31 de julho de 2025
RUSSIA/UCRÂNIA

ESPECIAL: Guerra na Ucrânia ultrapassa duração da 1ª Guerra Mundial

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Por Politica Real com agências
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Os drones mudaram radicalmente a guerra na Ucrânia e são uma das principais diferenças em relação ao conflito de 1914-1918 Foto: imagem de streaming

Por DW

Em 24 de fevereiro de 2022, quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenou a invasão da Ucrânia e deu início à atual guerra, ele esperava que a sua "operação militar especial" em solo ucraniano fosse rápida.

E, de fato, no início da guerra os soldados russos avançaram rapidamente, chegando até mesmo às proximidades da capital ucraniana, Kiev.

Mas logo encontraram resistência da Ucrânia, e o plano inicial de tomar a capital e derrubar o governo ucraniano teve de ser abandonado já no fim de março. Com o recuo russo, o conflito passou a se concentrar na região do Donbass, no leste ucraniano, e as conquistas territoriais passaram a ser lentas e pequenas.

Nesta quinta-feira (11/06), a guerra que deveria ser rápida completou 1.569 dias, tornando-se assim mais longa do que a Primeira Guerra Mundial – com a qual é frequentemente comparada.

Guerra de exaustão

Com o recuo russo de Kiev e de outras regiões ucranianas, logo nas primeiras semanas de guerra, o conflito se tornou o que especialistas chamam de guerra de exaustão (também conhecida como guerra de posições, guerra de desgaste ou guerra de atrito).

Ao contrário da guerra de movimento, a guerra de exaustão transcorre num local fixo, no qual o front permanece por um longo tempo inalterado, enquanto se busca impor pesadas perdas materiais e de pessoal ao inimigo, ao ponto da exaustão e do consequente colapso.

Muitos analistas já observaram que essa dinâmica lembra o que aconteceu na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Mas, na guerra da Ucrânia, essa situação de um front quase inalterado, com soldados inimigos não muito distantes uns dos outros, tem uma diferença fundamental: o uso de drones.

Drones passaram a ser amplamente utilizados por ambos os lados a partir do verão europeu de 2023. Um soldado ucraniano relatou à DW que, durante a contraofensiva ucraniana no primeiro ano da guerra, estava a apenas um quilômetro e meio das posições russas, armado com uma metralhadora de grosso calibre de fabricação americana.

Ele contou que também percorria longas distâncias em terreno aberto e cuidava da logística a partir de um veículo blindado. Transportava munição e suprimentos, fazia o rodízio de pessoal e retirava feridos. Hoje nada disso é possível.

Esse uso de uma nova tecnologia, porém, evoca uma outra semelhança com a Primeira Guerra Mundial, na qual aviões e tanques de guerra passaram a ser usados.

Drones deram origem à killzone

O uso dos drones mudou radicalmente a guerra na Ucrânia. Como consequência, as unidades na linha de frente tiveram que se adaptar, cavando trincheiras, camuflando-as e protegendo-as dos drones. Armas de alta tecnologia tiveram que ser deslocadas para longe da linha de frente, e os soldados de infantaria precisam se esconder no subsolo. Combates diretos entre soldados ou o uso de tanques se tornaram raros.

O que surgiu foi a chamada killzone, ou zona da morte, uma área que divide os dois lados e onde ninguém pode sobreviver devido ao constante monitoramento pelos drones. Em alguns lugares, ela tem de 20 a 25 quilômetros de largura.

Nem tudo é parecido

Mas, se há semelhanças com o que aconteceu há mais de cem anos, os contingentes militares envolvidos são muito menores, e as perdas, ainda que elevadas de ambos os lados, não chegam nem perto dos 9 milhões de militares mortos na Primeira Guerra – isso sem falar num número equivalente de civis.

Em 2022, em entrevista à DW, o historiador australiano Christopher Clark, autor de The sleepwalkers: How Europe went to war in 1914 (Os sonâmbulos: Como a Europa foi à guerra em 1914), pediu cautela nas comparações. Ele lembrou que, naquele ano, o conflito não começou com o ataque frontal de um país ao outro, mas com o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro.

Para Clark, as motivações de Putin que levaram à guerra da Ucrânia têm paralelos com o século 19, ou como o czar Nicolau 1º, em 1848, justificou a intenção de invadir e ocupar a Valáquia, na atual Romênia. "Acho que Vladimir Putin encara a Ucrânia como um território [da Rússia]", observou. "Estamos de volta ao mundo do século 19 e não ao mundo em 1914."

Consequências profundas

Claro está que as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia vão muito além das fronteiras dos dois países. "Putin está em guerra conosco. Ele vê a Ucrânia como uma guerra por procuração entre o Ocidente e a Rússia", disse o analista Markus Kaim, do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), à emissora NTV.

Assim como o conflito de mais de cem anos atrás, a guerra da Ucrânia pode ter um impacto geopolítico sobre toda a Europa, o que já se percebe no ingresso de novos países na Otan e no aumento dos gastos com defesa.

E, com as negociações de paz paralisadas, não há sinais de que a guerra esteja perto do fim.

 

( Por DW)