Gabriel Galípolo não quis “cravar” o tamanho da nova alta de juros já anunciada pelo Copom
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( Publicada originalmente às 13h 00 do dia 27/03/2025)
(Brasília-DF, 28/03/2025) No final da manhã desta quinta-feira, 27, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, participou da coletiva à imprensa na sede do Banco Central em que foi Relatório de Política Monetária_do primeiro trimestre de 2025. Foi divulgado.
Galípolo não quis divulgar a estimativa do tamanho de nova alta dos juros e falou em "preservar grau de liberdade" para avaliação do cenário.
Galípolo estava ao lado do diretor de Política Econômica, Diogo Guillen.
Galípolo diz que "há uma série de dúvidas" sobre o consignado do CLT. Presidente do BC afirmou que nova medida ainda não entrou nas projeções.
Veja o texto da apresentação do Diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, durante a coletiva.
Cenário de referência
Cenário externo
• O ambiente externo permanece desafiador em função da conjuntura e da política econômica nos Estados
Unidos, principalmente pela incerteza acerca de sua política comercial e de seus efeitos.
• Esse contexto tem gerado ainda mais dúvidas sobre os ritmos da desaceleração, da desinflação e,
consequentemente, sobre a postura do Fed e acerca do ritmo de crescimento nos demais países.
• Os bancos centrais das principais economias permanecem determinados em promover a convergência das
taxas de inflação para suas metas em um ambiente marcado por pressões nos mercados de trabalho.
• O Comitê avalia que o cenário externo segue exigindo cautela por parte de países emergentes.
Atividade econômica
• Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de
trabalho tem apresentado dinamismo, ainda que sinais sugiram uma incipiente moderação no crescimento.
Inflação
• A inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação e novamente
apresentaram elevação nas divulgações mais recentes.
• As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus elevaram-se de forma relevante e
situam-se em 5,7% e 4,5%, respectivamente.
• A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2026, atual horizonte relevante de política
monetária, situa-se em 3,9% no cenário de referência.
Em economias avançadas, após um processo contínuo de recuo nos índices cheios de inflação, as últimas leituras apontam para uma relativa estabilidade. Os núcleos de inflação ainda se encontram em níveis elevados, acima da meta em muitas economias, e tiveram seu ritmo de convergência perdendo velocidade, na margem.
A atividade global continua demonstrando resiliência ante o grau restritivo da política monetária, apesar das perspectivas de desaceleração. O mercado de trabalho nos EUA tem demonstrado sinais mais evidentes de acomodação nos últimos meses, com o rebalanceamento progressivo entre oferta e demanda.
As expectativas para a inflação de 2025 nas principais economias emergentes tiveram significativa piora, com reflexos nas perspectivas para a política monetária.
Os preços de commodities energéticas apresentaram queda no início do ano, com a expectativa de ampliação do excesso de oferta em um cenário de incerteza.
Nos últimos meses, observa-se um aumento da incerteza de política econômica, em geral, e da política comercial, em particular.
Perspectivas de cortes de juros prosseguem, mas em menor magnitude do que se previa anteriormente.
Conjuntura interna
A economia brasileira apresentou nova alta expressiva em 2024, mais uma vez superando as previsões iniciais, mas desacelerou no quarto trimestre.
O PIB arrefeceu mais do que o esperado no quarto trimestre de 2024, em particular nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico.
Os indicadores mensais da indústria e dos serviços disponíveis até o momento exibem sinais compatíveis com uma moderação do crescimento. Os indicadores de percepção apresentam movimentos mais fortes.
Parte do forte crescimento esperado para o PIB ex-agropecuária no 1º tri de 2025 pode ser atribuído ao método de ajuste sazonal.
• A projeção de crescimento passou de 2,1% para 1,9% e
continua consistente com a perspectiva de desaceleração da
economia ante 2024 e anos anteriores.
• A incerteza em torno do cenário central aumentou,
considerando fatores externos e internos.
• A revisão reflete uma redução no crescimento esperado para
os setores mais cíclicos, influenciada por uma política
monetária mais contracionista, parcialmente compensada
por um aumento nos demais.
• Na demanda, continua-se esperando desaceleração
relevante no consumo das famílias, na FBCF e nas
importações.
