31 de julho de 2025
MERCOSUL

Lula diz que o Mundo e nem a América do Sul tem dono e que os países do Mercosul não ganharam com alinhamento automático com ninguém

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Por Politica Real com agências
Publicado em
Lula diz que o mundo não tem dono Foto: Ricardo Stuckert

(Brasília-DF, 30/06/2026). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou nesta terça-feira, 30, da Cúpula do Mercosul, num momento em que a América do Sul e os partidos do Mercosul, assim como seus possíveis futuros sócios estão alinhados, com a s eleições no Chile, Peru e Colômbia com governos mais conservadores, afirmou em sua fala que ninguém é dono do Mundo e nem da América do Sul.

 

“Caros amigos e caras amigas,  Ninguém é dono do mundo.

E ninguém é dono da América do Sul.  Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes.

Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses.

Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação.”, disse.

 

Veja a íntegra do discurso de Lula na Cúpula do Mercosul:

 

Eu quero começar a minha fala dedicando a minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causadas pelos terremotos da semana passada. Ontem à noite, eu falei com a presidenta Delcy [Rodríguez, presidenta encarregada da Venezuela].

 

Ontem à noite, tinha 1.400 pessoas mortas, 60.000 desabrigados, 10.000 desaparecidos, 3.150 feridos. Esses foram dados de ontem à noite. Eu acho que, neste momento em que o Mercosul está reunido, eu queria pedir um minuto de silêncio para todas as vítimas da Venezuela.

 

Muito obrigado, amigos. Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais. Esse mesmo espírito de fraternidade e visão de futuro compartilhado tem orientado o Mercosul ao longo da sua trajetória.

 

Há 35 anos, aqui na querida cidade de Assunção, demos um passo histórico ao fundar nossa União Aduaneira.

 

Hoje, nos confrontamos com uma região e um mundo profundamente transformados.

 

As rivalidades geopolíticas crescem e o unilateralismo ganha força.

 

Guerras e conflitos aprofundam a instabilidade global e elevam os preços dos alimentos e da energia.

 

O protecionismo ressurge como resposta falaciosa à complexidade dos desequilíbrios macroeconômicos globais.

 

A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável.

 

Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica.

 

Desde sua criação, o comércio entre nós passou de 4,5 bilhões de dólares – como apareceu no documentário –, em 1991, para mais de 50 bilhões em 2025.

 

No ano passado, nosso intercâmbio com o resto do mundo cresceu mais de 6% em relação a 2024, e alcançou quase 760 bilhões de dólares, e exportações superiores a 400 bilhões.

 

Voltamos a olhar para o mundo com ambição.

 

Contrariamos as expectativas de quem acreditava que o Acordo com a União Europeia jamais sairia do papel.

 

O Brasil também já ratificou o acordo com a EFTA e com Singapura.

 

O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã.

 

Nesta Cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma Parceria Econômica com o Japão.

 

Em breve, queremos fazer o mesmo com a China, e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta.

 

No entanto, não basta estar integrado às grandes cadeias de valores mundiais.

 

O Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas.

 

Desde sua criação, o FOCEM já financiou:

 

    • mais de mil quilômetros de rodovias;

 

    • 680 km de ferrovias;

 

    • 750 km de linhas de transmissão elétrica;

 

    • 100 km de redes de saneamento básico.

 

Estamos prontos para lançar o FOCEM-II e aumentar a contribuição brasileira, com aporte de 100 milhões de dólares anuais ao longo de uma década.

 

Incorporar a Bolívia ao Fundo será um passo adicional para reduzir as assimetrias intrabloco.

 

O Brasil seguirá avançando na implementação do programa Rotas da Integração Sul-Americana para conectar o interior de nosso continente a portos no Pacífico, no Atlântico e no Caribe.

 

A Hidrovia Paraguai–Paraná constitui outro pilar de nossa integração, transportando anualmente quase 100 mil toneladas de cargas.

