31 de julho de 2025
SOCIEDADE

Luis Fernando Veríssimo morre aos 88 anos; o genial escritor e cronista dizia que a “morte é uma grande sacanagem “ – políticos e artistas se manifestaram

A morte foi confirmada por sua esposa, Lucia, e familiares

Por BBC e DW, edição Política Real
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Com agências

(Brasília-DF, 30/082/2025). Neste 30 de agosto (só poderia ser em agosto, diria ele se vivo estivesse!)  escritor e cronista Luis Fernado Verissimo morreu aos 88 anos, em Porto Alegre (RS).

Verissimo estava internado desde o domingo ,17, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre (RS), com princípio de pneumonia.

O escritor gaúcho, nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, enfrentava há anos uma série de complicações de saúde que incluíam a doença de Parkinson, sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em 2021, além de problemas cardíacos.

Ao fim da vida, enfrentava dificuldades de fala e as poucas palavras que ainda balbuciava, eram em inglês, conforme relato de Lúcia Verissimo, de 81 anos e esposa do escritor por 61 deles, à Folha de S.Paulo.

A morte do escritor e cronista teve grande repercussão no meio cultural e político. Muitas personalidades destacaram o humor de seus textos e charges e os personagens que ele imortalizou, como o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté e Ed Mort.

A morte foi confirmada por sua esposa, Lucia, e familiares. O cronista parou de escrever em 2021, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Nos últimos anos, enfrentava uma série de problemas de saúde, como a doença de Parkinson e um câncer ósseo na mandíbula.

Filho de Mafalda e Erico Verissimo (1905-1975), também escritor, Luis Fernando Verissimo mudou-se aos 16 anos para os Estados Unidos, onde o pai trabalhou como professor na Universidade da Califórnia, de 1943 a 1945,

Em solo americano, Verissimo começou a desenvolver suas habilidades literárias e seu amor pelo jazz, tornando-se mais tarde saxofonista e integrante da banda Jazz 6.

Durante sua extensa carreira, o escritor construiu um vasto legado com mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de cópias vendidas.

Sua produção literária abrangeu gêneros diversos, desde crônicas humorísticas até contos e romances que retrataram com graça e maestria o cotidiano brasileiro.

Além dos livros publicados, Verissimo também teve presença cativa na imprensa nacional, colaborando como colunista em veículos como O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja e Zero Hora.

Entre as principais obras do escritor, estão O Analista de Bagé (1981), A Grande Mulher Nua (1975), Ed Mort e Outras Histórias (1979), O Santinho (1991) e Comédias da Vida Privada (1994), livro de crônicas que foi adaptado para uma série de televisão pela Rede Globo, entre 1996 e 1997.

"Eu comecei a escrever tarde, com mais de 30 anos. Até então só tinha feito algumas traduções do inglês e não tinha a menor intenção de ser jornalista ou escritor", lembrou Verissimo, então aos 80 anos, em entrevista à revista Época, em 2016.

"Quando me deram um espaço assinado no jornal, eu, por assim dizer, me descobri. (...) O resto, os contos e os romances são decorrências do trabalho como cronista. Na música, apenas realizei o sonho de ser jazzista, ou pelo menos poder brincar de ser jazzista", completou.

Conhecido por seu posicionamento político de esquerda, Verissimo foi um duro crítico do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sempre elogiou os primeiros governos petistas pela inclusão social e diminuição da desigualdade no Brasil.

Ele também defendia que "todo mundo deve ter lado, e deixar claro qual é".

"Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência", disse o escritor, em entrevista à Folha de S.Paulo em 2020.

Frases de Veríssimo sobre a morte

Na velhice, já debilitado pelos anos e pelos sucessivos problemas de saúde, o escritor falava da morte com um misto de tristeza e doçura, com a leveza típica de sua obra.

"A morte é uma injustiça, esse é a melhor descrição. Mas a gente tem de conviver com isso", disse ele à Folha de S.Paulo, em 2011.

"A gente vai ficando mais lento de pensamento. Nesse sentido, estou sentindo a velhice. Mas aí é tentar aproveitar a vida da melhor maneira. Enquanto der para aproveitar a nossa neta, ir ao cinema, viajar, a gente vai levando."

Em 2013, após deixar o hospital onde havia sido internado na UTI, em função e um gripe que evoluiu para um quadro de infecção generalizada, foi ainda mais radical, em nova declaração à Folha.

"A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra."

Artistas, políticos e personalidades lamentaram a morte e prestaram suas homenagens ao escritor.

O escritor Antonio Prata destacou que humor era de Veríssimo era o traço mais marcante de sua obra que suas crônicas são uma "porta de entrada à leitura".

"Ele foi um grande cronista, um grande humorista e um grande comentador da realidade nacional", disse Prata à rádio CBN. "Ele era um cara que escrevia sobre política também, sempre pelo viés do humor. Ele é um grande humorista, mas que comentava a realidade brasileira de uma maneira muito árdua, muito precisa".

