Brasil vira a mesa: enquanto EUA tentam interferir, país aprofunda laços com a China e acelera fim da ordem unipolar
Em meio a tarifas e tentativa de ingerência norte-americana, governo brasileiro busca na Ásia alternativa para financiar transição ecológica e diversificar parcerias estratégicas.
Por Humberto Azevedo
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O governo brasileiro intensificou nesta semana uma virada histórica em sua política externa e econômica, respondendo às investidas dos Estados Unidos com um movimento ousado: o aprofundamento acelerado da parceria estratégica com a China. Em uma ofensiva diplomática que incluiu a emissão de títulos em yuan, a abertura de uma adidância tributária em Pequim e a integração de dados da B3 ao maior terminal financeiro chinês, o Brasil sinaliza que não se curvará à pressão externa e busca ativamente construir alternativas à ordem mundial hegemonizada pelo Ocidente.
A movimentação ocorre em um contexto de tensão crescente com o governo norte-americano, que recentemente impôs tarifas contra produtos brasileiros em um movimento interpretado por fontes do Itamaraty como "tentativa de interferência externa na justiça brasileira". Em publicação nas redes sociais, o perfil oficial do Ministério das Relações Exteriores afirmou: "Os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história. O Brasil sabe que o tarifaço [imposto pelo governo dos EUA] tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira".
Enquanto o governo Trump tenta isolar o Brasil no cenário internacional, a administração Lula aposta em uma estratégia que pode remodelar profundamente as alianças globais do país, posicionando-o como ator central no emergente mundo multipolar.
OFENSIVA BRASILEIRA NA ÁSIA
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, liderou uma missão oficial à China que resultou em anúncios de peso. O primeiro e mais simbólico foi o protocolo da Carta de Apresentação da República para a emissão de títulos soberanos brasileiros em yuan — os chamados Panda Bonds. "Não há países melhores do que o Brasil e a China para mostrar que podem coliderar a economia mundial trabalhando juntos, construindo vidas melhores para os seus cidadãos. Portanto, é por isso que estou aqui hoje anunciando que estamos prontos para emitir os Panda Bonds – e pretendemos fazer isso nos próximos meses", declarou Durigan em Xangai.
A operação representa mais do que uma simples diversificação de fontes de financiamento. Ela simboliza um movimento deliberado de redução da dependência do dólar e de integração ao sistema financeiro chinês, em um momento em que as relações com os Estados Unidos atingem seu ponto mais baixo em décadas.
DADOS DA B3 NA CHINA: PONTE PARA INVESTIMENTOS
Em Xangai, Durigan participou do lançamento de uma parceria inédita entre a B3 e a Wind Information, que disponibilizará dados do mercado de capitais brasileiro no principal terminal financeiro da China. "O Brasil tem se consolidado como um porto seguro e dinâmico para o capital estrangeiro. Ao integrarmos os dados da B3 à principal plataforma financeira da China, estamos construindo uma ponte de transparência que reduz distâncias e dá aos investidores asiáticos as ferramentas necessárias para participarem ativamente do nosso crescimento", afirmou o ministro.
A iniciativa permitirá que investidores institucionais chineses tenham acesso em tempo real a cotações, índices e séries históricas do mercado brasileiro, reduzindo a assimetria de informação e facilitando a alocação de capital asiático no Brasil.
ADIDÂNCIA TRIBUTÁRIA EM PEQUIM
O governo brasileiro inaugurou ainda a Adidância Tributária e Aduaneira do Brasil em Pequim, o quinto posto do gênero no mundo e o primeiro na Ásia. A medida consolida tratativas iniciadas em 2023 e visa desburocratizar o comércio bilateral, que já ultrapassa R$ 750,50 bilhões anuais.
"A China é nosso maior parceiro comercial. A implementação desta Adidância representa um salto de qualidade. Cooperar em matéria tributária e aduaneira significa construir um ambiente econômico seguro, dinâmico e livre de burocracias desnecessárias", declarou Durigan durante a cerimônia de inauguração.
O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, complementou: "A presença de uma adidância especializada facilitará o entendimento das complexas legislações tributárias e aduaneiras de ambos os países, reduzindo barreiras burocráticas e promovendo o comércio bilateral".
O CONTEXTO GEOPOLÍTICO: FIM DA ORDEM UNIPOLAR
As movimentações do Brasil não ocorrem no vácuo. Elas se inserem em uma transformação mais ampla da ordem internacional, acelerada pelo conflito na Ucrânia e pela crescente articulação entre os países do Sul Global. O acordo histórico assinado entre China e Rússia em janeiro de 2022, um mês antes do início do conflito, estabeleceu as bases para o que muitos analistas chamam de "nova ordem multipolar".
O BRICS, agora com 11 membros plenos e diversos parceiros, emerge como plataforma central para a construção dessa nova arquitetura global. A China, com seu peso econômico preponderante, tem sido a força motriz por trás da expansão do bloco e das iniciativas de desdolarização.
A recente visita do primeiro-ministro de Bangladesh, Tarique Rahman, a Pequim e o comunicado conjunto de 15 pontos que elevou as relações bilaterais ao nível de "comunidade com futuro compartilhado" reforçam essa tendência. O apoio chinês à entrada de Bangladesh no BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai (OCX) amplia o peso do bloco em questões de governança global, oferecendo a nações do Sul Global alternativas de financiamento e tecnologia fora dos circuitos tradicionais dominados por instituições ocidentais.
BRASIL: ENTRE DOIS MUNDOS
O governo brasileiro, sob liderança do presidente Lula, tem conseguido navegar com habilidade entre as pressões de Washington e as oportunidades oferecidas por Pequim. A postura firme do Itamaraty em relação às tentativas de interferência norte-americana contrasta com a abertura pragmática à China, evidenciando uma estratégia clara: o Brasil não será refém das disputas entre as grandes potências, mas atuará ativamente na construção de um mundo mais equilibrado.
"Os investimentos fluem para onde há previsibilidade e informação clara", afirmou Durigan — uma declaração que pode ser lida tanto como um convite aos investidores asiáticos quanto como uma indireta à instabilidade gerada pelas políticas protecionistas e intervencionistas do governo Trump.
UMA NOVA ERA PARA O SUL GLOBAL
A ofensiva brasileira na China representa mais do que uma reação tática à pressão norte-americana. Ela sinaliza uma mudança estrutural na inserção internacional do Brasil, que busca consolidar-se como ponte entre o Ocidente e o Oriente, entre as economias desenvolvidas e o Sul Global.
O aprofundamento da cooperação em finanças sustentáveis, a emissão de títulos em yuan, a integração dos mercados de capitais e a criação de canais permanentes de diálogo tributário e aduaneiro são os primeiros tijolos de uma nova arquitetura de relações internacionais, na qual o Brasil pretende desempenhar papel de protagonista.
"Não há países melhores do que o Brasil e a China para mostrar que podem coliderar a economia mundial trabalhando juntos, construindo vidas melhores para os seus cidadãos", pontuou Dario Durigan, ministro da Fazenda do Brasil, em Xangai.
Enquanto isso, Washington insiste em tarifas e tentativas de interferência, com Pequim oferecendo parcerias, investimentos e um lugar à mesa da governança global do futuro. O Brasil, ao que tudo indica, já fez sua escolha — e ela aponta para o Pacífico.