 

O fortalecimento de sua governança, alicerçada na liberdade de negociação, na cooperação e no diálogo entre os países da Bacia do Prata, permitirá explorar plenamente seu potencial logístico.

 

Não podemos subestimar o valor dessas conquistas.

 

Nem sempre avançamos na velocidade que desejamos.

 

Mas o Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada.

 

O projeto de integração sul-americano deve estar acima de qualquer divergência ideológica.

 

A melhor opção é fortalecer nossos mecanismos de diálogo e cooperação e ampliar nossa capacidade de atuação conjunta.

 

A crise climática, a transição energética, a transformação digital, o enfrentamento ao crime organizado transnacional e a promoção da saúde exigem uma capacidade de coordenação regional sem precedentes.

 

Defender biomas como a Amazônia, o Chaco e a Patagônia é proteger nossa soberania, nosso desenvolvimento sustentável e, acima de tudo, defender a vida.

 

A Organização Meteorológica Mundial já alerta sobre a necessidade de preparação para um El Niño que agravará secas, provocará chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor.

 

Nossos países sofreram as consequências nefastas desse fenômeno em 2023.

 

As enchentes no Sul do Brasil afetaram mais de 2,4 milhões de pessoas e causaram mais de 200 mortes.

 

Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes demandam maior coordenação regional em matéria de sistemas de alerta precoce e de gestão de desastres.

 

O Mercosul pode ser o embrião de um mecanismo sul-americano de enfrentamento a desastres naturais e de financiamento a medidas de adaptação climática.

 

Faço essa sugestão ao Uruguai, que assumirá a presidência do Mercosul a partir de hoje.

 

Nosso bloco está na vanguarda da transição energética global.

 

Somos detentores de uma matriz elétrica limpa, e a geração eólica e solar cresce exponencialmente.

 

Com até três safras por ano, produzimos biocombustíveis sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas.

 

Reunimos condições únicas para o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação e de hidrogênio verde.

 

Avançar na integração elétrica e gasífera é essencial para garantir complementaridade entre diferentes fontes e aprimorar nossa resiliência energética.

 

Possuímos reservas abundantes de minerais críticos, ativos indispensáveis para a descarbonização e a revolução digital.

 

Desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania.

 

Ainda não dispomos de mapeamento comum do nosso potencial e de diagnóstico sobre projetos estratégicos que podem ser desenvolvidos conjuntamente.

 

O Mapa do Caminho para o Plano de Minerais Críticos do Mercosul, apresentado pelo Paraguai, é um ponto de partida para reforçar a autonomia estratégica de nossos países.

 

Agir como bloco nos fortalece frente à ameaça do colonialismo digital.

 

Podemos ser mais do que fontes de dados e matéria-prima, e mercados consumidores para as grandes empresas de tecnologia.

 

A inteligência artificial traz soluções em áreas críticas como educação, saúde e agricultura.

 

Experiências nacionais bem-sucedidas devem ser compartilhadas entre os países do bloco.

 

O Pix, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital. Sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficie todos os cidadãos do Mercosul. A integração financeira reduzirá custos, fortalecerá o comércio intrabloco, ampliará o uso de moedas locais e aumentará nossa resiliência frente a choques externos.

 

Queridos amigos e amigas,

 

Há 35 anos, o Mercosul também foi resposta ao passado autoritário do Cone Sul.

 

O Protocolo de Ushuaia consolidou os valores democráticos do bloco.

 

A democracia voltou a ser ameaçada no mundo todo.

 

Em nossa região, não é diferente.

 

No Brasil, os extremistas pensaram até em planejar um golpe de estado.

 

Redes de desinformação continuam desvirtuando o debate público e tentando enfraquecer a confiança nas instituições.

 

Apesar das tentativas de semear dúvidas sobre a integridade dos processos eleitorais na América do Sul, o respeito à vontade popular e a confiança nas regras democráticas têm prevalecido.

 

Na Bolívia, o diálogo entre governo e movimentos sociais é o único caminho para a superação de divergências e para a preservação da paz social.

