31 de julho de 2025
Brasil e Poder

Em conversa com apoiadores, Bolsonaro reclama de CPI, fala que fome é consequência do fique em casa, ataca ministros do STF e oposição e diz que está “aguardando o povo a dar uma sinalização” para “tomar providências”

Presidente voltou a dar declarações aos seus militantes; nesta quarta, ele falou por mais de 21 minutos aos simpatizantes do seu governo e disse também que sua gestão tem como missão terminar as obras inacabadas espalhadas pelo país

Publicado em
529e4d534cd8f9a6fff8f2a19eb77ed2.png

( Publicada originalmente às 12h00 do dia 14/04/2021) 

(Brasília-DF, 15/04/2021) Em conversa com seus apoiadores, militantes e simpatizantes do seu governo no final da manhã desta quarta-feira, 14, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), reclamou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) – que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou o Senado Federal constituir para investigar os possíveis crimes e omissões praticados pela sua gestão a frente das medidas de combate a pandemia do novo coronavírus, que já matou mais de 358 mil brasileiros.

Na oportunidade, num discurso ameaçador, falou que a fome hoje no país é consequência das orientações do fique em casa, atacou os ministros da Suprema Corte e também a oposição e diz que está “aguardando o povo a dar uma sinalização” para ele “tomar providências”. Numa conversa, em que mais falou, do que ouviu, Bolsonaro discursou por mais de 21 minutos, onde destacou que a sua administração a frente da máquina pública federal tem como missão concluir as obras inacabadas, espalhadas pelo país, e que foram deixadas em abandono pelos governos anteriores. “Muita obra do governo federal pelo Brasil. Muita obra inacabada que estamos continuando, até por que obra inacabada é dinheiro jogado fora”, anotou.

“Prestem atenção, pessoal. Só para curiosidade. Desde o começo a imprensa bate em mim, né? Aos poucos, a verdade vem aparecendo. Correio Braziliense: ‘Brasil tem 125 milhões de pessoas’, mais da metade da [população] ‘que não sabem se vão se alimentar bem’. E embaixo [sic] vem: ‘famílias com rendas mais baixas sofrem com alta dos alimentos’. Ok? Correio Brasiliense. O que eu falei em março do ano passado? Aquela política fica em casa e a economia vem depois, estão vendo. Quero ver, agora, se a imprensa vai culpar os verdadeiros responsáveis. Ou vai continuar apoiando a política do lockdown?”, iniciou ao criticar mais uma vez as medidas de restrição na circulação de pessoas adotadas por alguns estados e municípios com o intuito de frear a transmissibilidade do covid-19.

“Eu dei um exemplo ontem [13] e eu conversei com o coronel Mello Araújo, da Ceagesp [Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo], ele falou para mim que os produtores de tomate, né? Estavam deixando de produzir e jogando fora por que não tem mais restaurante aberto, não tem mais quitanda aberta, consequência quando voltar a abrir, vai ter que plantar de novo e demora um pouquinho, e tem gente que fazendo assim [estala os dedos] os tomates aparecem nas prateleiras. [Com isso] vai ter escassez e o que acontece quando tem escassez? O preço sobe, vem inflação, vão culpar quem? Olha, o Brasil está no limite. O pessoal fala que eu devo tomar providências, eu estou aguardando o povo a dar uma sinalização. Por que a fome, a miséria, o desemprego está aí e só não vê quem não quer. Ou quem não está na rua. Eu sempre estive na rua. Sempre tive na rua. As últimas saídas minhas aqui foi [sic] em comunidades de Brasília. Chaparral, Itapuã, são Sebastião. As pessoas que me autorizaram, eu entrava na casa e abria a geladeira lá. Já tive na Ceilândia, Taguatinga também”, continuou.

“Barril de pólvora”

Na sequência, Bolsonaro observou que o país está um “barril de pólvora” e “na iminência” de termos um “problema sério”. Mas ele não especificou que medidas ele tomará, se receber a tal “sinalização” da população e nem que “problema sério” é esse que o Brasil está prestes de enfrentar.

“Esse pessoal amigo do Supremo Tribunal Federal daqui a pouco vamos ter uma crise enorme aqui. Eu vi que um ministro despachou lá para me processar por genocídio. Olha, quem fechou tudo e quem está com a política na mão, não sou eu. Agora eu não quero aqui brigar com ninguém. Mas estamos na iminência de ter um problema sério aqui no Brasil. O que vai nascer disso tudo? Onde vamos chegar? Parece um barril de pólvora que está aí. Tem gente de paletó e gravata que não quer enxergar isso daí. Acha que a vida é o serviço dele, casa, ou home-office. No terno de paletó e gravata, o dinheiro na conta no final do mês sem problema nenhum e o povo que se exploda! Eu não estou ameaçando ninguém, mas tô achando previamente que vamos ter um problema sério no Brasil. Dá tempo de mudar ainda. É só usar menos a caneta e um pouco mais o coração”, complementou.

Ataques à esquerda

Em seguida, em meios aos ataques ao ministro do STF, Edson Fachin, o presidente brasileiro disparou também contra o Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST), contra o governador da Bahia, Rui Costa (PT), e também contra o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu.

Bolsonaro aproveitou também para falar dos segredos de Estados de Cuba, do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, da entrada da Venezuela no Mercosul, além de voltar a criticar a decisão do Congresso Nacional de 2.013 que anulou a sessão de 02 de abril de 1.964 que destituiu o ex-presidente João Goulart (PTB).

