31 de julho de 2025
Brasil e Saúde

VACINAS: Após líder do governo Bolsonaro, Fernando Bezerra Coelho, defender que quebra de patente de vacinas deve ser discutida na OMC, Simone Tebet dispara: “doa a quem doer, é preciso ter coragem”

Emedebista sul-matogrossense reclamou ainda da “cegueira política” daqueles que não querem quebrar as patentes das vacinas contra a doença, que já matou mais de 340 mil brasileiros

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(Publicada originalmente às 20h00 do dia 07/10/2021) 

(Brasília-DF, 08/04/2021) Após o líder do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), defender que o assunto quebra de patente de vacinas contra o novo coronavírus (covid-19) deve ser discutida exclusivamente no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) disparou: “doa a quem doer, é preciso ter coragem” para quebrar as patentes dos imunizantes – que já mataram, até o momento, mais de 340 mil brasileiros.

A declaração acalorada da emedebista sul-matogrossense aconteceu após o colega de partido e aliado de Bolsonaro dizer que se recusava a “percorrer atalhos fáceis”e aposta na defesa de uma ação multilateral em organismos internacionais, como a OMC, para quebrar de patente dos imunizantes que impedem que a doença respiratória avance para casos graves. Na oportunidade, Tebet – correligionária de Bezerra Coelho, reclamou ainda da “cegueira política” daqueles que não querem quebrar as patentes das vacinas que servem para salvar vidas.

“Nós todos queremos salvar vidas e nos indignamos com as 4 mil mortes por dia. Todos queremos buscar os instrumentos necessários para que os brasileiros possam atravessar essa situação com o menor prejuízo possível. Meu apelo é a forma como nós queremos atingir isso. Está se querendo tomar uma decisão unilateral de quebra de patente que nem a Índia, nem a África do Sul enveredaram por esse caminho. O que eles defendem é uma ação multilateral dentro da OMC. (…) Ainda hoje, mais de 30 países não aplicaram uma dose de vacina sequer. Esse desequilíbrio, essa desigualdade nos indigna a todos, mas a forma proposta para o Senado votar é errada. É equivocada. Uma decisão apressada, açodada poderá, inclusive, obstaculizar o acesso de vacinas para o nosso país”, pronunciou o senador emedebista pernambucano e líder governista naquela Casa.

“Já me antecipo aqui pedindo desculpas pela veemência das palavras, mas, na mesma linha da senadora Kátia Abreu (PP-TO), da senadora Rose [de Freitas] (MDB-ES) e do senador [Paulo] Paim (PT-RS), eu me encontro extremamente emocionada neste momento. Estamos cansados de ouvir de parte de alguns colegas, notadamente em relação a esse tema relevante, que é preciso ter paciência, que não podemos ocupar ou escolher atalhos mais fáceis. Nada é fácil; nenhuma decisão do Congresso Nacional é fácil e de nenhum parlamentar. Esse é um tema da mais alta relevância. Não dá para ter paciência nem esperar. A cada 24 horas, nós estamos falando de uma média de três mil irmãos, filhos, pais e mães falecendo por conta desse vírus mortal”, rebateu Simone Tebet.

“É um vírus que ataca por meio de uma doença respiratória letal, que é capaz de matar, em questão de dias e, às vezes, em questão de horas, pessoas saudáveis no Brasil. Já matou milhões, vai matar dezenas de milhões se nós não fizermos nada. O mundo é o epicentro da pandemia, Querer comparar o mundo com a China, com a Índia, que querem ou não quebrar a patente, é, no mínimo, uma cegueira política das mais graves deste país. Doa a quem doer, é preciso ter coragem, sr. Presidente; é preciso que nós fiquemos aqui. E, neste debate, eu lamento muito estarmos no plenário virtual e termos apenas cinco minutos. Eu peço e falo não como Líder, mas como Senadora: retire a minha palavra na sessão de amanhã, mas me dê, pelo menos, de seis a sete minutos a mais para que eu possa expor aquilo que tentei em uma questão de ordem e não pude fazer”, continuou a senadora que é a líder da bancada feminina no Senado.

“Lobbies poderosos”

Na sequência, Simone Tebet afirmou que o parlamento está enfrentando “lobbies poderosos” e também o “negacionismo” adotado por algumas autoridades federais como o próprio atual presidente da República, Jair Bolsonaro, que insiste na adoção de medicamentos que não possuem comprovação científica para tratar a covid e em dezenas de oportunidades desdenhou a compra de vacinas, como em agosto de 2.020 – quando disse não a oferta do laboratório Pfeizer, que é o único imunizante que possui registro em definitivo no país, mas nenhuma dose aplicada.

