ALERTA DO APOCALIPSE CLIMÁTICO: O DILEMA QUE NINGUÉM QUER ENFRENTAR
Cientista norte-americano afirma que reduzir a queima de combustíveis fósseis pode acelerar a extinção humana, enquanto mantê-la também leva ao colapso — e o “Super El Niño” pode ser o gatilho final.
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“O planeta nunca esteve tão quente desde o surgimento das civilizações. Estamos mais de 2°C [graus célsius] acima da linha de base de 1750”, e um Super El Niño se aproxima. Mas a solução aparentemente óbvia — parar de queimar combustíveis fósseis — pode, segundo o cientista renomado norte-americano Guy McPherson, nos levar à extinção ainda mais rápido. É o dilema existencial que a humanidade não quer enfrentar e resolver.
Em entrevista exclusiva ao ex-banqueiro e diretor do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), o professor emérito da Universidade do Arizona alerta que a taxa atual de mudança ambiental é dez mil vezes superior à capacidade de adaptação dos vertebrados. E o chamado “efeito de mascaramento dos aerossóis” transforma qualquer redução abrupta da atividade industrial em um salto térmico catastrófico em apenas cinco dias.
“O caminho mais rápido para a extinção humana e, portanto, para a extinção de toda a vida na Terra é reduzir a quantidade de combustíveis fósseis e explosões. Ninguém nunca ouviu isso, ninguém nunca fala sobre isso. (...) Se todo mundo reduzisse combustíveis fósseis, isso não ajudaria. E por mais que eu queira enxergar o contrário — e é por isso que fiquei isolado para poder viver livre de combustíveis fósseis, tendo aprendido sobre o efeito de mascaramento dos aerossóis, não posso recomendar isso para outras pessoas”, disse Guy McPherson.
O DILEMA
O paradoxo é brutal: os aerossóis liberados pela queima de combustíveis fósseis refletem a luz solar de volta ao espaço, criando um efeito de resfriamento artificial. Se pararmos de emiti-los, essas partículas desaparecem da atmosfera em cerca de cinco dias, e o planeta sofre um aquecimento abrupto de até 183% sobre a terra. É o chamado “ponto de virada” que James Hansen, um dos mais respeitados climatologistas do mundo, considera o segredo mais bem guardado das mudanças climáticas.
Enquanto isso, o “Super El Niño” — fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico — ameaça liberar ainda mais calor e gases de efeito estufa armazenados nos oceanos, funcionando como uma bateria que agora descarrega na atmosfera o pior lugar possível para esses gases e desencadear um ciclo de retroalimentação irreversível, acelerando o aquecimento planetário exatamente quando qualquer movimento humano — seja parar ou continuar queimando combustíveis fósseis — pode levar ao colapso.
Ou ainda amplificar o dilema existencial: quanto mais quente o oceano, mais o “Super El Niño” aquece o planeta; e quanto mais aquecemos o planeta, menos sabemos se a solução é parar ou continuar emitindo os gases de efeito estufa.
“O oceano é uma bateria que armazena calor e gases de efeito estufa. Quando fica um pouco mais quente, ele libera esse calor e esses gases na atmosfera, que é o último lugar onde queremos que eles estejam. (...) James Hansen se refere ao efeito de mascaramento do aerossol como um grande ponto de virada com o qual devemos lidar. Eu acho que é o segredo mais bem guardado das mudanças climáticas. Quase nunca se ouve sobre isso de autoridades do governo ou de cientistas climáticos contratados”, complementou.
Hansen é um físico e climatólogo norte-americano que quando diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Agência Espacial dos Estados Unidos – EUA (Nasa, na sigla em inglês), em 1988, afirmou em depoimento no Congresso daquele país, com alto grau de confiança que o aquecimento global causado pelo efeito estufa já estava em curso.
A EXTINÇÃO
Segundo pontuou McPherson na conversa com o ICL, nós já “estamos no meio de um evento de extinção em massa — pelo menos o nono da história do planeta, não o sexto como se costuma dizer”. E segundo ele, “este é o mais rápido e abrupto de todos”.
Para comparação, o asteroide que exterminou os dinossauros na península de Yucatán causou uma mudança ambiental que, segundo o cientista, é “mais lenta do que a que estamos provocando hoje com a queima de combustíveis fósseis”.
“A taxa atual de mudança ambiental é tão acelerada que nem mesmo os tardígrados — considerados a espécie mais resistente do planeta — conseguirão sobreviver. E os mamíferos vertebrados, incluindo os humanos, têm capacidade de adaptação dez mil vezes menor do que a velocidade das transformações em curso”, completou.