• Espera-se um crescimento mais expressivo no 1º trimestre,
com elevada contribuição da agropecuária, e certa
estabilidade nos demais.
O mercado de trabalho se manteve aquecido, mas com algum arrefecimento nos últimos meses. Após mais de três anos de queda, a taxa de desemprego ficou estável no trimestre encerrado em janeiro, com ligeiro recuo do nível de ocupação e da taxa de participação na força de trabalho
A geração de empregos com carteira desacelerou, mas ainda está em patamar elevado. O dinamismo do mercado de trabalho ainda é observado na participação dos desligamentos voluntários no total de desligamentos, que se encontra no seu máximo histórico.
Crédito
No mercado de crédito, observa-se aumento das taxas de juros em diversas modalidades. As concessões de crédito livre arrefeceram, mas seguem em nível elevado.
A projeção de crescimento nominal do saldo do crédito no SFN em 2025 diminuiu de 9,6% para 7,7%, com o cenário de uma política monetária mais restritiva, menor crescimento e condições mais restritivas de oferta de crédito. A revisão para baixo foi disseminada em todos os segmentos.
• O impulso do crédito do SFN em 2024 foi 1,1% do PIB, alavancado pelo aumento das concessões do crédito livre. No mercado de capitais, a forte emissão de debêntures em 2024 gerou um impulso adicional de 1,0% do PIB.
Fiscal
Desde o Relatório anterior, não se observa alteração relevante na forma como os analistas avaliam a situação fiscal, que continua bastante desafiadora
Além das diversas estatísticas de estoques de ativos e passivos que constam das estatísticas fiscais compiladas pelo BCB, como medida adicional de transparência, a DBGG-FMI passará a ser publicada juntamente com a DBGG-Bacen, que permanece o conceito de referência do BCB.
Contas Externas
Em 2024, o déficit em transações correntes aumentou, influenciado pelo dinamismo da atividade econômica, e a entrada líquida de investimentos diretos no país (IDP) foi robusta.
• Poucas alterações em relação ao esperado no
Relatório anterior.
• Déficit em conta corrente deve ficar estável em
relação a 2024, em 2,8% do PIB, e seguir inferior às
entradas de investimento direto no país, projetadas
em 3,2% do PIB.
• A pequena revisão na projeção da conta corrente
refletiu, principalmente, o aumento no valor
esperado das importações, com impacto no saldo
comercial.
Preços
O IC-Br recuou desde o Relatório anterior, refletindo, principalmente, a apreciação do real. Os preços ao produtor desaceleraram, com moderação em produtos agropecuários e alimentos industrializados, mas componentes menos voláteis têm mostrado altas relevantes.
IPCA
A inflação acumulada em doze meses, medida pelo IPCA, aumentou desde o relatório anterior e a inflação trimestral continua alta. A média dos núcleos também apresentou alta, indicando o caráter disseminado do movimento.
Os preços de alimentos ao consumidor seguiram com variação elevada, apesar de alguma moderação em relação ao trimestre anterior. Arrefecimento em carnes, óleo de soja, leite, arroz. Alta e aceleração com destaque para café e ovos.
• A alta do preço do boi gordo desde setembro foi intensa, está parcialmente associada a elementos de oferta no
setor (estiagem e possível reversão do ciclo do boi) e ajuda a explicar o aumento dos preços das carnes e da
alimentação fora do domicílio nos meses seguintes.
• Os preços das carnes devem continuar pressionados neste ano, dada a perspectiva para o ciclo do boi e o
contexto de demanda externa aquecida pela carne brasileira.
Preços de bens industriais tiveram alta intensa pelo terceiro trimestre consecutivo. Diversas medidas da inflação subjacente de serviços seguem pressionadas.
A mediana das expectativas para a inflação em 2025 voltou a apresentar alta relevante e se mantém acima do intervalo de tolerância. As expectativas de inflação continuam desancoradas para os anos seguintes e voltaram a apresentar elevação.
