Donald Trump critica Papa Francisco, o chama de fraco e que não gosta dele; Papa Leão disse, a caminho da Argélia, que "Não tenho medo do governo Trump."
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Com agências
(Brasília-DF, 13/04/2026) Ontem, 12, à noite, numa publicação em sua rede social Truth Social o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump fez criticas diretas ao Papa Leão XIV. "O Papa Leão (XIV) é fraco em matéria de crime e terrível para a política externa". Ele disse mais: "Não quero um Papa que pense que o Irão pode ter uma arma nuclear".
Ele disse que que não achava que o pontífice supremo da Igreja Católica estivesse "a fazer um bom trabalho" e que "é uma pessoa muito liberal", sugerindo também que o pontífice devia "deixar de agradar à esquerda radical". "Não sou um fã do Papa Leão (XIV)", disse ele.
Reação
Nesta segunda-feira, 13, durante o voo de ida para Argel, primeira etapa da viagem apostólica à África, Leão XIV cumprimenta os cerca de 70 jornalistas que o acompanham: “é uma viagem especial, a primeira que eu queria fazer. Uma oportunidade muito importante para promover a reconciliação e o respeito pelos povos”. Ao Pontífice, uma pergunta sobre as críticas dirigidas a ele por Trump: “não quero entrar em um debate. A minha mensagem é o Evangelho e continuo a falar com força contra a guerra”
"Não tenho medo do governo Trump.", disse o Papa Leão.
Eles, Donald Trump e Leão XIV, são os norte-americanos mais poderosos do mundo. Ambos, chefes de Estado. E subiram o tom as críticas mútuas.
Alçado pela segunda vez ao poder, Donald John Trump, de 79 anos, preside os Estados Unidos — potência econômica com mais de 340 milhões de habitantes — desde janeiro de 2025.
Em maio do mesmo ano, o conclave formado pela alta cúpula dos religiosos do catolicismo elegeu Robert Francis Prevost como comandante da Igreja Católica. Sob o nome de Leão 14, esse norte-americano de 70 anos é chefe do pequeno Estado do Vaticano —micro-enclave romano de apenas 800 habitantes. Mas, como lidera a poderosa religião que conta com 1,4 bilhão de seguidores no planeta, é uma autoridade moral cujas opiniões têm peso ideológico e social na geopolítica contemporânea.
Papa falando aos jornalistas no avião que o conduzia para Argel
Com os mais recentes conflitos bélicos como pano de fundo, as discordâncias entre esses dois líderes vêm escalando para uma verdadeira guerra discursiva, com trocas de farpas que escancaram a oposição de seus pensamentos e interesses.
Para o vaticanista Andrea Gagliarducci, do grupo ACI-EWTN de notícias católicas globais, o que se vê não é uma mera guerra ideológica. "O papa faz o papel de papa. E é óbvio que há questões nas quais não pode haver alinhamento", comenta ele, à BBC News Brasil. "Não é apenas o tema da paz, que é central para a Igreja, mas também as consequências civis, a gestão do poder que frequentemente deixa de lado os excluídos, e a política migratória."
Professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor no Lay Centre, também em Roma, o vaticanista Filipe Domingues diz à BBC News Brasil que embora visões diferentes entre governos e a Igreja não sejam incomuns, há dois pontos inéditos na alta contenda entre Leão e Trump.
"Trump atacou diretamente o papa, foi muito direto. Um post inteiro falando mal do papa, esculachando alguém que é também chefe de Estado e ainda líder de uma das principais religiões do mundo, uma figura de autoridade moral, talvez a maior delas", pontua Domingues.
O outro ponto é o fato de o papa, coincidentemente, ser cidadão norte-americano. Isso daria a ele um lugar de fala privilegiado em um debate onde o alvo da crítica é justamente a maneira como o governo norte-americano se movimenta na geopolítica.
"Antes, Francisco era acusado de não entender a Igreja dos Estados Unidos por ser latino-americano. Agora temos um papa americano. Ninguém mais vai poder dizer que ele está falando [sobre os Estados Unidos] sem conhecimento de causa", compara Domingues. "Essa é a grande diferença."
Para o vaticanista, pode-se dizer até mesmo que haja um aspecto religioso, uma questão para quem crê. "Justamente em um momento em que os Estados Unidos se tornam o principal inimigo de si mesmo, ou seja, alguém de dentro dos Estados Unidos, o próprio presidente tentando corromper as instituições para se manter no poder, justamente nesse momento a Igreja tem um papa norte-americano, alguém que de fora dos Estados Unidos consegue ser uma voz com conhecimento de causa sobre o contexto de lá", comenta.
(da redação com AFP, AP, BBC. Edição: Política Real)