31 de julho de 2025
Brasil e Poder

Entidades religiosas apresentam pedido de impeachment de Bolsonaro por negligência no combate à doença que já matou mais de 218 mil brasileiros

Esse é o pedido de número 63 que tenta afastar o atual presidente brasileiro do posto; os pedidos vem se avolumando desde 2.019 e até o momento o ainda presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, só avaliou um único pedido em que arquivou

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Mais um pedido de Impeachment chega ao Congresso

( Publicada originalmente às 18h36 do dia 26/10/2021) 

(Brasília-DF, 27/01/2021) O 63º pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi apresentado nesta terça-feira, 26, na Câmara dos Deputados. Assinado por 380 representantes de entidades e movimentos católicos e evangélicos de todo o país, o documento aponta como argumento central para o afastamento de Bolsonaro do Poder Executivo federal a sua suposta negligência diante da pandemia do novo coronavírus (covid-19), que já matou no Brasil mais de 218 mil brasileiros, o que torna o país o segundo maior país com o número de óbitos atrás apenas dos Estados Unidos da América (EUA).

O pedido concentra-se na denúncia dos crimes de responsabilidade referentes à área de saúde, ao eventual manejo “criminoso” das políticas sanitárias durante a pandemia, o não acesso à vacina e o desprezo à vida da população brasileira, com a usurpação do direito à saúde previsto na Constituição Federal. Para os religiosos, Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade e desrespeitou princípios constitucionais, além do direito à vida e à saúde. Até o momento, os pedidos de impeachment vem se avolumando desde 2.019 e o ainda presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), só avaliou um único pedido em que decidiu pelo arquivamento.

“Gripezinha”

As declarações de Bolsonaro durante a pandemia, como por exemplo quando ele afirma que a doença era uma simples “gripezinha”, são citadas no pedido de impeachment. Entre os signatários estão dom Naudal Alves Gomes, bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, e dom José Valdeci Santos Mendes, bispo de Brejo (MA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransfomadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Os líderes religiosos afirmam que Bolsonaro atuou contra as recomendações de autoridades sanitárias, desrespeitou regras de obrigatoriedade de uso de máscaras, promoveu e estimulou aglomerações, colocou em dúvida a eficácia das vacinas e promoveu obstáculos à aquisição de imunizantes. Além de também ter feito campanha pelo uso de medicamentos e tratamentos não corroborados pela comunidade científica, como o uso da cloroquina, o que resultou, entre outras consequências, na pressão do Ministério da Saúde para uso dos medicamentos sem eficácia comprovada em Manaus, ao mesmo tempo em que se esgotava o estoque de oxigênio naquela cidade.

“As ações e omissões de Jair Bolsonaro, que seguem em repetição e agravamento, levaram e seguem levando a população brasileira à morte e geraram danos irreparáveis. Isso é crime de responsabilidade. Crime contra os direitos e os princípios constitucionais mais primários: à vida e à saúde”, dizem os religiosos num trecho do pedido de impedimento do 38º presidente da história da República.

Presidente “irresponsável”

Os religiosos lembram ainda que Bolsonaro, em várias ocasiões, tratou a pandemia com menosprezo e referiu-se às vítimas em tom depreciativo, como quando reagiu com um “e daí?”, quando disse não ser “coveiro” e que o Brasil precisava deixar de ser um país de “maricas”, além de ter qualificado a doença mortal como um “resfriadinho’’.

Trata-se da primeira iniciativa de segmentos religiosos em favor do impeachment do presidente. Segundo Romi Márcia Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a negligência de Bolsonaro chegou ao ápice com a crise recente em Manaus, no Amazonas, onde pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio, em decorrência da demora do atual governo em adotar medidas que visassem a solução dos problemas ali já verificados.

“O sufoco de Manaus é do país todo, onde à população está abandonada por um governo que negligencia a vida”, destacou o religioso em entrevista coletiva à imprensa na Câmara dos Deputados.

Momento crucial

Na lista de apoiadores do documento estão padres católicos, anglicanos, luteranos, metodistas e também pastores de inúmeras igrejas pentecostais e neopentecostais, que não possuem uma liderança nacional. O grupo tem o respaldo de organizações como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a Comissão Nacional de Justiça e Paz, ligada à CNBB, assim como a Aliança das Igrejas Batistas do Brasil.

O bispo Maurício Andrade, da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sociotransformadora da CNBB, afirmou que o Brasil encontra-se em um momento crucial de “enfrentamento a um governo que negligencia a vida da população”. Já bispo Carlos Daniel Dell Santo Seidel, da Comissão Brasileira Justiça e Paz da CNBB, afirma que Bolsonaro tem cometido uma série de crimes. “Milhares de pessoas morrem pelo descuido do governo e o presidente comete crimes ao desestimular a população a tomar vacinas contra a Covid-19”, destacou.

Impeachment já

A presidenta nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), e os líderes da Minoria na Câmara, José Guimarães (PT-CE), e no Congresso, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), participaram do evento em que os líderes religiosos anunciaram o pedido de impeachment.

Gleisi destacou a importância da incorporação de líderes religiosos ao movimento pró-impeachment de Bolsonaro, observando que o País permanecerá “sem vacina e com plena instabilidade” enquanto Bolsonaro estiver no poder.

Guimarães afirmou que o Brasil “não aguenta mais um governo genocida” e destacou que o impeachment de Bolsonaro é uma das questões centrais do Congresso Nacional. Zarattini assinalou que o governo Bolsonaro “é da destruição nacional” e precisa ser impedido o mais rápido possível.

(por Humberto Azevedo, especial para a Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)