 

Por isso, eu quero parabenizar o presidente Rodrigo Paz [presidente da Bolívia] pelo encaminhamento da crise política da Bolívia.

 

As eleições do Peru e na Colômbia também demonstraram a resiliência institucional em nossa região.

 

Em outubro, o Brasil reafirmará a força da sua democracia.

 

O Instituto Social do Mercosul e o Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos são esteios da defesa dos valores democráticos e da proteção dos setores mais vulneráveis.

 

É preciso fortalecer as instâncias regionais dedicadas aos povos indígenas, aos afrodescendentes, às crianças, aos idosos, às pessoas com deficiência e à comunidade LGBTQIA+.

 

O Pacto Regional pelo Fim da Violência contra Mulheres proposto pelo Brasil merece ser considerado com muita urgência.

 

 

 

Não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado.

 

Esse é um dos maiores desafios da nossa região.

 

O crime organizado controla territórios, intimida comunidades, destrói o meio ambiente, alimenta a corrupção, desvia recursos públicos e expande sua atuação para o mundo digital.

 

Nossa cooperação policial, judicial e financeira precisa atuar na mesma escala.

 

Na última Cúpula, em Foz do Iguaçu, demos um passo importante com a aprovação da Estratégia e a Comissão Mercosul de Combate ao Crime Organizado.

 

No Brasil, priorizamos o fortalecimento da inteligência e da cooperação internacional para asfixiar os escalões mais altos das redes criminosas e combater o tráfico de drogas e de armas.

 

Criamos o Centro de Cooperação Policial Internacional em Manaus, com a presença de policiais de todos os países amazônicos.

 

Em parceria com a Interpol, estamos implementando nova iniciativa para o enfrentamento do crime organizado na América do Sul, cuja sede será o Escritório Regional da Interpol, em Buenos Aires.

 

O Brasil vai custear a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina, por um ano, para ampliar a coordenação no combate ao tráfico internacional de drogas e crime organizado.

 

Caros amigos e caras amigas,

 

Ninguém é dono do mundo.

 

E ninguém é dono da América do Sul.

 

Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes.

 

Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses.

 

Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação.

 

Por isso, eu quero cumprimentar o companheiro Santiago Peña pela condução da presidência paraguaia e quero desejar ao companheiro Yamandú Orsi uma gestão uruguaia exitosa no próximo semestre.

 

Por isso, eu quero cumprimentar o companheiro Santiago Peña [presidente do Paraguai] pela condução da presidência paraguaia e quero desejar ao companheiro Yamandú Orsi [presidente do Uruguai] toda a sorte do mundo no desempenho da sua presidência. E quero que vocês saibam que podem sempre contar com o Brasil.

 

Amigos e amigas, feito o meu discurso por escrito, de praxe, eu queria dizer umas palavras a mais com vocês.

 

Este ano nós teremos eleições no Brasil. Vai ser a quarta eleição presidencial que eu participo. Se ganhar, serei o único presidente da história do Brasil a governar em um regime democrático quatro vezes. Porque o Getúlio [Vargas, ex-presidente do Brasil] governou 15 anos, mas num momento de ditadura.

 

E faço isso, hoje, por uma única razão. Primeiro porque eu peguei o país destroçado em 2002 e reconstruímos um país que, em 2010, quando entreguei a presidência, a nossa economia crescia a 7,5%.

 

A massa salarial dos trabalhadores era a maior da história. E nós vivemos um momento muito importante e nós elegemos a Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil].

 

Eu fiquei 15 anos fora. Nós tínhamos, em 2014, acabado com a fome no Brasil. 54 milhões de pessoas que passavam fome em 2003, nós terminamos com a fome em 2014. Quando eu voltei em 2023, nós tínhamos outra vez 33 milhões de pessoas passando fome.

 

Em dois anos e meio, nós acabamos com a fome outra vez no Brasil. O Brasil hoje vive a menor inflação acumulada em quatro anos da sua história. O Brasil vive a melhor massa salarial da sua história. O Brasil vive com o menor desemprego da sua história. E o Brasil só cresceu acima de 3% quando eu voltei para a presidência da República, porque desde 2011 o Brasil não conseguia crescer.

