OPINIÃO: Análise Internacional sobre a Guerra e os impactos no Brasil
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Por Roberto Simioni -Economista Chefe da Blue3 Investimentos
O 1Q2026 foi encerrado sob forte incerteza inflacionária. A atual escalada no Estreito de Ormuz não é apenas um conflito por território, mas uma disputa pela sobrevivência de modelos econômicos opostos e o seu desfecho determinará se o mercado global de energia permanecerá integrado ou se caminhará para uma fragmentação onde o controle físico das rotas de transporte se sobrepõe às leis de mercado. A estratégia iraniana revela uma sofisticação na manipulação do prêmio de risco geopolítico, operando na intersecção entre a teoria dos jogos e a macroeconomia de guerra. De fato, ao estabelecer condicionantes econômicas para o fim das hostilidades, que abrangem desde o acesso irrestrito ao sistema SWIFT até a reconstrução de sua infraestrutura, o Irã promove uma inversão da lógica de sanções. O trunfo de Teerã baseia-se na elevada inelasticidade da demanda de curto prazo por hidrocarbonetos. Com o Brent flutuando em patamares que ameaçam desancorar as expectativas (testando o intervalo de US$ 100 a US$ 115), o controle sobre Ormuz é tratado como um ativo real em uma negociação de derivativos políticos. O impacto sistêmico é profundo, o risco de um choque de oferta altera a matriz de custos das empresas, provoca um passthrough generalizado à inflação ao consumidor e invalida as trajetórias de flexibilização de juros desenhadas para este ano. A destruição de plantas de Oil & Gas no Oriente Médio transforma o evento de transitório em um potencial choque estrutural, cujas consequências na cadeia de suprimentos petroquímica não se recuperam em questão de dias.
O Japão enfrenta o fim de um ciclo de quatro décadas de juros reais negativos sob condições externas adversas. A transição do BoJ para uma taxa de 0,75% (com sinalização de 1,25%) representa um desmonte histórico do Trade de Reflação. O desafio técnico para K. Ueda reside na maior relação Dívida/PIB do G7, tornando a trajetória de juros extremamente sensível ao custo de rolagem da dívida pública e ao equilíbrio fiscal de longo prazo. A estratégia de "duplo mandato informal" busca estancar a desvalorização do Iene, que atua como um multiplicador da inflação importada. Em um cenário de petróleo a US$ 115, a fraqueza da moeda destrói o poder de compra das famílias e anula os ganhos reais obtidos nas negociações salariais do Shunto. O BoJ precisa elevar os juros para reduzir o diferencial com o Fed, mas deve fazê-lo de forma cirúrgica para não provocar um crash no mercado doméstico de títulos (JGBs), o que teria consequências devastadoras para os balanços dos bancos comerciais japoneses. Além disso, o Japão lida com o risco de evasão de capitais caso a percepção de instabilidade cambial se consolide. O país tido como um dos maiores credores do mundo, pode ver uma repatriação desordenada de ativos estrangeiros para cobrir perdas domésticas, o que geraria ondas de choque na liquidez global. O governo tenta mitigar o impacto social via pacotes fiscais (como o de JPY 21 trilhões), mas esses subsídios apenas mascaram a inflação subjacente, postergando o ajuste necessário e aumentando a rigidez fiscal em um momento de transição demográfica e econômica crítica.
