Guerra da Ucrânia completa 4 anos neste 22 de fevereiro
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Com agências.
(Brasília-DF, 14/02/2026) Hoje, 24 de fevereiro de 2026 se completa 4 anos da invasão da Rússia, a chamada “Guerra da Ucrânia”.
A guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano com os drones dominando completamente a frente de batalha, que foi transformada numa "zona da morte" de até 20 quilômetros de extensão. Essa área entre os dois lados é conhecida como killzone (algo como "zona de abate"), pois ninguém pode sobreviver nela devido ao constante monitoramento por drones.
Militares ucranianos relataram à DW como é passar várias semanas, ou mesmo meses, num abrigo improvisado na killzone. Não há como chegar até lá de carro nem ser retirado de lá em caso de ferimento, e o fornecimento de munição e mantimentos é intermitente.
2022: Caos inicial e "guerra clássica"
Quando os soldados falam do início da guerra, mencionam os muitos voluntários e as longas filas nos centros de recrutamento. Isso seria inimaginável hoje. "Só me permitiram entrar para o Exército em setembro de 2022", diz Oleksandr Kachaba, a quem todos chamam de "Plasma". O então comandante de 22 anos de um pelotão de artilharia antiaérea foi posteriormente transferido para comandar um pelotão de metralhadoras.
O caos reinava na frente de batalha, recorda Stanislav Kocherha, vice-comandante de um batalhão de drones. No início de 2022, ele havia concluído o treinamento como soldado antiaéreo e foi transferido para a infantaria logo em seguida. "Havia muitas unidades, mas nenhuma comunicação", lembra.
Mais tarde, a linha de frente se estabilizou. "Então começou uma verdadeira guerra terrestre, na qual infantaria, tanques, artilharia e força aérea eram os principais recursos. Uma guerra clássica, exatamente como as que lemos nos livros", diz o soldado.
Ainda em 2022, os lançadores de foguetes estrangeiros, incluindo o tipo Himars, tornaram-se o fator decisivo, segundo Vladyslav Urubkov, da Fundação Come Back Alive (Retorne vivo), que equipa o Exército ucraniano, desde veículos a lançadores de granadas, e organiza programas de treinamento. "O Himars teve um grande impacto no sucesso da contraofensiva em Kharkiv", enfatiza Urubkov, que não está mais no Exército.
2023: Os drones entram em cena
No ano seguinte, as forças armadas começaram a usar amplamente o quadricóptero chinês Mavic. Inicialmente para reconhecimento aéreo, mas logo também como um drone de ataque capaz de lançar explosivos. Mais tarde, drones kamikazes foram adicionados.
Drones têm sido amplamente utilizados por ambos os lados desde o verão de 2023. "Tive a sorte de servir na infantaria antes que os drones se tornassem dominantes", diz Kachaba.
Devido aos drones, hoje quase tudo o que Kachaba fazia naquela época não é mais possível no campo de batalha. Kachaba relata que, durante a contraofensiva, estava a apenas um quilômetro e meio das posições russas, armado com uma metralhadora de grosso calibre de fabricação americana. Ele também percorria longas distâncias em terreno aberto e cuidava da logística a partir de um veículo blindado. Transportava munição e suprimentos, fazia o rodízio de pessoal e evacuava tropas.
Naquela época, os feridos eram transportados por quatro quilômetros num veículo blindado até uma equipe de transporte que os aguardava. Essa equipe os transportava num veículo sem blindagem até um ponto de estabilização mais para o interior.
Hoje, com a expansão da killzone, isso não é mais possível. "Naquela época, os feridos chegavam ao nosso hospital poucas horas depois de terem sido atingidos. Hoje leva dias", explica a paramédica conhecida como Kazhan, que faz parte de uma equipe de transporte de feridos.
2024: drones cada vez mais evoluídos
Em fevereiro de 2024, os russos iniciaram um rápido avanço na região de Donetsk. Foi nesse momento que a escassez de soldados na frente de batalha se tornou extremamente evidente, recorda Kachaba, que foi transferido para o quartel-general na época devido aos seus ferimentos.
Simultaneamente eram usados drones cada vez mais evoluídos. As forças armadas ucranianas foram as primeiras a usar hexacópteros. Eles eram utilizados para atingir alvos e lançar minas a longas distâncias, bem como para fins logísticos. Em paralelo eram desenvolvidas capacidades de guerra eletrônica.