“Hoje eu botei um vídeo de uma senhora do Sul da Bahia, lamentável. Estava lá no assentamento e nós estamos ali ultimando a titularização da terra. Daí a poucos meses teve o conflito, o pessoal do MST começou a destruir casas, bater dar pancadas e nós mandamos a Força Nacional para lá. O que que o ministro Fachin do Supremo Tribunal Federal fez atendendo a uma solicitação do governador Rui Costa do PT? Mandou a Força se retirar de lá. O MST voltou agredindo as pessoas. Esse Fachin, esse ministro, é o mesmo que disse que a Polícia Militar do Rio de Janeiro, disse não, escreveu, que não poderia fazer operações em comunidades e depois proibiu também que helicópteros da Polícia sobrevoasse a região. Eu não vou complementar aqui não. Então o que que está acontecendo? Teremos um problema sério no Brasil. E hoje pessoal, recomendo a leitura, lógico com olhar crítico, o escritor José Dirceu no Poder 360 deu uma declaração sobre os erros do nosso governo. O dele foi uma maravilha. Está dando o recado para alguém. Não é para mim. Por que eu conheço a figura desde a muito, desde 91 eu conheço o cidadão. Mas tudo bem, vamos lá”, completou.

Covid superestimado

Bolsonaro falou ainda que a doença respiratória que vem sobrecarregando os hospitais no país é uma enfermidade superestimada no país e que hoje “tudo é covid”.

“Tem doença que simplesmente que o vírus não acabou. Problema de coração praticamente acabou no Brasil. Morre pouca gente. Morre de doença respiratória também e tudo é covid. Lamentamos, morre gente, lamentamos quem perdeu a vida. Amigos meus estão com situação complicada, hospitalizados, sabemos disso. Mas temos que enfrentar esse problema. Vai viver a vida toda com esse vírus, infelizmente”, comentou.

Morte de deputado

O presidente também prestou condolências aos familiares do deputado Schiavinato (PP-PR), que faleceu na noite desta última terça-feira, 13, por complicações causadas pelo covid. “Fiquei sabendo. [Era] do meu ex-partido, PP. Tinha a minha idade, 66. lamento pelo deputado que faleceu”, registrou.

CPI

Por fim, Bolsonaro encerrou sua fala voltando suas baterias contra a CPI, contra governadores e prefeitos, que, segundo ele, “fizeram uma festa” com os recursos do governo federal enviado para o combate a pandemia, ao mesmo tempo em que demonstrou estar encurralado por seus adversários e que espera um sinal da população para agir.

“Por que me investigar e não investigar quem pegou os recursos na ponta da linha?Mandamos recursos. Foram aproximadamente R$ 300 bilhões, aí contado o auxílio emergencial, por que quem tem salário todo mês, leva a vida. Mas nós levantamos naquele momento 38 milhões de pessoas que vendiam o churrasquinho de gato, vendia biscoito na praia, vendia picolé na arquibancada do futebol, uma água no sinal de trânsito. E a grande maioria, trabalha de manhã, para comer de noite. E esse pessoal ficou sem nada e nós implementamos o maior projeto social do mundo. Seis ou sete de R$ 600,00, e mais quatro ou três de R$ 300,00, para atender esse pessoal aí”, reclamou.

“Agora, mandamos recursos, fizeram hospitais de campanha maravilhosos. Inclusive, o do Rio de Janeiro, acredite, um dos hospitais para o Rio de Janeiro para jardinagem foram R$ 25 milhões. Você morrendo, o povo numa situação complicada e o cara gastou R$ 25 milhões com jardinagem. Foi cassado lá o governador. Outro está afastado, sendo processado. Não são todos, né? Foi a minoria, mas fizeram a festa. Nós temos mais de 100 operações da PF em cima desse pessoal. E querem me investigar, pô? Até falei naquele momento [na conversa que foi gravada pelo senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO)], por que o Barroso não determina que se investigue colegas [dele] do Supremo Tribunal Federal, já que tem processo de impeachment contra eles? Por que só para cima de mim? Que Supremo é esse? Eu não quero falar do Supremo, mas que ministros são esses? Daí me liga o Kajuru, ele me ligou, conversei com ele e no dia seguinte ele me ligou novamente, conversei com ele novamente e falou que editou aqui uns trechos ofensivos, fiquei quieto. O cara me gravou. Vou falar o quê com ele? Daí ele divulgou e aí falei divulga tudo, não tem problema. Igual aquela sessão secreta nossa, lembra? 29 palavrões. Daí se cria esse clima de animosidade. É uma interferência, sim, desse ministro junto ao Senado para me atingir”, desabafou.

“Temperatura subindo”

O presidente encerrou destacando que a “temperatura está subindo” e que espera que o STF decida que a vida volte ao normal com a população voltando ao trabalho.

“Agora, repito. A temperatura está subindo. A população está cada vez mais com a situação complicada. Eu gostaria que o pessoal que usa paletó e gravata, que decide, visite a periferia, conversa com a população e com a sua empregada doméstica, essa não está impedida de trabalhar. Tem que trabalhar. Aí a gente vê uma autoridade falar em home-office, mas lá no fundo tem uma empregada ralando lá, ou está ligando para pegar um pizza quentinha em casa. Por que continua política de lockdown pelo Brasil todo, por alguns governadores. Tem governador que está lá no decreto que pode confiscar bens e imóveis. Tem um estado que está proibindo o carro de um município para outro, continua fechando o comércio. Olha São Paulo, como é que está. Não justifica o que tem feito e continuam fazendo. Deram poderes aos prefeitos mais amplos que eu poderia ter junto com o parlamento de decretar estado de sítio”, disparou.

“O artigo quinto da Constituição deixou de existir para alguns governadores e para alguns prefeitos. Isso não é viver numa democracia numa situação de tranquilidade. Como da fome está batendo agora, vai sobrar daqui a pouco consequências destes atos arbitrários que alguns estão tomando na pandemia”, finalizou.

(por Humberto Azevedo, especial para a Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)