Perspectiva de Inflação
Surpresas
• A inflação ao consumidor no trimestre encerrado em fevereiro foi
mais alta e teve composição pior que a esperada. As surpresas
para baixo ocorreram, em geral, em componentes mais voláteis
(ex: serviços ex-subjacente, alimentos in natura), enquanto as
surpresas de alta ocorreram em componentes que tendem a
apresentar maior persistência (ex: serviços subjacente).
Projeção
• Os preços ao consumidor devem seguir com variações mensais
elevadas e a inflação em doze meses deve permanecer ao redor
de 5,5%, acima do intervalo de tolerância da meta.
• Inflação mensal elevada está associada com comportamento de
preços livres em geral, com altas mais disseminadas, e reflete
inércia elevada, mercado de trabalho ainda apertado, repasse da
depreciação acumulada do câmbio e outros fatores mais
específicos (como a alta do café e perspectiva de oferta mais
restrita de carne bovina). A média trimestral dessazonalizada e
anualizada dos núcleos deve se situar acima de 5% no período.
Condiçòes financeiras
As condições financeiras atingiram máximo restritivo em torno de
meados de janeiro e arrefeceram em seguida, mas continuaram em
níveis mais restritivos do que os de início de dezembro.
Principais fatores de elevação do ICF entre dezembro e janeiro:
• elevação dos juros futuros domésticos;
• depreciação do real;
• apreciação do dólar frente a outras moedas de economias
avançadas;
• elevação dos juros futuros externos em prazos mais longos;
• elevação do CDS Brasil de 5 anos;
• preço do petróleo; e
• queda das bolsas de valores doméstica.
Principais fatores de queda do ICF entre meados de janeiro e
março:
• apreciação do real;
• depreciação global do dólar;
• queda do preço do petróleo; e
• redução dos juros futuros domésticos
Hiato do produto estimado em níveis positivos, mas a projeção é de queda ao longo dos próximos trimestres.
• Hiato no 1º trimestre de 2025 estimado
em 0,6% .
• Hiato no 3º trimestre de 2026 projetado
em -0,8%.
Decomposição de 2024
• A inflação do IPCA em 2024 foi de 4,83%, 1,83 p.p. acima da meta para a inflação de 3,00% e 0,33 p.p. acima do
intervalo de tolerância estabelecido pelo CMN (1,5%-4,5%)
Contribuíram para cima:
• Inflação importada (0,72 p.p.)
• Inércia do ano anterior (0,52 p.p.)
• Hiato do produto (0,49 p.p.)
• Expectativas de inflação (0,30 p.p.)
Dentro de inflação importada:
• Depreciação cambial (1,21 p.p.)
• Preço de commodities em geral (IC-Br) (0,10 p.p)
• Preço do petróleo (-0,59 p.p.)
Projeções condicionais para inflação
• Inflação em 2024 acima do intervalo de tolerância da meta: ritmo forte
de crescimento da atividade econômica, depreciação cambial e de
fatores climáticos, em contexto de expectativas de inflação
desancoradas e inércia da inflação do ano anterior.
• Nas projeções do cenário de referência, a inflação continua acima do
limite do intervalo de tolerância ao longo de 2025, começando a cair a
partir do quarto trimestre, mas ainda permanecendo acima da meta.
• Considerando projeções mensais, a inflação acumulada em doze
meses fica superior ao limite superior do intervalo de tolerância da
meta por seis meses consecutivos em junho deste ano.
• Principais fatores de aumento das projeções no horizonte relevante:
o Aumento das expectativas de inflação
o Inércia decorrente das surpresas inflacionárias e da revisão das
projeções de curto prazo
• Principais fatores de redução das projeções:
o Subida da taxa de juros real
o Apreciação cambial
o Queda do preço do petróleo
Comentários Finais
• O balanço de riscos permanece assimétrico indicando maior probabilidade de uma inflação mais elevada do que
aquela contemplada no cenário-base.
• Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se:
i. uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado;
ii. uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais
positivo; e
iii. uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o
esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.
• Entre os riscos de baixa, ressaltam-se:
i. impactos sobre o cenário de inflação de uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais
acentuada do que a projetada; e
ii. um cenário menos inflacionário para economias emergentes decorrente de choques sobre o comércio
internacional e sobre as condições financeiras globais.
( da redação com informações da Ag.Brasil e assessoria. Edição: Política Real)