O drones kamikazes mudaram fundamentalmente a natureza da guerra, diz Urubkov. "O maior salto no desenvolvimento ocorreu no final de 2023 e início de 2024, quando as entregas de projéteis de artilharia ocidentais atrasaram", analisa. Durante os combates em torno de Avdiivka, naquele período, os ucranianos utilizaram drones FPV contra os russos, que possuíam artilharia superior.
Os drones FPV são aeronaves pilotadas através de óculos especiais ou monitores que exibem as imagens capturadas pela câmera do drone.
Kocherha, no entanto, diz que a opção pelos drones FPV não está tanto relacionada à escassez de munição, mas à eficiência e ao custo relativamente baixo dos drones FPV kamikazes. Ambos os lados passaram a usar drones de ataque em larga escala simultaneamente, diz.
Como consequência, as unidades na linha de frente tiveram que se adaptar, cavando trincheiras, camuflando-as e protegendo-as dos drones. Armas de alta tecnologia tiveram que ser deslocadas para longe da linha de frente. Se, no início da guerra, um tanque era posicionado a três quilômetros da linha, a partir de 2024 essa distância precisa ser de 10 a 15 quilômetros. Já os soldados de infantaria precisam se esconder no subsolo, onde têm menos oportunidades de observação, e o inimigo passou a se infiltrar em pequenos grupos.
2025: Ofensiva em Kursk e robôs
O verão europeu de 2024 foi marcado pelo início da ofensiva de Kursk. As forças armadas ucranianas avançaram rapidamente em território da Rússia, mas não conseguiram manter suas posições. A operação terminou na primavera de 2025.
Um dos motivos para o sucesso da contraofensiva russa foi o uso de drones de fibra óptica, resistentes a interferências eletrônicas. "Em determinado momento, os russos começaram a usar esses drones para atacar todos os veículos que se dirigiam a Kursk", conta Kazhan. "Dirigíamos à noite, e era muito assustador, porque sabíamos que não tínhamos como nos defender desses drones."
Ao mesmo tempo, a paramédica observou que o número de feridos estava diminuindo. Ela diz que, em 2024, houve dias em que a região de Avdiivka recebeu até 200 soldados feridos, e esse número diminuiu significativamente depois disso. "O principal problema é a zona da morte, que em alguns lugares tem de 20 a 25 quilômetros de largura. Ela foi ampliada pelo uso da tecnologia. Agora é possível matar com maior precisão. Isso dificulta a retirada dos feridos graves", explica.
Hoje os médicos militares atendem os feridos em suas posições por meio de ligações de vídeo e enviam medicamentos por drones. Isso permite que soldados com amputações e hemorragias sobrevivam mesmo quando a retirada é impossível por semanas. Robôs terrestres também estão sendo usados para retirar os feridos. Eles também são usados para entregas na frente de batalha e estão equipados com metralhadoras.
Uma novidade em 2025 foram as tentativas de "furar os olhos uns dos outros", ou seja, de abater drones de reconhecimento, relatam os militares. A Ucrânia está trabalhando ativamente em drones interceptadores para combater isso. Inicialmente essa era uma tarefa de voluntários, mas hoje a Ucrânia possui infraestrutura para isso, afirma Urubkov. "Essa é uma reação à produção em larga escala de drones de reconhecimento pelos russos."
2026: Expectativas
Do ponto de vista de Urubkov, o evento mais importante no início de 2026 será a desconexão dos militares russos dos terminais Starlink, que eles utilizavam para coordenação de unidades e controle de drones. "Nossa vantagem residia no uso do Starlink", afirma, ressaltando que os russos eventualmente encontraram uma maneira de também utilizar essa rede de satélites. "O que podemos fazer na linha de frente graças ao Starlink, os russos, com sorte, não conseguirão mais fazer", diz Urubkov.
Ele avalia que a evolução tecnológica vai continuar. "Diante disso, o pessoal na linha de frente vai ficar cada vez mais vulnerável. A nossa posição estratégica é de defesa. Com poucas exceções, esta é uma guerra na qual a ofensiva estratégica está com o inimigo, que toma a iniciativa. Nosso trabalho consiste principalmente em se defender. Gostaria de mudar isso."
Já Kachaba diz não acreditar que o desenvolvimento tecnológico vá determinar o rumo da guerra. "Acho que todas as mudanças tecnológicas significativas já ocorreram e que o rumo da guerra agora depende de quem ficará primeiro sem soldados capazes de lutar sob domínio total dos drones kamikazes", diz.
( da redação com DW. Edição: Política Real)