CANADÁ: Mark Carney foi eleito líder liberal e será o premiê do Canadá; haverá nova eleição e partido Liberal ganha fôlego para continuar no poder com eleição “patriótica”
Espera-se que o novo primeiro-ministro conduza o país a novas eleições e, caso o governo não as convoque, a oposição poderá forçá-las por meio de uma moção de censura no Parlamento
( Publicada originalmente às 07 h 20 do dia 10/03/2025)
Com. BBC e Euro News.
(Brasília-DF, 11/03/2025) Nesse domingo, 09, Mark Carney, o ex-governador do Banco do Canadá e ex-diretor do Banco da Inglaterra, foi eleito líder do Partido Liberal o que o torna o próximo primeiro-ministro do Canadá. Carney será empossado como premiê nos próximos dias.
O economista de 59 anos substituirá Justin Trudeau, que está no cargo há mais de oito anos, desde sua nomeação como chefe de governo em novembro de 2015.
Trudeau, que anunciou sua renúncia em janeiro, permanecerá no cargo até que seu sucessor tome posse nos próximos dias.
Carney obteve 86% dos votos em uma eleição que contou com a participação de cerca de 152 mil membros do Partido Liberal.
"Quem está disposto a defender o Canadá comigo?", declarou o novo líder do partido em seu primeiro discurso após o anúncio do resultado, durante o evento da legenda governista em Ottawa.
Ele acrescentou: "O Partido Liberal está unido, forte e pronto para lutar por um país ainda melhor."
A troca de liderança ocorre em um momento em que o Canadá vive uma escalada de tensões com os Estados Unidos, marcada pela guerra comercial promovida por Donald Trump e pelos comentários do presidente americano sobre uma possível anexação de seu vizinho do norte.
Carney assume um mandato-tampão. Uma eleição federal deve ser realizada até 20 de outubro, mas pode ser convocada já nesta semana.
Espera-se que o novo primeiro-ministro conduza o país a novas eleições e, caso o governo não as convoque, a oposição poderá forçá-las por meio de uma moção de censura no Parlamento.
FUTURO
Se você tivesse perguntado aos canadenses alguns meses atrás quem venceria a próxima eleição geral do país, a maioria teria previsto uma vitória decisiva para o Partido Conservador. Esse resultado não parece tão certo agora.
O Partido Liberal, do impopular Justin Trudeau, subiu 12 pontos nas pesquisas desde dezembro após as ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o Canadá e se fortalece para a disputa iminente.
Prioridades dos canadenses mudaram
O novo fôlego do Partido Liberal reflete como as tarifas de Trump e seus repetidos apelos para tornar o Canadá "o 51º Estado americano" alteraram fundamentalmente as prioridades dos eleitores canadenses.
A retórica de Trump "afastou todas as outras questões" que estavam na mente dos canadenses antes da posse do americano em 20 de janeiro, observa Luc Turgeon, professor de ciência política na Universidade de Ottawa.
Pesquisas indicam que muitos canadenses ainda querem uma mudança no topo. Mas como seria essa mudança — um governo liberal sob nova liderança ou uma mudança completa para os conservadores — é agora uma incógnita, diz Greg Lyle, presidente do Innovative Research Group, sediado em Toronto.
"Até agora, houve uma grande perda para os conservadores", ele conta à BBC.
Os conservadores ainda estão à frente nas pesquisas, com os mais recentes levantamentos sugerindo que 40% dos eleitores os apoiam. A sorte dos liberais, enquanto isso, foi reanimada, com seu apoio subindo para pouco mais de 30% — 10 pontos acima do patamar de janeiro.
Eleições com tom patriótico
Os liberais têm tentado destacar as semelhanças entre o líder conservador e o presidente republicano.
No debate sobre liderança da semana passada, os candidatos se referiram a Poilievre como "nossa pequena versão de Trump aqui em casa" e disseram que ele estava procurando "imitar" o presidente dos EUA. Um ataque do Partido Liberal justapôs clipes dos dois usando frases semelhantes, como "notícias falsas" e "esquerda radical".
Há diferenças claras, no entanto, entre os dois políticos, em termos de estilo e substância. E o próprio Trump minimizou quaisquer paralelos, dizendo à revista britânica The Spectator em uma entrevista recente que Poilievre "não é Maga o suficiente", em referência ao seu slogan de campanha Make American Great Again, ou Faça a América Grande Novamente .
Ainda assim, os levantamentos de opinião sugerem uma queda no apoio aos conservadores. Um mais recente, do pesquisador nacional Angus Reid, indica que os canadenses acreditam que o favorito à liderança liberal, Mark Carney, está mais bem equipado para lidar com Trump em questões de tarifas e comércio do que Poilievre.
O ex-banqueiro central do Canadá e da Inglaterra está alardeando sua experiência em lidar com crises econômicas, incluindo a crise financeira de 2008 e o Brexit.
E a mudança no clima político forçou os conservadores a ajustar suas mensagens ao eleitorado.
Se a eleição for convocada em breve, a campanha ocorrerá em um momento em que as ameaças de Trump inspiraram um patriotismo feroz entre os canadenses. Muitos estão boicotando produtos americanos em seus supermercados locais ou até mesmo cancelando viagens aos EUA.
O professor Turgeon diz que essa "união em torno da bandeira" se tornou um tema-chave da política canadense.
Os conservadores abandonaram seu slogan "O Canadá está quebrado", que, segundo Lyle, corre o risco de parecer "antipatriótico", e adotaram "Canadá em primeiro lugar".
Os conservadores também redirecionaram seus ataques para Carney. Antes das tarifas de Trump, eles publicaram anúncios dizendo que ele é "exatamente como Justin" em uma tentativa de ligá-lo a Trudeau. Mas, nas últimas semanas, os conservadores começaram a investigar a lealdade de Carney ao Canadá.
Especificamente, eles questionaram se ele teve algum papel na mudança da sede da Brookfield Asset Management — uma empresa de investimentos canadense — de Toronto para Nova York quando ele atuou como presidente.
Carney respondeu que havia deixado a empresa quando a decisão foi tomada, mas documentos da empresa relatados pela emissora pública CBC mostram que o conselho aprovou a mudança em outubro de 2024, quando Carney ainda estava na Brookfield.
A medida, e a equívoco de Carney sobre seu envolvimento com ela, foi criticada pelo conselho editorial do maior jornal do Canadá, o Globe and Mail, que escreveu na quinta-feira (06/03) que Carney deve ser transparente com os canadenses.
De forma mais ampla, o jornal escreveu: "Todo líder partidário deve entender que o Canadá está entrando em um período de incertezas que dura anos. O próximo primeiro-ministro terá que apelar à confiança dos canadenses para liderar o país para onde ele precisa ir, mas pode não querer ir."
Dada a ansiedade que repercute entre os canadenses, Lyle diz que qualquer ambiguidade sobre a lealdade de Carney ao país pode ser prejudicial para ele e para os liberais.
Não importa quem vença a eleição, uma coisa é certa: Trump continuará a influenciar e remodelar a política canadense, assim como fez nos EUA.
( da redação com BBC. Edição: Politica Real)