O jornalista e escritor Ruy Castro, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, comparou o estilo dos textos do cronista gaúcho com os do cineasta Woody Allen, publicados pela revista americana New Yorker. "Assim como Woody, Verissimo se punha na posição do observador que via o ridículo ou o absurdo com grande naturalidade. Também como Woody, ele não buscava a gargalhada, mas o riso silencioso. E seus personagens, assim como os de Woody, eram homens e mulheres nascidos não para, mas um contra o outro."

"Ele conseguiu a proeza de fazer o país rir com um personagem de forte sabor regional, o analista de Bagé. Outra de suas criações, a velhinha de Taubaté – a última pessoa no Brasil a continuar acreditando no regime militar – nos lavava semanalmente a alma. Minha favorita, no entanto, era uma que ele explorava pouco, a ravissante Dorinha Doravante, a socialite socialista, que escrevia ao cronista cartas deliciosamente cínicas", escreveu Castro.

"Escritor, cartunista e herói"

O humorista Antônio Tabet, apresentador e fundador do grupo Porta dos Fundos, também, lamentou a morte do cronista.

"Morreu um dos maiores de todos os tempos: Luis Fernando Verissimo. Escritor, cartunista e herói. Meu herói. Verissimo foi, desde quando seus livros encheram meu peito com um entusiasmo inédito, o norte da minha bússola profissional. Pensava, ainda nos devaneios da adolescência, que um dia seria como ele. Nunca fui. Nunca serei. Ninguém será. Completo, magnífico e unanimidade, Verissimo foi além dos livros. Foi um verdadeiro Robin Hood da endorfina."

"Sem ele, a vida de um país que não valoriza artistas como ele seria mais sem graça e as comédias da vida privada continuariam privadas. Verissimo, como o próprio nome diz, foi gênio de verdade. Literal. Tanto que até este "literal” é literal. É veríssimo. Verissimo. Descanse em paz. Todo meu afeto e gratidão para a família. Te amo, ídolo!"

A escritora, jornalista e amiga de Verissimo Cíntia Moscovich destacou o papel de Veríssimo em se tornar um elemento aglutinador no meio literário. "Ele fazia questão de estar muito próximo de todos nós, que vivíamos a literatura", disse à emissora GloboNews.

"Verissimo estreitava e formava um núcleo agregador em Porto Alegre e no Brasil, que fazia com que a gente se comunicasse com os vários 'Brasis' que existem, em termos literários e afetivos", disse, acrescentando que ele "estava sempre presente, e não era muito de falar, mas de olhar."

O cartunista Angeli publicou uma charge na qual Veríssimo aparece tocando saxofone – uma das paixões do cronista – ao lado de sua personagem Rê Bordosa e prestou solidariedade à família do escritor. "Todo amor para Lúcia, Fernanda, Mariana, Pedro e família. Imensurável é 'o pai'", escreveu.

"Ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que Veríssimo usava a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo e defender a democracia. "Dono de múltiplos talentos, cultivou inúmeros leitores em todo o Brasil com suas crônicas, contos, quadrinhos e romances. Criou personagens inesquecíveis, a exemplo do Analista de Bagé, As Cobras e Ed Mort."

"Sua descrição bem-humorada da sociedade ganhou espaço nas livrarias e na TV, com a Comédia da Vida Privada. E, como poucos, soube usar a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo; e defender a democracia. Eu e Janja deixamos o nosso carinho e solidariedade à viúva Lúcia Veríssimo – e a todos os seus familiares."

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, expressou "enorme pesar" pela morte do escritor e decretou três dias de luto oficial no estado.

"O Rio Grande do Sul e o Brasil perdem um dos grandes nomes da literatura nacional, cuja obra marcou gerações de leitores com sacadas inteligentes e um humor peculiar para falar dos nossos desafios como brasileiros.

Autor de crônicas inesquecíveis e criador de personagens que se tornaram parte do imaginário brasileiro, Verissimo deixa um legado que permanecerá vivo em suas palavras, sempre atuais e cheias de sensibilidade e humor."

"Em reconhecimento à sua trajetória e contribuição à cultura, decreto três dias de luto oficial no Estado. O Rio Grande do Sul se despede de um gênio da escrita, mas suas histórias seguirão entre nós, pois são imortais.

O Sport Club Internacional lamentou através das redes sociais a perda de um de seus torcedores mais ilustres.

"Hoje nos despedimos de um colorado que, com sua escrita, marcou o imaginário do povo brasileiro", afirma a postagem do perfil oficial do clube. "Torcedor do Clube do Povo, ficou conhecido pelos seus textos em formato de crônicas, contos e poemas,"

"O Sport Club Internacional deseja força para todos os familiares, amigos e leitores de um dos maiores nomes da literatura nacional."

 ( da redação com informações e textos da BB e DW. Edição: Política Real)