31 de julho de 2025
BRASIL/ALEMANHA

Lula, falando a empresários no encontro Brasil-Alemanha, disse que era fundamental que eles se mobilizassem para confirmar o acordo Mercosul-União Europeia que entra em vigor e destacou que Brasil e Alemanha podem ganhar muito juntos

Lula salientou os destaques da economia brasileira e que nossa Bolsa bateu recorde no recebimento de investimentos em meio a esse momento mundial

Por Politica Real com agências
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Lula fala a empresários Foto: imagem de streaming

(Brasília-DF, 20/04/2026)   Depois da abertura na Feira de Industrial de Hanôver, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do 42º Encontro Econômico Brasil–Alemanha, na mesma cidade alemã, e falou para empresários e autoridades. A Política Real destacou alguns pontos da fala de Lula que tinha do lado o chanceler Friedrich Merz, chefe de governo da Alemanha.  Lula cumpre o segundo dia de agendas no país europeu

Lula defendeu o acordo entre Mercosul e União Europeia como instrumento essencial para impulsionar o comércio bilateral. E pediu o engajamento do setor privado para consolidar sua vigência permanente, fazendo um apelo para que os setores favoráveis ao acordo se posicionem com mais força.

“Conto com o engajamento do setor privado para garantir que a vigência provisória do acordo seja transformada em vigência permanente. Precisamos que os setores favoráveis ao acordo falem mais alto que os que se opõem, sobretudo na Europa. É hora de garantir que ele gere benefícios a trabalhadores, empresas e consumidores diante de um cenário internacional muito turbulento e incerto”, registrou Lula.

Lula também ressaltou que o país cresceu acima de 3% nos últimos três anos, mesmo em um cenário internacional adverso, e apontou avanços na geração de empregos, no controle da inflação e na recuperação do poder de compra da população.

“Neste mês de abril, registramos o maior patamar histórico da nossa Bolsa de Valores. Recuperamos a capacidade do Estado de formular políticas públicas com eficiência e os resultados já são visíveis. O mercado de trabalho respondeu com mais oportunidades para milhões de brasileiros. A inflação segue controlada e devolvemos o poder de compra às famílias brasileiras”, disse.

Lula ressaltou a parceria que pode unir mais ainda Brasil e Alemanha e destacou os desafios que a Alemanha tem com a questão energética e que o Brasil pode melhorar sua indústria.

Lula abordou desafios industriais comuns aos dois países. Segundo ele, a Alemanha enfrenta custos elevados de energia e a necessidade de adaptação tecnológica, enquanto o Brasil ainda busca recuperar níveis industriais anteriores. “A produção industrial no Brasil avança, mas ainda está abaixo de um nível recorde alcançado em 2011. São desafios importantes que podemos enfrentar juntos”, disse.

 

Veja a íntegra da fala de Lula no evento:

 

No dia 8 de julho deste ano vai completar 12 anos que a seleção da Alemanha ganhou do Brasil de 7 a 1, e que isso não se repita nessa Copa do Mundo agora. Meu caro primeiro-ministro Merz [Friedrich, da Alemanha] e sua digníssima esposa, ministros e ministras da Alemanha, ministras e ministros brasileiros, dirigentes sindicais brasileiros que estão aqui nessa visita, o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e o Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba, onde existem muitas empresas alemãs, empresários brasileiros e empresárias brasileiras, empresários alemães e empresárias alemãs.

 

O Encontro Econômico Brasil e Alemanha está na sua 40ª edição. Desde 1974, este espaço reúne os homens, as mulheres e as empresas que sustentam uma das relações econômicas mais vibrantes do Brasil. Hoje, mais de 1.200 empresas alemãs estão profundamente integradas ao ambiente nacional. Centenas de empresas brasileiras já atuam no competitivo mercado alemão.

 

A presença alemã foi decisiva no desenvolvimento de setores estratégicos da indústria brasileira. Também formou engenheiros e técnicos, qualificou nossos quadros e enraizou entre nós uma cultura de precisão e de muita qualidade. Nossa parceria é antiga, mas não está alheia ao desafio dos novos tempos.

 

A mudança do clima é uma realidade. A economia internacional está se fragmentando. Transformações tecnológicas e energéticas ocorrem a todo tempo, em escala global.

A previsibilidade, condição essencial para o investimento, se torna mais escassa. Os conflitos armados, cada vez mais numerosos, voltam a afetar diretamente preços, rotas marítimas, investimentos e fluxos comerciais. Os fóruns multilaterais de promoção da paz e do comércio estão debilitados.

 

É justamente nesse momento que parcerias sólidas, como a do Brasil e Alemanha, revelam a sua potência, a sua força. O chanceler Merz e eu acabamos de visitar a Feira de Hanôver. Esta é a maior participação brasileira em feiras internacionais.

