar polêmicas, como a das aposentadorias, ao mesmo tempo em aumentam os apelos para que ele renuncie após menos de 17 meses no cargo.
Embora Merz tenha sinalizado que permanecerá no cargo e seguirá com sua agenda de reformas, as perdas de domingo levantam dúvidas sobre sua posição dentro da CDU. O resultado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental foi o pior já obtido pela CDU numa eleição estadual.
Pela primeira vez, os conservadores não conseguiram eleger deputados estaduais. Com 4,9% dos votos, a CDU amargou uma grande derrota, não conseguindo ultrapassar a cláusula de barreira de 5% para garantir assentos no Parlamento local.
A posição enfraquecida de Merz como líder do maior e mais influente país da União Europeia pode comprometer a unidade do bloco num momento em que partidos de extrema direita seguem ganhando força, as relações com os Estados Unidos esfriaram significativamente e as pressões econômicas se intensificaram.
3. AfD consolida posição de liderança
A AfD avançou significativamente nos dois estados e se tornou o partido mais forte em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde mais do que dobrou seu resultado em comparação com 2021.
Esse é o segundo melhor resultado estadual já obtido pela AfD desde a sua fundação, em 2013, ficando atrás apenas do recorde de 43,8% alcançado no pleito do estado da Saxônia-Anhalt, há duas semanas. Em 2024, a legenda conquistou 32,8% dos votos na Turíngia, ficando em primeiro lugar, no que foi a primeira vitória da ultradireita desde a Segunda Guerra Mundial.
A AfD, que lidera as pesquisas nacionais com 29% das intenções de voto, tem atraído apoio com promessas de endurecer as deportações de estrangeiros sem direito de permanecer na Alemanha, se reaproximar da Rússia e voltar a comprar energia do país, além de promover valores mais conservadores, em torno do modelo tradicional de família.
Outros grandes partidos, porém, continuam evitando alianças com a AfD dentro da estratégia conhecida como "cordão sanitário" contra a ultradireita, o que torna improvável que a legenda participe do governo em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental ou em Berlim, onde ficou em terceiro lugar.
4. Dificuldades para formar coalizões
Com o avanço da AfD e a distribuição dos votos em mais partidos, fica mais difícil a formação de maioria estáveis numa coalizão. Os resultados indicam que um futuro governo em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental precisará de três partidos.
Essa fragmentação exigirá maior disposição para compromissos num país de uma longa tradição de coalizões de dois partidos. A coalizão tripartite entre SPD, Partido Verde e FDP, formada em 2021 e então inédita em nível federal, se desfez em menos de três anos.
A estratégia do cordão sanitário manteve a AfD afastada do poder até agora, mas a crescente atratividade do partido para o eleitorado levanta dúvidas sobre a viabilidade dessa abordagem.
5. Economia no centro do debate
A fragilidade da economia alemã se tornou um fator decisivo nas urnas, com eleitores de diferentes correntes políticas frustrados com o alto custo de vida e a incerteza econômica.
As campanhas nos dois estados ocorreram em meio à disparada dos preços dos combustíveis associada ao conflito no Oriente Médio e a dezenas de milhares de demissões na indústria alemã. Anos de estagnação econômica levaram parte do eleitorado a buscar alternativas fora do centro político.
Em Berlim, a crise habitacional foi o tema dominante na campanha eleitoral. A Esquerda prometeu construir habitações acessíveis, reduzir compulsoriamente os aluguéis de imóveis que estejam 20% ou mais acima da média local e limitar os aluguéis de curta duração para turistas. O partido também prometeu colocar em prática a expropriação das grandes empresas imobiliárias. Há cinco anos, os berlinenses apoiaram essa medida num referendo não vinculativo.
Já a AfD conquistou apoio ao propor a reativação do gasoduto Nord Stream, vindo da Rússia e com terminal em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Segundo a sigla, a retomada do fornecimento de gás russo reduziria os custos de energia.
6. Sigla de esquerda "antiwoke" não consegue avanço
O BSW, partido nanico e populista de esquerda de viés socialmente conservador, não conseguiu ultrapassar a cláusula de barreira e eleger deputados em Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Na capital alemã, esse resultado já era esperado, mas não no outro estado.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a legenda registrava índices de dois dígitos há um ou dois anos nas pesquisas de intenção de voto. O partido visava se estabelecer de forma abrangente no Leste alemão e, assim, garantir mais atenção.
Os resultados eleitorais são significativamente piores do que indicavam as pesquisas. Segundo o instituto Infratest Dimap, 69% dos eleitores aptos a votar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental afirmam que o partido está "ocupado demais com disputas internas". A proximidade com a AfD, porém, não prejudicou tanto o partido: 46% dos eleitores dizem considerar "positivo que o BSW esteja disposto a colaborar com a AfD".
Após a eleição na Saxônia-Anhalt, o BSW se mostrou aberta a fornecer votos decisivos para que os ultradireitistas alemães da AfD consigam chegar ao seu primeiro governo estadual, na Saxônia-Anhalt.
Nas semanas que antecederam as eleições, a fundadora da sigla, Sahra Wagenknecht, que no passado foi filiada ao antigo partido comunista da Alemanha Oriental, anunciou que o BSW estaria disposto a abrir caminho para que um político da AfD garanta o posto de governador. A colaboração não seria feita por meio de uma aliança formal, mas por meio da abstenção de seus deputados numa eventual votação decisiva no Parlamento estadual.
( da redação ARD, DW. Edição: Política Real)