Proposta de Donald Trump de “tomar de conta” de Gaza é rejeitada por lideranças mundiais e do Oriente Médio; Presidente Lula disse, hoje, que a postura de Trump "não tem sentido"
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( Publicada originalmente às 08h 48 do dia 05/02/2025)
Com agências.
(Brasília-DF, 06/02/2025) Surprendente. Ontem, 3, à noite o anúncio feito pelo presidente dos EUA, Donald Trump de que os EUA poderiam "tomar conta" da Faixa de Gaza depois de sua população ser permanentemente deslocada para outros países, foi condenado em todo o Oriente Médio e não só - e celebrado por membros do gabinete de Israel.
Numa conferência de imprensa com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Washington, Trump declarou que "os EUA vão tomar conta da Faixa de Gaza e vamos fazer um bom trabalho com ela".
Trump afirmou que os palestinos "não podem viver em Gaza neste momento" e que o enclave - que foi devastado por 15 meses de guerra entre Israel e o Hamas - poderia ser transformado na "Riviera do Oriente Médio".
Trump disse que a decisão não foi "tomada de ânimo leve" e afirmou que tinha o apoio de alto nível de líderes não identificados com quem supostamente discutiu a ideia.
O americano indicou Egito e Jordânia como possíveis destinos para os palestinos de Gaza durante a suposta reconstrução pelos EUA, embora vários países no Oriente Médio já tenham rejeitado essa ideia antes.
"Acho que eles [palestinos de Gaza] deveriam receber um bom, fresco e bonito pedaço de terra, e nós conseguiríamos que algumas pessoas investissem dinheiro para construí-lo, torná-lo agradável", declarou Trump, afirmando que "a coisa de Gaza não funcionou".
O presidente americano rejeitou que seu plano tivesse qualquer relação com uma "solução de dois Estados" (caminho apoiado internacionalmente como solução para a paz entre Israel e os palestinos).
O líder isralense, Benjamin Netanyahu, afirmou que os planos de Trump são uma ideia "que vale a pena se prestar atenção".
Para Netanyahu, o americano vê "um futuro diferente para Gaza".
"Acho que é algo que poderia mudar a história", afirmou o israelense.
O primeiro-ministro também disse que "Israel acabará com a guerra vencendo a guerra" — em meio a um cessar-fogo em Gaza que interrompeu, por enquanto, 15 meses de conflito entre Israel e o Hamas.
Reações
Riyad Mansour, líder da delegação palestina nas Nações Unidas, afirmou que os palestinos em Gaza deveriam ser autorizados a regressar às suas "casas originais" em Israel, em vez de serem transferidos para outros países, como sugerido por Trump.
"Para aqueles que querem enviar os habitantes de Gaza para um lugar agradável e feliz, deixem-nos voltar para as suas casas originais em Israel", disse Mansour. "Há lá lugares agradáveis e eles ficarão felizes por regressar a esses lugares".
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita emitiu um comunicado em que afirmava rejeitar qualquer tentativa de deslocar os palestinos da sua terra natal e que não estabeleceria relações com Israel sem um Estado palestiniano.
"A Arábia Saudita continuará a envidar esforços para criar um Estado palestiniano independente, com Jerusalém Oriental como capital, e não estabelecerá relações diplomáticas com Israel sem esse Estado", afirma o comunicado.
A posição da Arábia Saudita é "inegociável", acrescenta a nota.
No sábado, um grupo de nações árabes, incluindo o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita, já tinha rejeitado uma sugestão anterior de Trump para que os habitantes de Gaza fossem transferidos para países vizinhos, escrevendo numa declaração conjunta que qualquer plano que encoraje a transferência ou o "desenraizamento" dos palestinianos ameaçaria a estabilidade na região.
Numa conferência de imprensa já esta quarta-feira, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China disse que Pequim se opõe à "transferência forçada" de palestinianos da Faixa de Gaza, acrescentando que "sempre defendeu que o governo palestiniano sobre os palestinianos é o princípio básico da governação de Gaza no pós-guerra".
O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, afirmou que o seu governo continua a apoiar uma solução de dois Estados no Médio Oriente, "onde israelitas e palestinianos possam viver em paz e segurança".
"A posição da Austrália é a mesma que tinha esta manhã e que tinha no ano passado", disse Albanese numa conferência de imprensa.
O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, rejeitou na proposta do presidente dos Estados Unidos e ressaltou que o enclave é uma "parte integral" do Estado palestino. "Não permitiremos que os direitos do nosso povo, pelos quais lutamos há décadas e pelos quais fizemos grandes sacrifícios, sejam violados", disse Abbas em uma mensagem.
O oficial do Hamas, grupo palestino considerado uma organização terrorista pela União Europeia e os EUA, Sami Zuhri, chamou os comentários de Trump de "ridículos e absurdos". "Qualquer ideia desse tipo é capaz de incendiar a região", disse.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a postura de Trump "não tem sentido". "Os Estados Unidos participaram do incentivo a tudo que Israel fez na Faixa de Gaza. Então não tem sentido se reunir com Netanyahu e dizer vamos ocupar Gaza, recuperar Gaza e morar em Gaza. E os palestinos vão para onde? Onde eles vão viver? Qual é o país deles? É uma coisa incompreensível. As pessoas precisam parar de falar o que lhes vem na cabeça e precisam começar a falar o que é razoável", afirmou em entrevista a rádios de Minas Gerais na manhã desta quarta-feira.
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Em Israel, a sugestão de Trump foi recebida com elogios pelos membros de extrema-direita do gabinete de Netanyahu, que expressaram uma desaprovação feroz a um frágil acordo de cessar-fogo que se estabeleceu entre Israel e o Hamas em janeiro.
O antigo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir - que se demitiu do governo israelita em protesto contra o acordo de cessar-fogo - publicou nas redes sociais: "Donald, isto parece ser o início de uma bela amizade".
Ben Gvir disse também à rádio israelita que o seu regresso à coligação governamental de Netanyahu era mais provável na sequência da proposta de Trump.
O ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, agradeceu a Trump em hebraico numa publicação no X onde proclamou a notícia "cada vez melhor", acrescentando emojis das bandeiras de Israel e dos EUA.
Por seu lado, Netanyahu descreveu Trump como o "maior amigo que Israel já teve na Casa Branca" e elogiou-o por "pensar fora da caixa com ideias novas".
( da redação com Euro News e BBC. Edição: Edição Política Real)