Não bastasse isso, a dependência quase absoluta de fósseis torna o Japão o "laboratório de estresse" definitivo para o conflito no Irã. O sucesso da política de Ueda depende mais da navegabilidade do Estreito de Ormuz do que dos fundamentos internos. Se a disrupção logística perdurar, o BoJ poderá ser forçado a abandonar sua cautela e adotar um aperto agressivo, sinalizando que a proteção do poder de compra externo e a construção de um "colchão" monetário são as únicas defesas contra a estagflação importada que ameaça o arquipélago no 2Q2026. Na América o conflito expõe ainda mais vulnerabilidades, mas a economia navega em um equilíbrio distinto. O Federal Reserve adota uma postura de "paralisia vigilante", mantendo a taxa de juros entre 3,50% e 3,75%. A resiliência norte-americana não é apenas uma questão de autossuficiência energética, mas de uma reconfiguração da Função de Produção. A revisão do PIB potencial para 2,0% sugere que os investimentos massivos em Inteligência Artificial começam a deslocar a curva de oferta agregada para a direita, permitindo que a economia absorva choques de custos sem uma explosão imediata na inflação de serviços. A sustentabilidade dessa resiliência, contudo, depende da estabilidade do Dólar Global (DXY). O Fed monitora o efeito de "porto seguro" que atrai capitais para os Treasuries, o que, embora financie o déficit americano, valoriza o dólar a níveis que asfixiam as economias emergentes e parceiros comerciais. Esse fenômeno cria um aperto monetário sintético global, exportando deflação em bens comercializáveis para os EUA, mas ao custo de uma erosão na balança comercial americana. O comitê reconhece que o diferencial de juros favorável ao dólar é uma faca de dois gumes, exigindo uma calibração que evite uma valorização cambial excessiva que prejudique a base industrial doméstica.
No campo da regulação, o mercado ainda aguarda pela flexibilização do Supplementary Leverage Ratio (SLR) e do Basel III Endgame sob a administração Trump busca liberar liquidez, ainda que tais desregulamentações introduzam um risco moral. A proposta visa reduzir os colchões de capital suplementar, permitindo ao governo estimular o crédito produtivo; ainda que a teoria econômica sugira que os bancos possam utilizar dessa margem para promover alavancagem em derivativos de alta volatilidade. Em um cenário de instabilidade no Irã, essa redução na rede de segurança financeira aumenta a fragilidade sistêmica a choques de liquidez repentinos, podendo forçar o Fed a intervenções emergenciais de mercado que conflitam com sua meta de contração monetária (Quantitative Tightening). E, no Fed a aproximação da transição de liderança entre Jerome Powell e Kevin Warsh injeta uma dose de incerteza institucional. Warsh é historicamente percebido como mais sensível à dinâmica de preços de ativos e às sinalizações do mercado financeiro. Essa mudança de paradigma na "função reação" do Federal Reserve ocorre no momento mais crítico do choque de oferta, onde a distinção entre uma inflação persistente e um ruído temporário definirá se os EUA entrarão em uma recessão induzida por política monetária ou se conseguirão o almejado "pouso suave". Na Europa observa-se uma divergência entre o Reino Unido e a Zona Euro, acentuada pela natureza de seus hiatos de produto. No Reino Unido existe um impacto maior de custos desde o Brexit onde a baixa mobilidade laboral impede que a taxa de desemprego atue como estabilizador automático, forçando o Bank of England (BoE) a manter juros elevados (4,25%--4,50%) e aceitar um PIB anêmico (0,0% m/m) para evitar o colapso da Libra (GBP). A vulnerabilidade britânica é amplificada pela sua condição de importador líquido de energia e insumos básicos, o que torna o CPI extremamente reativo às variações do Brent. O BoE enfrenta o risco de "efeitos de segunda ordem" nos salários; com o mercado de trabalho ainda apertado, trabalhadores buscam recomposição da renda real perdida para a inflação de energia, criando uma espiral preço-salário que o Banco Central é incapaz de conter sem provocar uma contração severa no crédito imobiliário. Essa paralisia estrutural coloca o Reino Unido como o elo mais frágil do G7, onde o custo de preservar a credibilidade institucional é a estagnação prolongada.
Já na Zona Euro a questão central é a deterioração dos Termos de Troca. A alta do petróleo funciona como uma transferência compulsória de renda da Europa para os exportadores, drenando a procura interna e comprimindo as margens da indústria alemã. O BCE opera sob o risco de que o choque de custos se transforme em uma crise de insolvência em setores eletrointensivos. Christine Lagarde precisa gerir a política monetária para um bloco heterogêneo, onde o aperto necessário para conter a inflação no Norte pode ser fatal para a sustentabilidade fiscal do Sul, reabrindo o temor de uma crise de dívida soberana. Para mitigar o risco de fragmentação, o BCE depende da eficácia do TPI (Transmission Protection Instrument), mas o uso desse mecanismo em meio a um choque de oferta agressivo é tecnicamente desafiador. Se o BCE for forçado a comprar títulos de países periféricos para conter os spreads enquanto tenta reduzir o balanço global para combater a inflação, ele enviará sinais contraditórios ao mercado. O sucesso da Zona Euro em 2026 dependerá, menos da sintonização fina dos juros e mais da capacidade de coordenação fiscal entre os Estados-membros para absorver o choque energético sem violar permanentemente as regras de governança da União Europeia.
