31 de julho de 2025

Nordeste e os Biocombustíveis. O “boom”do etanol chama atenção para o nordestinos no Sudeste brasileiro.

Empresários alagoanos e boas-frias maranhenses estariam fazendo “história” em Minas Gerais.

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( Brasília-DF,14/05/2007) A Política Real teve acesso. Ontem, 13, no dia das mães e da abolição da escravatura, no Brasil, foi revelado mais uma vez como a ingtegração nacional é uma busca sem dia certo para terminar.

Os jornais  “O Estado de Minas” e o “Correio Braziliense”, publicações dos Associados, publicaram uma longa matéria assinada pelo jornalista Amaury Junior em que que observa o “boom”do etanol no Triângulo Mineiro, tida como uma das regiões mais ricas de Minas Gerais, o único Estado do Sudeste que tem dna nordestino, face ao semi-árido que atinge a região do alto Jequitinhonha. O Triângulo está longe da pobreza nordestina. Na matéria o jornalista evita expor algum tipo de preconceiro contra nordestinos, porém revela como os nordestinos podem ser capitalistas e trabalhadores numa realidade bem longe de seu tradicional território.

O Grupo Lira, do ex-deputado federal e ex-candidato a governador derrotado de Alagoas, João Lira - controlaria usina de álcool, ou etanol como dizem os americanos do Norte, naquela região do Brasil e estaria usando os maranhenses como boas-frias, que são, como já noticiou a Política Real o povo que mais migra hoje no Brasil e no Nordeste assim como o povo que mais sofre com o trabalho escravo, como, também, já noticou a Política Real a partir de informações que nos foram repassada pelo Escritório da Organização Internacional do Trabalho, OIT.

Veja a íntegra da matéria:


A matéria é assinada pelo jornalista Amaury Ribeiro Junior

“Riqueza da cana gera violência


Delta (MG) - A febre da cana-de-açúcar está transformando alguns municípios do Triângulo Mineiro, uma das regiões mais tradicionais de Minas Gerais, em abrigos de bandidos e miseráveis. Uma verdadeira terra de ninguém. Impulsionados pelo interesses do governo dos EUA no etanol brasileiro, usineiros alagoanos e paulistas passaram a disputar, palmo a palmo, cada pedaço de terra da região. Em menos de quatro anos, 300 mil hectares de cana-de-açúcar foram plantados em antigas áreas de pastagens e de agricultura. A instalação de uma dezena de usinas novas, próximas ao município de Uberaba, gerou a criação de 10 mil empregos e contribuiu para que a produção de álcool no estado saltasse de 630 milhões de litros em 2003 para 1,7 bilhão este ano.

Mas os problemas das grandes metrópoles também não demoraram a chegar. Assaltos à mão armada, assassinatos em série, tráfico de drogas e até mesmo o comércio de crianças e adolescentes passaram a fazer parte da rotina de vários municípios, que até há pouco tempo viviam em paz e harmonia. Moradores e autoridades locais são unânime em dizer que a ocupação desordenada é responsável pela onda de miséria e de violência que passou a assombrar esses rincões mineiros.

Iludidos por uma rede “gatos” (intermediadores de trabalhadores rurais), com a promessa de emprego digno, todos os anos mais de 20 mil bóias-frias do Maranhão, de Alagoas e de outros estados nordestinos se deslocam ao Triangulo Mineiro e ao Alto Paranaíba para trabalhar no corte de cana. Esses novos moradores da região, em sua maioria, são trabalhadores honestos, maltratados pela vida, que tentam fugir da seca e da fome do Nordeste. Só que, infiltrados em meio a esses bóias-frias, uma legião de traficantes, assaltantes, gigolôs aliciadores de menores passou também a ocupar de forma desordenada os municípios próximos às usinas. Localizado às margens do Rio Grande, na divisa com o estado de São Paulo, o município de Delta, que na época da safra dobra sua população de 5 mil para 10 mil habitantes, é o exemplo da desordem e do caos urbano causados pelo corte de cana. Apelidados de “maranhenses”, os forasteiros, amontoados em barracas e favelas, transformaram o município num verdadeiro “formigueiro humano”, nos moldes do garimpo de Serra Pelada, que atraiu, na década de 1980, milhares de forasteiros ao Sul do Pará. A exemplo de áreas de garimpo, Delta não tem nenhum hotel e em mesmo um delegado residente. Em compensação, passou abrigar centenas de prostitutas, espalhadas por 27 boates e casas de prostituição.

“O município está em colapso. Os postos de saúde, hospitais e escolas estão abarrotados. E o pior é que junto com os trabalhadores vem toda espécie de gente e bandido”, desabafa o prefeito de Delta, José Eustáquio da Silva (PMN).