 

Por essas razões, e pela maior política de inclusão social já feita na história do Brasil, eu, aos 80 anos, com vitalidade de um jovem de 20, vou concorrer pela quarta vez à Presidência da República do meu país.

 

E vou concorrer às eleições para poder garantir que o Brasil mantenha-se como um país democrático, porque não é possível a gente imaginar irresponsáveis governando um país de 215 milhões de habitantes.

 

Uma população que há muitas décadas sonha em ser um país desenvolvido e que nunca consegue ser, porque nunca deixam ser. Eu, quando voltei em 2023, eu peguei um país com 87 mil residências começadas pelo governo Dilma paralisadas, seis mil obras, escolas e creches, paralisadas.

 

Eu encontrei um país sem Ministério do Trabalho, sem Ministério da Mulher, sem Ministério do Direitos Humanos, sem Ministério da Igualdade Racial, sem Ministério dos Povos Indígenas. Ou seja, um país em que o Ibama, que é o Instituto do Meio Ambiente, tinha 800 funcionários a menos em 2023 do que eu deixei em 2010. Era um país de terra arrasada.

 

O país está recuperado. Vive o seu melhor momento econômico. Vive o seu melhor momento de crescimento nesse período em que o mundo está vivendo em crise. Por essas razões, eu vou concorrer às eleições mais uma vez.

 

E quero dizer para vocês que vocês precisam imaginar que um dos grandes problemas nossos é que nós não temos instituições sólidas. O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente. Senão a gente nunca vai ter um bloco realmente forte funcionando. A depender da vontade do presidente do Mercosul funciona, a depender não funciona. A gente nunca vai conseguir se transformar num bloco econômico de muita vitalidade para ter influência no mundo.

 

Eu estou dizendo isso porque, de todos vocês aqui, eu sou a pessoa que mais exerci a presidência de um país. E eu sei o que é você subir 12 degraus numa escada e depois de um ano você descer esses 12 degraus outra vez. Depois você sobe mais 12 degraus, depois você volta mais 12 degraus.

 

É como se fosse uma coisa que não tivesse fim. Você nunca consegue chegar àquilo que é o sonho das pessoas. Então eu queria dizer para vocês uma coisa: acreditem, independentemente de quem seja eleito no Brasil, o Mercosul continuará sendo prioridade para o Brasil.

 

E é por isso que eu queria pedir ao companheiro Yamandú, nosso querido presidente do Uruguai: que a gente faça o esforço nestes seis meses para a gente consolidar a instituição de apoio ao Mercosul para que ele funcione perfeitamente bem, independentemente do presidente a ser eleito em qualquer país do nosso bloco.

 

O Mercosul é muito importante para nós. É muito importante. Quando a gente tem dúvida, a gente olha o que era a gente antes do Mercosul. E olha agora.

 

Agora é ruim, mas pelo menos agora a gente pode fazer uma reunião dessas e ouvir cada um dizer aquilo que quer dizer. E ao invés de ficar ofendido, trabalhar para saber se quem está reclamando está certo ou não e tentar encontrar uma solução. É assim que a gente cria um bloco econômico, um bloco político, um bloco cultural.

 

Eu quero te dizer uma coisa, Santiago Peña: se tem um ser humano, neste continente, feliz pelo crescimento do Paraguai, você pode ter certeza que eu sou um deles. Porque acho que dei minha contribuição para que o Paraguai desse um salto de qualidade e não fosse submisso às economias maiores.

 

A mesma coisa com os meus amigos do Uruguai. Um país a gente não mede pela quantidade de habitantes ou pelo tamanho do mapa. Um país a gente mede pela qualidade histórica de seu povo. E vocês merecem ser respeitados. Por isso, o Mercosul precisa crescer.

 

Muito obrigado.

 

 

( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)