No cenário brasileiro, a manutenção da Selic em 14,75% reflete a elevação da Taxa de Juros Neutra, impulsionada por uma percepção de risco fiscal deteriorada. O Copom identifica que o estímulo à demanda agregada via transferências fiscais e crédito direcionado está em rota de colisão com a meta de inflação. Do ponto de vista técnico, a desancoragem das expectativas atua como um acelerador do Custo de Desinflação, exigindo juros reais mais altos para produzir o mesmo efeito de convergência.O Banco Central lida com a dominância fiscal latente, onde o esforço contracionista da política monetária é neutralizado por uma política fiscal expansionista e anticíclica. Esse descasamento eleva o prêmio de risco ao longo de toda a curva de juros, encarecendo o crédito e desestimulando o investimento privado de longo prazo. O comitê reforça que, em um ambiente de expectativas desancoradas, a restrição deve ser mantida "por mais tempo do que outrora seria apropriado", sinalizando que o ciclo de calibração de 0,25% pode ser interrompido ou revertido se a inflação de serviços não ceder.
Já às portas do 2Q o que se vê são os mercados tentando estimar o tempo de duração do conflito e como o passthrough se dará nas principais economias mundo, pois um cenário de continuidade das hostilidade por mais semanas, pode gerar a transformação de um shock transitório para um shock estrutural o que obrigaria as principais autoridades monetária a repensar na possibilidade de retomar políticas restritivas. No caso brasileiro, o foco recai ainda sobre o passthrough cambial. O Brasil como exportador de commodities teoricamente deveria se beneficiar da alta do petróleo, mas o risco fiscal impede que o Real se aprecie como ativo de proteção. Pelo contrário, a incerteza política e o alargamento do déficit nominal pressionam o câmbio, transformando a alta dos preços internacionais de energia em inflação direta na bomba e na mesa do consumidor. Se o dólar testar suportes acima de R$ 5,50, o Copom enfrentará o desafio de subir os juros em meio a uma atividade que já demonstra sinais de exaustão, testando a resiliência do modelo de metas de inflação. O BCB monitora de perto se esse dinamismo é sustentável ou se é apenas um resíduo de estímulos fiscais passados. A necessidade de políticas harmoniosas é o mantra do Copom para 2026, mas o cenário político sugere que a autoridade monetária continuará a atuar como a única âncora de estabilidade, assumindo o ônus político de juros elevados para evitar que o choque de oferta global desintegre o poder de compra do brasileiro. A análise do cenário macroeconômico brasileiro em março de 2026, consolidada pelo Relatório de Política Monetária do Banco Central e pelas notas técnicas de mercado, nos indicou que a economia opera em um regime de “reatividade extremada”.
O país enfrenta o que se classifica como uma "policrise" de custos e expectativas: onde temos de um lado o choque exógeno de energia advindo do conflito no Irã, a incerteza fiscal doméstica em meio à transição na equipe econômica (Haddad-Durigan) e a manutenção de um diferencial de juros desfavorável em relação aos Estados Unidos. Este ambiente exige da parte dos membros do COPOM (Comitê de Política Monetária) uma posição de orotodoxismo poucas vezes observado, onde a prioridade absoluta recai sobre o hiato da inflação (diferença entre a taxa de inflação observada e a meta de inflação), em detrimento de uma postura mais leniente com o hiato do produto (diferença entre o produto efetivo observado e o produto potencial que é o nível de produção que a economia pode sustentar sem promover inflação de forma crescente). Embora a Selic tenha sido ajustada para 14,75% ao ano, essa taxa nominal esconde um desafio estrutural, pois a possível elevação da taxa de juros neutra (r*) devido à deterioração da trajetória da dívida pública e ao risco institucional, o que exige um juro real ex-ante significativamente mais restritivo para garantir a convergência das metas.