De acordo com o prefeito, nos últimos três anos, quando a usina do grupo Delta de Alagoas praticamente duplicou a produção de cana-de-çúcar e álcool, a onda de crime passou a assombrar a cidade. Somente este ano, a sede dos Correios na cidade foi invadida por bandidos quatro vezes e três pessoas morreram, assassinadas com requintes de crueldade. Os constantes assassinatos alimentam a crença de moradores supersticiosos de que a cana é “coisa do diabo”. A superstição surgiu no ano passado, quando o cortador de cana baiano Marcos Antônio de Jesus Martins, de 24 anos, o Marquinhos, matou, a golpes de faca, o padre da cidade José Carlos Cearense e os indigentes Wanderson Luiz Cunha e Josimar Nunes. Interrogado pela polícia, ele disse que tinha feito um pacto com o diabo: em troca de ficar rico, mataria sete pessoas. Aconselhado por um pastor, o cortador de cana, para alívio dos moradores, resolveu se entregar às autoridades antes que pudesse liquidar as outras quatro vítimas.

AUMENTO DE HOMÍCÍDIOS “Municípios como Delta e Conquista passaram a ter, em média, oito assassinatos por ano. Se levarmos em conta que algumas cidades ficavam até 10 anos sem ter um crime dessa natureza, o crescimento da violência depois da proliferação da cana é incalculável”, afirma o delegado de homicídios de Uberaba, Heli Andrade, conhecido como Grilo. De acordo com as estatísticas do policial, o número de homicídios em Uberaba cresceu de 34, em 2005, para 60 no ano passado. Somente na semana passada houve quatro assassinatos no município.


O tráfico de crianças e adolescentes também começou a vir à tona. Em março, a polícia do Rio Grande do Sul desmantelou uma rede de aliciadores e de traficantes de meninas e meninos que agia em Delta. Raptada no Rio Grande do Sul, a menor A.S., de 12 anos, foi resgatada pela polícia das mãos da cozinheira Sandra Campos, que, nas horas vagas, fazia bico como garota de programa. A seqüestradora foi presa quando tentava arrumar documentação falsa para a menor. Segundo Sandra, a garota seria vendida a boates do Nordeste.

Por sugestão da Comissão de Direito Humanos da Câmara Federal, os jornalistas do Estado de Minas investigaram, durante duas semanas, as conexões da quadrilha de traficantes de menores e os problemas causados pelo impacto da cana-de-açúcar na região.

Depois de seguir pistas deixadas pela quadrilha em Uberaba, os jornalistas encontraram nos canaviais de Delta dois suspeitos de pertencer à rede de traficantes. Os repórteres acabaram se deparando também com várias personalidades do município, acusadas de aliciamento de menores e de pedofilia. O alvo desses figurões são meninas e meninos filhos dos pobres cortadores de cana-de-açúcar nordestinos. Entregues muitas vezes pelos próprios pais a oportunistas, em troca de comida, algumas das meninas tiveram a infância interrompida pela gravidez precoce. Segundo estatísticas do Conselho Tutelar e da Prefeitura de Delta, há, atualmente no município, cerca de 60 meninas grávidas ou mães de recém-nascidos. A mesma realidade é vivenciada pelo município de Conquista, no qual a atividade canavieira continua em expansão.

No Eldorado da cana não podia faltar denúncia de trabalho escravo. Retirantes famintos do Nordeste cada vez mais vêm se tornando alvos fáceis dos inescrupulosos “gatos”. No ano passado, a Polícia Federal prendeu Juarez César Carvalho, acusado de apreender os cartões e as senhas das contas bancárias de bóias-frias que trabalham nos canaviais do município. O confisco dos cartões dos trabalhadores foi a forma que Juarez encontrou para receber dívidas contraídas pelos trabalhadores em seu armazém, conhecido por vender alimentos superfaturados. Solto por decisão da Justiça, Juarez, que responde a processo na Justiça Federal, a exemplo de outros “gatos” do Triângulo, continua sendo acusado de explorar os retirantes nordestinos.

Usineiros da região prometem reverter esse quadro com a mecanização dos canaviais e com um programa de fixação de nordestinos na região. “Estamos tentando segurar os trabalhadores do Nordeste e suas famílias fora da época da safra, aproveitando-os em outros serviços, como o plantio de cana. Isso vai ajudar a interromper a vinda de forasteiros”, afirma Luiz André Barbosa de Melo, gerente de Marketing do Grupo Lira, que tem duas usinas nos município de Delta e de Conceição de Alagoas.

Mas enquanto esses programas não são totalmente implantados, os canaviais continuam aterrorizando os moradores da região.



300 MIL HECTARES Esse é o tamanho da área plantada de cana-de-açucar em Minas Gerais, que produziu 1,7 bilhão de litros de álcool na safra deste ano. A maior parte do canavial está concentrada na região do Triângulo, onde há uma dezena de usinas

20 MIL trabalhadores nordestinos , maltratados pela fome e pela seca, se deslocam todos os anos para o Triângulo, afim de trabalhar no corte de cana. A febre do Álcool está levando também para a região uma legião de assaltantes e de traficantes de drogas e de crianças

27 Casas de prostituição foram abertas em Delta, na divisa de Minas com o Estado de São Paulo. Atraídas pela massa de cortadores de cana, 200 prostitutas se deslocam para o município todos os anos, no período de safra”

( da redação com informações do “O Estado de Minas”)