Gabriel Galípolo, no evento Expert XP 2026, diz que “o que juros elevados favoreceriam de forma generalizada o mercado financeiro não se sustenta do ponto de vista empírico nem lógico”
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Com agência.
(Brasília-DF, 24/07/2026). O presidente do Banco Central, Gabriel Galípiolo, participou do segundo dia do segundo dia do Expert XP 2026
Em conversa com Caio Megale, economista-chefe da XP, Galípolo dedicou a abertura do painel a explicar os instrumentos de sondagem que subsidiam as decisões de política monetária, com o objetivo declarado de dar transparência ao processo e responder à percepção de que a autoridade monetária escutaria apenas o mercado financeiro.
Ele apresentou a Firmus, pesquisa iniciada no quarto trimestre de 2023 que capta as expectativas do setor empresarial não financeiro, e a Focus, levantamento junto a agentes de mercado que existe desde 1999 e hoje reúne 165 instituições, entre bancos, gestoras e outras entidades, incluindo academia, consultorias e corretoras.
Segundo Galípolo, os resultados não confirmam a hipótese de que respondentes do mercado apresentariam expectativas mais altas para influenciar a política monetária, uma vez que as projeções da Firmus têm vindo, na maior parte das medições, iguais ou superiores às da Focus, com divergências dentro de cada grupo frequentemente maiores do que as observadas entre as duas pesquisas.
Por que juros mais altos não beneficiam todos os agentes
Na avaliação do presidente do Banco Central, a ideia de que juros elevados favoreceriam de forma generalizada o mercado financeiro não se sustenta do ponto de vista empírico nem lógico. Galípolo lembrou que a taxa de juros funciona como taxa de desconto na precificação dos ativos, de modo que sua elevação reduz o valor presente tanto de ações quanto de títulos de dívida.
Ele acrescentou que, mesmo no caso dos bancos, a sensibilidade do passivo a variações da Selic tende a ser maior do que a do ativo, já que instrumentos de captação como CDBs e letras financeiras costumam ser atrelados a um percentual da taxa básica, enquanto as operações de crédito refletem o risco específico de cada empréstimo. A observação serviu para relativizar a leitura de que haveria um bloco homogêneo de interesses por trás das expectativas coletadas.
Inteligência artificial, petróleo e o cenário internacional
Ao comentar o ambiente externo, Galípolo identificou a inteligência artificial como o vetor mais estrutural em discussão. Ele descreveu o debate entre as interpretações de que a tecnologia seria inflacionária, por pressionar investimento, custos operacionais e demanda por energia, e as que enxergam efeito mais benigno por meio de ganhos de produtividade, associados a um mercado de trabalho descrito como de baixa contratação e baixa demissão nas economias avançadas.
Para os países emergentes, apontou uma combinação favorável entre uma curva de juros americana relativamente comportada e um dólar mais fraco, embora tenha ressaltado, na condição de autoridade monetária atenta a riscos, que uma eventual frustração com as expectativas em torno da IA poderia repercutir no mercado de dívida. Sobre o El Niño, ponderou que a série histórica traz resultados díspares, e, quanto ao petróleo, avaliou que o Brasil se posiciona de forma relativamente confortável pelos termos de troca, por ser exportador líquido de energia e contar com carrego positivo decorrente do diferencial de juros.
Expectativas de inflação e a defesa dos juros restritivos
Perguntado sobre a reação da política monetária diante dos choques de oferta, Galípolo afirmou que a atenção central recai sobre os chamados efeitos de segunda ordem, cuja probabilidade tende a aumentar em um cenário de mercado de trabalho aquecido e atividade resiliente. Ele observou que a taxa de juros efetiva tem se mostrado superior às projeções anteriores do mercado e que, mesmo após a revisão da Selic para patamar mais contracionista, as expectativas seguiram se distanciando da meta, o que, em sua leitura, recomenda a manutenção dos juros em nível restritivo por período mais prolongado. Além disso, defendeu a postura de acompanhar os dados com parcimônia, em vez de reagir a informações pontuais, e explicou que a decisão entre pausar e retomar o ciclo de calibração depende da análise de diferentes trajetórias possíveis para o cumprimento da meta, conduzida, segundo ele, com serenidade e humildade diante das limitações de qualquer projeção econômica.
Crédito, inadimplência e a herança da alta inflação
Sobre a dinâmica do crédito, Galípolo situou o tema no âmbito do mandato de estabilidade financeira e concentrou o diagnóstico no endividamento das famílias, sobretudo nas modalidades sem garantia, como o rotativo e o cartão de crédito. Ele explicou que a expansão do uso do cartão após a pandemia é um movimento de alcance global, mas que no Brasil foi potencializado pela inclusão financeira de milhões de pessoas até então sem conta bancária e pela competição entre novos entrantes do mercado. Trata-se, em sua avaliação, de uma dívida pouco sensível à política monetária, ligada a características estruturais herdadas do período de alta inflação, o que justificaria um esforço de modernização conduzido de maneira gradual, sem prejuízo à estabilidade financeira.
No caso das empresas, apontou as dificuldades de pequenas e médias companhias associadas à estrutura de garantias, o alívio proporcionado pelo crescimento do mercado de capitais para o balanço dos bancos e as decisões individuais de gestão de risco entre as empresas de maior porte, reforçando que a transmissão da política monetária segue operando na contenção da demanda.
( da redação com XP Investimentos. Edição: Política Real)