A transmissão do choque externo para a realidade doméstica ocorre via múltiplos canais, sendo o mais imediato o passthrough cambial e o custos logísticos. O aumento do preço do diesel impacta diretamente a estrutura de fretes de uma matriz de transportes dependente do modal rodoviário, gerando um efeito de "agriflation" e pressionando os custos industriais. O relatório de março destacou que a resiliência do mercado de trabalho, com desemprego em patamares historicamente baixos (5,3%) e crescimento real da renda (em 4,7%) atua de forma dupla. De um lado sustenta a demanda interna frente ao choque externo, mas por outro, cria inércia nos preços de serviços que dificulta a ancoragem das expectativas de longo prazo (Focus). Nesse contexto, o BCB sinaliza que qualquer desancoragem persistente para além do horizonte de 2026 resultará em uma interrupção imediata do ciclo de queda ou mesmo em uma reversão para o aperto, uma vez que a depreciação cambial alimentada pela aversão global ao risco (o fenômeno de Fly to Quality rumo aos Treasuries) ameaça consolidar uma espiral inflacionária importada. Entretanto, os dados de IPCA e INPC a serem ainda apresentados, na prática estarão apresentando o inicio desse passthrough ainda no âmbito do PPI. Essa captura no IPCA e no INPC deve ocorrer para dentro do mês de Maio. Ainda que o conflçito não dure até além, é importante entender de qual tipo de shock de Oil&Gas estamos analisando, pois temos de inserir nessa conta o nível de dano colateral as refinarias da região (para alé do Irã) foi provocado e a que nível está ocorrendo a extração, o refino e a distribuição do Oil&Gas na região, bem como a que preço os petroquimicos passam a ser negociados e como isso afeta os custos e o repasse é transmitido principalmente no setores e em particular nos serviços
Do ponto de vista da estabilidade financeira, a autoridade monetária monitora a fragilidade do setor privado frente ao elevado serviço da dívida. A Selic em 14,75% já se materializou em condições de crédito mais restritivas, com queda nas concessões para pessoas físicas e um endividamento das famílias em níveis críticos. A assimetria na transmissão da política monetária é evidente: enquanto as linhas de longo prazo para investimento estagnaram, as linhas de curto prazo e emergenciais continuam sendo demandadas para suprir necessidades imediatas de liquidez, o que eleva o risco de inadimplência sistêmica em setores sensíveis à energia, como transportes e siderurgia. O BCB, portanto, adota uma estratégia de "vigilância constante", utilizando o Forward Guidance não como uma promessa de data, mas como um compromisso estrito com a dependência de dados (data-dependent), eliminando qualquer complacência com desvios fiscais que possam comprometer a eficácia do regime de metas. A sustentabilidade do crescimento, projetada em apenas 1,6% para 2026, depende fundamentalmente da coordenação entre as políticas monetária e fiscal. O aumento da arrecadação via redução de benefícios fiscais é um paliativo que pode ter efeitos recessivos se não for acompanhado por ganhos de produtividade, que permanecem estagnados desde 2023. A vulnerabilidade externa, evidenciada pelo déficit em transações correntes de US$ 69 bilhões, torna o Brasil refém da liquidez global. Caso o Fed reforce as linhas de swap cambial para mitigar a escassez de dólares provocada pelo conflito no Oriente Médio, o BCB poderá encontrar um alívio marginal na pressão sobre o Real, mas a âncora principal continuará sendo a credibilidade institucional. Em 2026 o setor público necessita com urgência agir sob a consolidação fiscal; enquanto no setor privado, o alongamento de passivos e o uso intensivo de hedge cambial, dado que o "ponto cego" do cenário dessa crise de Oil&Gas poderia forçar o Copom a abandonar qualquer plano de estímulo para proteger a integridade da moeda e do sistema financeiro.
( com assessoria)