“O que estamos fazendo é mais abrupto do que quando um asteroide atingiu o planeta. Por um lado, somos o asteroide. Coletivamente somos o asteroide. E também somos a península de Yucatán. Somos nós que estamos sendo atingidos pelo nosso próprio asteroide”, observou.
“Espécies surgem, 99,9% de todas as espécies que surgiram foram extintas. Nossa espécie, sem dúvida, seguirá essa tendência. Mas isso também não nos impele, pelo menos a mim, de sermos pessoas decentes, a não tratar essa informação como um passe livre para cometer loucuras”, emendou.
A MUDANÇA CLIMÁTICA E O NEOLIBERALISMO
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) foi criado, segundo McPherson, com um “propósito deliberadamente limitador”. Durante o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos – entre 1981-1989 – e de Margaret Thatcher no Reino Unido – 1979-1990, essa organização substituiu um “grupo mais realista” — o Grupo Consultivo sobre Gases de Efeito Estufa — com a argumentação de conter o ativismo climático e controlar a agenda política.
O resultado, afirma o professor, que vive atualmente no estado de Vermont, é que o IPCC foi “projetado para falhar” em “promover mudanças sociais significativas”. Enquanto isso, políticos que durante anos negaram as mudanças climáticas agora declaram estado de emergência por causa do “Super El Niño” — não por convicção, mas para poder contratar sem licitação e superfaturar serviços.
McPherson vê nisso a mesma lógica que pode levar a humanidade a um novo desastre nuclear, lembrando que os Estados Unidos já lançaram – por duas vezes – bombas atômicas “só para praticar”, sendo uma para encerrar uma guerra.
“O professor Michael Oppenheimer, da Universidade de Princeton, escreveu que o governo dos Estados Unidos viu a criação do IPCC como uma forma de impedir o ativismo, controlar a agenda política. O IPCC foi projetado para falhar em relação às mudanças sociais significativas que produzissem resultados positivos. E eles conseguiram”, lamentou.
“Pessoas serão pessoas. É óbvio quando você vê o que a pessoa ‘X’ disse há 10 anos comparado ao que ela diz hoje, não me surpreenderia se tivéssemos outro evento nuclear. Esse país é o único que já lançou bombas nucleares em outro país. Aparentemente fizemos duas vezes só para praticar”, comentou.
A ESPERANÇA
Diante de um dilema sem saída aparente — onde tanto continuar emitindo quanto parar de emitir combustíveis fósseis pode acelerar a catástrofe — a única resposta que McPherson encontrou “não é tecnológica nem política”. É “filosófica” e profundamente humana: ajudar uns aos outros, extrair alegria das condições que nos restam, agir decentemente com as outras pessoas o tempo todo, e reconhecer que não temos todas as respostas.
O cientista admite abertamente que errou ao tentar viver isolado e livre de combustíveis fósseis — um esforço de alto custo pessoal que, se replicado por muitas pessoas, poderia desencadear o efeito de mascaramento e acelerar o colapso. Hoje, sua mensagem é outra: não se trata de salvar o mundo sozinho, mas de fazer pequenas diferenças para uma salamandra, para o vizinho, para a comunidade. E, acima de tudo, aprender a dizer “não sei” e construir respostas coletivamente.
“Estamos aqui para ajudar uns aos outros a passar por isso, seja lá o que isso significa. Também estamos aqui para brigar e não deixar ninguém dizer o contrário. E também para tirar o máximo de alegria possível das condições com que vivemos. Não estou sugerindo que possamos cometer loucuras. Estou sugerindo que ajamos decentemente com as outras pessoas o tempo todo”, finalizou.
VISÃO PELOS SEUS DETRATORES
Para os seus detratores, Guy McPherson é visto como uma figura emblemática do “alarmismo climático” e da “pseudociência”. Segundo reportam os cientistas com quem ele vem travando uma “guerra política” há décadas, o cientista que possui credenciais acadêmicas eméritas como professor emérito da Universidade do Arizona, teria perdido a “credibilidade” no meio científico por promover a “teoria marginal de que a humanidade estaria próxima da extinção”, inicialmente prevista para 2026 e depois adiada para 2030.
Seus críticos mais ferozes apontam que ele abusa de um “viés de confirmação” ao selecionar dados que sustentam seu pessimismo, “ignorando evidências contrárias” e, ironicamente, empregando as mesmas táticas argumentativas dos negacionistas que aos quais critica. Por fim, ao construir uma imagem de corajoso denunciante de uma verdade que a mídia tradicional e o governo dos EUA – seja de qual partido for – supostamente escondem.
McPherson é acusado ainda de promover uma “apatia paralisante”, desencorajando a ação coletiva para lidar com o problema real e imediato das mudanças climáticas.