 

As 440 empresas e startups aqui presentes mostram o dinamismo e a vocação inovadora da nossa indústria. A escolha do Brasil como país parceiro na maior feira industrial do mundo reflete a confiança que despertamos junto ao povo alemão. É natural que a Alemanha volte a olhar para o Brasil.

 

Apesar das múltiplas crises do mundo atual, vivemos um momento econômico muito favorável. Nos últimos três anos, em um cenário global de desaceleração, o Brasil cresceu, em média, acima de 3%. Neste mês de abril, registramos o maior patamar histórico da nossa Bolsa de Valores.

 

Recuperamos a capacidade do Estado de formular políticas públicas com eficiência e os resultados já são visíveis. O mercado de trabalho respondeu com mais oportunidades para milhões de brasileiros. A inflação segue controlada e devolvemos o poder de compra às famílias brasileiras.

 

Temos hoje uma política de inclusão bancária robusta. Em poucos anos, o PIX tornou-se uma das maiores infraestruturas de pagamento digitais do mundo. Reduzimos a pobreza, a extrema pobreza e a desigualdade.

 

Retiramos novamente o Brasil do mapa da fome da FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura]. A indústria brasileira voltou a crescer. Estamos mobilizando cerca de 350 bilhões de dólares em um dos maiores programas de infraestrutura e inovação já realizados.

 

Aprovamos no Congresso Nacional uma reforma tributária esperada há mais de 40 anos. Estamos simplificando o ambiente de negócios, reduzindo custos e aumentando a competitividade da economia brasileira. Em 2025, o nosso agronegócio alcançou um recorde histórico de 169 bilhões de dólares de exportação.

 

Esse desempenho reforça a posição do Brasil como fornecedor confiável de alimentos, energia e matérias-primas, ao mesmo tempo em que avançamos na oferta de produtos com maior valor agregado.

 

No ano passado, a Embraer entregou mais de 240 aeronaves e teve receita recorde de mais de 7 bilhões e meio de dólares. A Alemanha é nosso principal parceiro comercial na Europa, com intercâmbio de mais de 21 bilhões de dólares por ano, um número ainda aquém do nosso potencial.

 

Nossa pauta segue concentrada e não reflete a capacidade produtiva de nossas economias. O acordo entre Mercosul e a União Europeia é um instrumento essencial para melhorar o nosso comércio. Após três décadas de negociações, ele entra em vigor a partir do dia 1º de maio.

 

Conto com o engajamento do setor privado para garantir que a vigência provisória do acordo seja transformada em vigência permanente. Precisamos que os setores favoráveis ao acordo falem mais alto que os que se opõem, sobretudo na Europa. É hora de garantir que ele gere benefícios a trabalhadores, empresas e consumidores diante de um cenário internacional muito turbulento e incerto.

 

A Alemanha lida hoje com custos elevados de energia e a necessidade de adaptar uma indústria altamente sofisticada à nova realidade tecnológica global. A produção industrial no Brasil avança, mas ainda está abaixo de um nível recorde alcançado em 2011. São desafios importantes que podemos enfrentar juntos.

 

O Pacto de Inteligência Artificial, que estamos assinando aqui em Hanôver, é marco importante para o desenvolvimento do conjunto de tecnologias e novas parcerias.

 

Estamos dialogando sobre áreas estratégicas, como blindados, defesa antiaérea e drones. Projetos conjuntos estão prosperando com a construção das fragatas classe Tamandaré.

Hoje, avançamos nas tentativas para a aquisição de mais quatro unidades.

 

Há espaço para aprofundar a presença da Alemanha em setores estratégicos da neoindustrialização brasileira. Referência global em hospitais inteligentes, a Alemanha pode encontrar no Complexo Industrial da Saúde amplas oportunidades para atender às demandas do Sistema Único de Saúde do Brasil, um dos maiores sistemas públicos do mundo.

 

Aqui é importante ressaltar, primeiro-ministro Merz. O Brasil é o primeiro país do mundo, é o único país do mundo, com mais de 100 milhões de habitantes, que tem um sistema de saúde universal, que é gratuito para 215 milhões de brasileiros. É um exemplo para o mundo. E o poder de compra desse sistema de saúde pode ser trabalhado muito conjuntamente com as empresas alemãs.

 

Poucos países combinam escala e sustentabilidade como o Brasil. Temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com participação de renováveis quase quatro vezes superior à média global.

 

A União Europeia espera chegar a 50% de renováveis em sua matriz em 2050. O Brasil já cumpriu essa meta em 2025. Os brasileiros construíram, desde os anos 70, uma trajetória pioneira em biocombustíveis.

