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  • Contato Brasil, 18 de outubro de 2021 02:26:32
Jorge Henrique Cartaxo
  • 24/03/2021 10h48

    O Cemitério do Mundo

    O Brasil vive um desafio civilizatório, ainda que diferente, bem maior do que os governos militares impuseram ao País entre 1964 e 1984

    A morte e o lenhador - Jean-François Millet/1895( Imagem do colunista)

    A coragem é a matéria-prima da civilização. Sem ela, o dever e as instituições perecem. Sem a coragem, as demais virtudes sucumbem na hora do perigo. Sem ela, não haveria cruz, nem evangelhos”. A frase seminal, prenhe de grandeza, de Ulysses Guimarães, pronunciada naquele memorável – mas já esmaecido – cinco de outubro de 1988, na promulgação da nossa última Constituição, poderia ter ficado na aura da Nação numa eterna lembrança do tempo e da necessidade. Não aconteceu! Naquele final de tarde, diante de um plenário em silêncio reverencial, o tão conhecido timbre entre rouco e metálico, a postura clássica de orador romano, a autoridade magnética do saudoso dr. Ulysses preenchia nossa história de estatura e civismo anunciando a nova Constituição brasileira, repleta de expectativas e possiblidades.  

    Lembrei-me da cena ao ler a carta de banqueiros, empresários – poucos –, economistas, alguns ex-ministros e ex-presidentes do Banco Central, criticando a condução da pandemia pelo governo federal e exigindo medidas urgentes e consistentes para conter a disseminação do vírus pelo País. O texto é correto, até porque óbvio. Portanto, ele não é importante pelo que diz, mas antes pelos 1500 nomes que o subscrevem. Dentre eles Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles e os economistas Pedro Parente, Elena Landau, Laura Carvalho e Armínio Fraga.

    Mas o texto não é apenas tardio. Faltou a ele a liturgia que deve se fazer acompanhar dos grandes e necessários manifestos. Faltou a solenidade e as palavras ditas e faladas, sem a qual a densidade desejada apresenta-se fugidia e sem a indispensável elegância persuasiva. Encaminhado no último domingo para os dirigentes dos três poderes da República e comunicado à Nação pelos escaninhos da grande mídia, a postura desses destacados homens de negócios e pensadores da nossa economia é quase clandestina. Evidentemente envergonhada, para não dizer covarde diante dos descaminhos da República.

    Em agosto de 1977, em plena ditadura militar, na solenidade de comemorações do Sesquicentenário da Fundação dos Cursos de Direito no Brasil, o jurista e professor Goffredo da Silva Telles, no pátio da Faculdade de Direito da USP, leu a hoje histórica “Carta aos Brasileiros”. Com dezenas de signatários, dentre eles Fabio Comparato, Miguel Reale Junior, Antônio Candido e o bispo Cândido Padin, o texto pronunciado por Telles defendia, com contundência, a volta ao estado de direito no Brasil. Com coragem civilizatória, Telles solenizava o inicio do fim dos governos militares no Brasil. O renascimento do Brasil democrático adquiria majestade, nos temos da “Carta aos Brasileiros” de 1977, no extraordinário discurso de Ulysses Guimarães naquele outubro de 1988.

    O Brasil vive um desafio civilizatório, ainda que diferente, bem maior do que os governos militares impuseram ao País entre 1964 e 1984. A pandemia não é culpa do governo Bolsonaro. Mas a dimensão com que ela se instalou no País é culpa sim do governo federal, do presidente, dos seus ministros. A desordem, o medo, o pânico e os mortos que se avolumam poderiam sim ter sido, pelo menos, significativamente evitadas. Curiosamente, a única reação mais expressiva aos desmandos do governo foi esse documento subscrito por alguns empresários e técnicos. Mas, como sublinhamos acima, faltou ao texto a solenidade devida para que seu significado tivesse a dimensão política que o momento exige.

    Como foi dito num órgão multilateral no inicio da semana, o Brasil é hoje o cemitério do mundo. Até quando?