Adeus Fifa, vem aí a Copa Brics
Ocidente pune a Rússia, abraça Israel e enterra a FIFA. Enquanto isso, o Sul Global já se prepara para a Copa Brics.
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A Copa do Mundo de 2026, que se vende como a mais inclusiva da história, pode muito bem ser lembrada como o canto do cisne de uma instituição que já não corresponde (há tempos) ao mundo que pretende organizar. Entre escândalos de corrupção, subserviência a potências ocidentais e uma chocante seletividade moral, a Fifa cavou sua própria sepultura.
E do outro lado, silenciosamente, o Sul Global já constrói os alicerces do que virá a substituí-la. O fim da hipocrisia está próximo e o que vemos é como a geopolítica enterrará a Fifa e dará vida à Copa Brics. A hipocrisia das instituições esportivas ocidentais nunca foi tão escancarada.
Em 2022, a Federação Internacional de Futebol Associados (Fifa) e a União Europeia de Futebol Associados (Uefa) levaram apenas quatro dias para banir a Rússia de todas as competições internacionais após a invasão da Ucrânia. A justificativa foi a violação da trégua olímpica e dos princípios humanitários do esporte. Mas quando a Palestina apresentou à Fifa e ao Comitê Olímpico Internacional (COI), em maio de 2024, um pedido formal para suspender Israel — respaldado por uma análise jurídica independente que apontava violações sistemáticas dos estatutos das duas entidades — o que se viu foi um exercício magistral de protelação.
A Fifa e o COI criaram comitês, instaurou investigações, e depois de quase dois anos, aplicou uma multa simbólica de 15 mil francos suíços (R$ 95.500,00) e uma advertência. Enquanto isso, mais de 280 instalações esportivas foram destruídas em Gaza, mais de 800 atletas palestinos foram mortos — incluindo cerca de 370 jogadores de futebol — e o Estádio Yarmouk, o maior da Faixa de Gaza, foi transformado em centro de detenção e tortura. A Fifa e o COI que dizem investigar, nada fazem.
O especialista em geopolítica do esporte Simon Chadwick resumiu o absurdo: “Observadores notaram como a Rússia foi banida das competições da Fifa após sua invasão da Ucrânia, embora nenhuma discussão pareça ter ocorrido sobre uma ação similar contra os EUA”. A pergunta que ecoa do Sul Global é simples: por que o direito internacional e os princípios humanitários se aplicam a uns e não a outros?
A verdade incômoda é que a Fifa nunca foi neutra. Fundada por potências europeias em 1904, sua história é uma sucessão de conivência com os interesses do Ocidente. Em 1978, João Havelange declarou que a Argentina “estava mais preparada do que nunca” para sediar a Copa — dois anos após um golpe apoiado pelos Estados Unidos (EUA) que deu início a uma sangrenta e cruenta ditadura que assassinou mais de 30 mil pessoas. A Fifa não apenas ignorou: promoveu o organizador do torneio, o vice-almirante Carlos Lacoste, vice-presidente da entidade.
Hoje, o padrão se repete com Gianni Infantino, que criou um “Prêmio Fifa da Paz” para consolar Donald Trump após este não receber o Prêmio Nobel, e que atendeu a um telefonema do presidente norte-americano para reverter a suspensão de um jogador dos EUA — uma interferência política direta que provocou reação da federação belga e até da Uefa, que se disseram “perplexos”.
O mesmo Infantino que se recusa a suspender Israel defende o fim do banimento à Rússia, argumentando que “nunca deveríamos proibir um país por causa das ações de seus líderes políticos”. Uma declaração que contradiz frontalmente a própria decisão que ele endossou em 2022. A lógica é tão transparente quanto vergonhosa: sanções só se aplicam quando o alvo não tem o poder de retaliar.
É nesse terreno de desilusão que o Sul Global começa a cultivar suas próprias instituições. Os Jogos Brics já são uma realidade: realizados pela primeira vez em 2017 na China, tiveram sua edição de 2024 em Kazan, na Rússia, com 27 modalidades esportivas. O plano é estabelecer um mecanismo de rodízio anual, com eventos previstos para 2025 na África do Sul e introduzir a prática das disputas de jogos eletrônicos e 2026 na Rússia, uma modalidade de inverno.
Mais ambicioso ainda: discute-se a criação da “Liga Internacional de Futebol Brics” (BIFA, na sigla em inglês), que poderia se tornar o embrião de uma verdadeira Copa Brics — um torneio que reuniria não apenas os membros do bloco, mas também países parceiros, representando mais da metade da população mundial.
A lógica é irresistível. Enquanto a Fifa se curva a Trump e ao Departamento de Justiça dos EUA — que, não por acaso, foram os responsáveis pela operação que derrubou Joseph Blatter e colocou Infantino no poder — os países do Brics estão construindo uma arquitetura esportiva paralela. Não por acaso, discute-se a criação de um centro de arbitragem esportiva em Joanesburgo para romper o monopólio do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) na Suíça.
As instituições carcomidas e corruptas têm seus dias contados. A Fifa, que já foi um símbolo de união global, tornou-se um espelho das desigualdades e hipocrisias do sistema internacional que a abriga. O COI, que baniu a Rússia mas recebe Israel de braços abertos, segue a mesma trilha de descrédito.
A Copa do Mundo de 2026, disputada em solo norte-americano sob a batuta de um governo abertamente hostil a países do Sul Global — que nega vistos a árbitros, humilha delegações e bombardeia nações que estão competindo no torneio — pode ser o último grande espetáculo de uma era que termina.
O joio já nasceu. A Copa Brics e os Jogos Brics não são mais uma possibilidade distante: são uma necessidade histórica. Representarão não apenas uma alternativa esportiva, mas uma afirmação política: a de que o mundo não se curva mais aos caprichos de um Ocidente que prega regras universais mas as aplica seletivamente.
Quando os estádios do futuro receberem as delegações do Sul Global em competições organizadas por instituições nascidas da multipolaridade, a Fifa e o COI serão lembrados como relíquias de um tempo em que o esporte servia aos impérios — e não aos povos. A geopolítica está redesenhando o mapa do esporte mundial. E, desta vez, o Sul Global não será mero espectador. Será o organizador, o anfitrião e, finalmente, o protagonista.