 

O nosso etanol, de cana-de-açúcar, produz mais energia por hectare plantado, tem uma das menores pegadas de carbono do mundo e reduz emissões de até 90% em relação à gasolina. Hoje, na Feira de Hanôver, vimos na prática a força do biocombustível brasileiro. Foi uma pena que o primeiro-ministro não pôde visitar o caminhão para ver o sucesso do biocombustível brasileiro comparado ao combustível da União Europeia.

 

Os dois caminhões movidos a biodiesel nos pavilhões da BE8 e da Volkswagen Brasil viajaram por estradas alemãs antes de estacionarem no estande. O nosso biodiesel mostrou potência porque a aceleração é equivalente ao diesel convencional com uma redução de 99% nas emissões do tanque à roda.

 

O transporte é hoje um dos principais gargalos de descarbonização da Europa. Apesar disso, a União Europeia está revisando o seu regulamento sobre biocombustíveis. Estão na mesa propostas que ignoram práticas de sustentabilidade no uso do solo brasileiro. Também entrou em vigor em janeiro o mecanismo unilateral de cálculo de carbono que desconsidera o baixo nível de emissões do processo produtivo brasileiro baseado em fontes renováveis.

Essas iniciativas podem dificultar a oferta de energia limpa ao consumidor europeu em momento crítico. A elevação de padrões ambientais é necessária, mas não é correta. Adotar critérios que ignorem outras realidades e prejudicam os produtores brasileiros.

 

Não é à toa que o mundo olha cada vez mais para o Brasil. Oferecemos oportunidades crescentes em setores decisivos para o futuro. Estamos ampliando em minerais críticos e terras raras essenciais para a transição energética digital.

 

Não aceitaremos modelos que reduzam nosso território à extração de recursos voltados a atender apenas demandas externas. Vamos assegurar que as riquezas do Brasil sirvam ao desenvolvimento da população e das empresas brasileiras.

 

Minhas amigas e meus amigos, as relações econômicas entre Brasil e Alemanha possuem não só uma longa tradição, mas também um futuro promissor.

 

Os governos podem criar as condições, mas são os empresários e as empresárias que transformam o potencial em realidade. A Alemanha é um parceiro indispensável para o Brasil. Não tenho dúvidas de que a Alemanha pensa o mesmo do Brasil.

 

Eu queria terminar minha fala olhando para a fisionomia de vocês. É sempre muito difícil ler um discurso e não ver as pessoas com quem a gente está conversando. Há muitos mitos criados entre os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento.

 

A Alemanha conhece o Brasil mais do que qualquer outro país. Eu só queria que vocês levassem em conta que os alemães não podem acreditar na mitologia dita por alguns que são contra a inovação tecnológica na área de combustível, de que o combustível brasileiro atrapalha a produção de alimentos. Se alguém quiser acreditar nisso, eu convido a visitar o Brasil.

 

A primeira coisa, nós temos consciência de que a maior energia e a mais importante arma do mundo é a segurança alimentar de um povo. É a coisa mais importante do mundo. E ninguém seria louco de substituir a produção de comida por produção de biodiesel.

Ninguém come biodiesel. Ninguém come gasolina. As pessoas comem comida.

 

E nós sabemos da importância de fazer com que os dois setores possam se desenvolver concomitantemente, atendendo não apenas as necessidades do Brasil, mas atendendo as necessidades de outros países. Foi dito ontem, eu vou repetir agora. O Brasil, só de terras degradadas, tem 40 milhões de hectares de terras para serem recuperadas, para se plantar o que quiser, para se criar o que quiser.

 

Portanto, não há hipótese do Brasil deixar de produzir alimento ou do Brasil ocupar a Mata Atlântica, a Mata Amazônica, por conta de produção de biocombustível. O meu governo assumiu um compromisso de que até 2030 a gente vai ter desmatamento zero na Amazônia.

 

Não foi ninguém que pediu. Nós assumimos o governo e já reduzimos, em apenas três anos, 50% do desmatamento na Amazônia. Portanto, eu queria que vocês, companheiros da Alemanha, levassem em conta a realidade.

 

Muitas vezes, há muitas desinformações. Muitas vezes, há documentos técnicos que não condizem com a realidade. E eu disse ao primeiro-ministro Merz, e vou repetir aqui na frente dos empresários, qualquer dúvida que tiver com relação à relação com o Brasil, com relação ao biocombustível, com relação à transição energética, com relação a minerais críticos brasileiros ou terras raras, que não se deixem seduzir pela primeira opinião.

 

Nós, no Brasil, estamos dispostos a deixar de ser um país em vias de desenvolvimento e queremos nos tornar um país desenvolvido. E não jogaremos fora as oportunidades da transição energética que está colocada para o mundo. Quem quiser produzir com energia mais barata e com energia verdadeiramente limpa, procure o Brasil, que nós temos espaço e oportunidade para quem quiser apostar no futuro. Um abraço e muito obrigado.

 

 

( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)