“Nós estamos enfrentando lobbies poderosos. Além de lobbies, nós ainda estamos enfrentando, dentro do próprio governo federal, negacionistas que se recusam a entender que são vidas, pessoas de carne e osso que estão sofrendo hoje, aos milhares, nos nossos hospitais. E a cura, sr. Presidente, está na vacina, a cura para essa asfixia global, porque estamos morrendo sufocados; está na produção das vacinas, que hoje está na mão de seis ou cinco ou sete laboratórios, que controlam, através de oligopólios [o mercado]. Eles controlam a produção, eles controlam para quem vender, eles controlam os valores, quem compra, e, o que é pior, a industria escolhe para que país vender primeiro e escolhe o preço que vai cobrar de cada país. Os países menos desenvolvidos, inclusive, estão tendo que pagar mais por essa vacina, sr. Presidente”, complementou a senadora.

“Então, nós precisamos enfrentar com seriedade. Esse projeto do senador [Paulo] Paim (PT) era apenas o primeiro passo. [É preciso] discutir agora. Não interessa o que Câmara dos Deputados está discutindo. Graças a Deus, teremos uma audiência amanhã – eu peço, pelo menos, mais três minutos, sr. presidente, e amanhã eu prometo assistir à sessão sem usar a palavra em nenhum momento, mas este é um momento em que a bancada feminina quer se pronunciar e precisa se pronunciar. O pior de tudo é que nós estamos aqui diante de um time, no Brasil, de excelência. Se fôssemos comparar a um campo de futebol, a um time de futebol, dizer que o Brasil não tem laboratórios, que não tem cientistas, que não tem quem produza a vacina, repito, é diminuir a capacidade brasileira. Nós temos o melhor Plano Nacional de Imunização, o maior plano de imunização do Planeta, mas estamos com o campo vazio, tendo o nosso melhor time no vestuário, sem conseguir sair!”, completou a emedebista.

Pedido

Por fim, Tebet lamentou morte de quatro mil brasileiros a cada dia e pediu que todos no Senado enxerguem a gravidade da situação e aprove logo uma medida que permitirá que diversos laboratórios farmacêuticos consigam produzir, em larga escala, os imunizantes necessários em tempo célere para vacinar toda a população do Brasil e das nações em desenvolvimento, que não possuem condições financeiras para adquirir os imunizantes

“Nós temos 4 mil torcedores, no mínimo, sumindo das arquibancadas todos os dias, porque falecem antes de ver esse jogo terminar com final feliz. Estamos perdendo por W.O., sr. presidente, contra o coronavírus. Não podemos continuar nesse caminho, é nossa responsabilidade enfrentarmos esse problema. Eu não vou discutir o projeto, eu já vi o substitutivo. Não vou discutir e, com toda humildade, tenho condições de defendê-lo juridicamente: a sua constitucionalidade, a sua legalidade, a sua oportunidade. Não é dessa questão que tratamos”, destacou.

“Mais do que um grito, sr. Presidente, esse projeto pode ser a única saída, repito, a única saída para vencermos essa guerra. Hoje, o coronavírus está ganhando de goleada, com essa nova cepa, que está chegando aí primeiro, infelizmente, no seu Estado – a minha solidariedade a todo o povo mineiro e a todo o povo brasileiro –, mas com essa cepa, se vier mais letal, nós estaremos falando aí de números estratosféricos em termos de mortes. A quebra de patentes significa conseguirmos, sim, em nossos laboratórios, quebrando patentes, tendo a fórmula e tendo os insumos, colocar a vacina no braço de cada brasileiro”, encerrou.

Mesma linha

Na mesma linha da senadora Simone Tebet, o líder da minoria – senador Jean Paul Prates (PT-RN) também se pronunciou.

“Mais de 80 nações do mundo são favoráveis à quebra temporária de patentes para assegurar a disponibilidade de vacinas contra a Covid-19 em larga escala. Este não é o momento das empresas farmacêuticas lucrarem nas costas da população. É o momento de salvar vidas. Toda ação que contribua para acelerar a imunização, em âmbito mundial, é imperiosa. Grandes indústrias farmacêuticas dos países desenvolvidos receberam volumes generosos de recursos públicos para desenvolverem as vacinas contra a covid-19. Não há, portanto, motivos econômicos para não suspender essas patentes”, comentou.

“No Brasil, atual epicentro da pandemia, a quebra de patentes fortalecerá o Complexo Industrial de Saúde brasileiro, ampliando nossa capacidade de produção de vacinas. Colateralmente, a medida vai gerar empregos, investimentos e aumento da capacidade instalada. Não podemos ficar de braços cruzados e dependentes da inércia do governo Bolsonaro diante da redução constante de doses disponíveis e interrupção da vacinação. Quanto mais rápido agirmos, menos vidas serão perdidas!”, finalizou o petista potiguar.

 

(por Humberto Azevedo, especial para a Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)