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  • Contato Brasil, 16 de setembro de 2021 22:35:10
Magno Martins
  • 12/07/2021 09h01

    A era dos insultos

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    Jair Bolsonaro em cólera( foto: Arquivo do colunista)

    (Recife-PE)   Num belíssimo e oportuno artigo postado neste blog, sábado passado, o jornalista Marcelo Tognozzi lembrou o papel que o ex-presidente Sarney vem exercendo, em reserva, aos 91 anos, em Brasília, cidade que adotou para viver após seu último mandato de senador. “Virou uma espécie de Oráculo de Delfos”, definiu, ao explicar que a casa de Sarney passou a ser frequentada por quem precisa de respostas, aplacar medos e angústias.

    Sarney é uma das últimas pérolas do reinado da conciliação de um Brasil que assistiu Tancredo Neves, um dos seus ícones, a estender a mão para consolidação, sem traumas, do processo de redemocratização do País. Como vice de Tancredo, a quem sucedeu antes mesmo da velha raposa mineira chegar ao poder, arrastado para sepultura às vésperas da sua posse, Sarney comeu o pão que o diabo amassou, engoliu sapos, mas fez a transição.

    Tudo isso com a ajuda de um grande brasileiro, que marcou a sua vida pelo diálogo, verdadeiro apagador de incêndios: Marco Antônio de Oliveira Maciel, o Marco de Pernambuco. Fernando Henrique Cardoso, que há pouco completou 90 anos, vivia agradecendo a Deus por ter caído do céu um vice de atributos invejáveis. Ulysses Guimarães, que morreu no mar sem seu corpo nunca ter sido achado, dizia que Maciel era imprescindível ao Brasil.

    A era Bolsonaro instalou o Brasil dos insultos, dos ataques entre poderes, da agressividade verbal, quase física. Ninguém se dá mais ao respeito, ninguém constrói pontes alicerçadas em palavras sábias, que busquem, em primeiro lugar, o bem do País. As instituições estão vilipendiadas, ultrajadas. Dizem que o hábito faz o monge.

    Na verdade, quando olhamos para um monge, não imaginamos o processo que o levou até ali. O segredo é o hábito. Essa frase sugere que, a partir do uso frequente de bons hábitos, é possível alcançar o estado desejado. No Brasil de hoje, se persegue os maus hábitos. Um poder xinga outro. Ouvi muito de Marco Maciel algo que, nos dias atuais em Brasília, está fora de mora: a liturgia do poder.

    Sem liturgia, cada governante cria e exercita suas manias. Idi Amin, ditador de Uganda, dizia que conversava com Deus “sempre que necessário”. Outros se colocavam em pé de igualdade com Deus. Em Gana, o ditador Nkrumah era comparado a Confúcio, Maomé, São Francisco de Assis e Napoleão. Franco proclamava-se “Caudilho da Espanha pela graça de Deus”. Bolsonaro não poderia ser diferente. Há quem diga que seu estilo de ir para a ofensiva, usando um linguajar fora do padrão da liturgia, é obra do seu próprio universo. Ouvi em Brasília, por esses dias, que o presidente fala para o seu público, para a sua seita.

    Cada governante, a seu modo, se esforça para lustrar a imagem, trocando a semântica pela estética. Quando exageram, a imagem se esfarela. O povo percebe. Por isso, alguns sobem, outros descem. No caso de Bolsonaro, se esfarela, conforme apontam as pesquisas. Talvez lhe falte um conselheiro da estirpe de Marco Maciel.

    Fica o recado – Um presidente, um magistrado ou um parlamentar, qualquer autoridade deve vestir o manto litúrgico sob os valores do respeito, da ordem, da credibilidade, da disciplina, da norma. Quando um deles maltrata essa liturgia, rebaixa o seu conceito. Deve-se respeitar as pessoas como elas são. Mas todos devem preservar a ordem para o cumprimento de suas tarefas.

    A face oculta – Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, afirma que Jair Bolsonaro mostra uma face que ficou escondida nas eleições de 2018 ao ter “arroubos autoritários”. Ainda assim, diz considerar que o presidente da República vá chegar a dezembro de 2022 sem que um processo de impeachment seja aberto contra ele. “O presidente Bolsonaro faz uma leitura totalmente equivocada da relação dele com a sociedade”, disse, ontem, ao Estadão. “Ele assusta, está amedrontando o eleitor, mostra uma face que ele não mostrou na campanha eleitoral em 2018. Na democracia, as pessoas querem ver o presidente dando exemplo. Isso afasta ele do eleitor”, acrescentou.

    Bateu, levou! – O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luis Roberto Barroso, disse, em nota, que é crime de responsabilidade tentar impedir a realização das eleições. Foi uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que sugeriu que o Brasil pode não ter eleição em 2022 se até lá não houver voto impresso auditável. “A realização de eleições, na data prevista na Constituição, é pressuposta do regime democrático. Qualquer atuação no sentido de impedir a sua ocorrência viola princípios constitucionais e configura crime de responsabilidade”, afirmou o ministro.

    Gastos com energia - A atual crise hídrica fez o Ministério de Minas e Energia aumentar a previsão de uso e gastos com usinas termelétricas para geração de energia. A estimativa de custo com essa fonte energética passou de R$ 9 bilhões para R$ 13,1 bilhões. A previsão anterior de R$ 9 bilhões foi informada em junho. Na comparação com a nova estimativa, o aumento foi de 45%. O cálculo é baseado em simulações do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), que considera o uso adicional das usinas entre os meses de janeiro e novembro deste ano.

    Novo ataque – A motociata com Jair Bolsonaro em Porto Alegre, sábado passado, terminou com um discurso a apoiadores, a maioria deles vestidos de verde e amarelo e com bandeiras do Brasil, onde o presidente atacou de novo o ministro Luís Roberto Barroso, a CPI da Covid-19 e o governador Eduardo Leite (PSDB), além de mais uma vez defender o voto impresso para 2022. "Se aquele de nove dedos tem 60%, segundo o Datafolha, vamos fazer o voto impresso e auditável da deputada Beatriz, que está aqui, para ver se ele ganha realmente na opinião do povo", afirmou se referindo a pesquisa recente do instituto que mostra o ex-presidente Lula na liderança da corrida eleitoral.

    CURTAS

    Vacinação avança – Desde janeiro passado, Pernambuco aplicou 4.830.266 doses de vacinas contra a Covid-19. Desse total, 1.270.634 pessoas completaram os esquemas vacinais. Foram 1.126.777 pessoas vacinadas com imunizantes aplicados em duas doses e outras 143.857 contemplados com vacina aplicada em dose única. Em relação às primeiras doses, foram 3.559.632 aplicações.

    Está baixando – A taxa de ocupação na rede pública de Pernambuco era de 59% até sábado passado, com 2.778 vagas disponíveis. Nas UTIs públicas, eram 1.634 vagas e 63% desses leitos estavam ocupados. Nas enfermarias dos hospitais públicos, a taxa de ocupação de leitos era de 54% das 1.144 unidades abertas. Na rede privada, a taxa de ocupação de leitos era de 53%, com 435 vagas disponíveis. Nas UTIs dos hospitais particulares, eram 268 vagas e 61% desses leitos estavam com pacientes com Covid. Nas enfermarias, a taxa de ocupação era de 41% das 167 unidades abertas.

    Perguntar não ofende: Sem eleição, como quer Bolsonaro, caso não seja aprovado o voto impresso, o Congresso se renova sem reeleição ou será fechado?