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  • Contato Brasil, 22 de fevereiro de 2024 04:54:33
Edson Vidigal
  • 10/09/2021 10h23

    O Monstro do Lago Ness

    E assim o demônio e seus agentes infiltrados nas instituições republicanas, legitimados pelos cânones da democracia, aboletados nas cumeadas, realizam o seu mutirão.

    O monstro do Lago Ness( foto: Superinteressante)

    Bolsonaro divulgou carta recuando, o que nem por isso o exime dos crimes comuns, eleitorais e de responsabilidade que já cometeu.

    Esse recuo é tática maoísta - se o inimigo avança, você recua; se o inimigo para, você avança.

    Nesse vai e vem, avança e para, recua e avança, ele segue manipulando seus seguidores, amostras vivas do quanto à ignorância e a boçalidade untadas a proposições malucas podem transmudar-se em fanatismo talibã, disseminando-se em megatons de mentiras, instaurando o desassossego, implodindo a racionalidade.

    E assim o demônio e seus agentes infiltrados nas instituições republicanas, legitimados pelos cânones da democracia,  aboletados nas cumeadas, realizam o seu mutirão.

    Coesão social, paz na família, solidariedade, valores éticos e morais, igualdade de todos perante a lei, direitos de todos às mesmas oportunidades, isso tudo, na lógica deles, os degenerados cívicos, tem que ser destruído para que instituída a desordem absoluta, criado o clima propício, a crueldade injetada no autoritarismo de um capitão tangido da farda possa, enfim, triunfar.

    Bolsonaro e sua horda, que não chega a somar um terço da população, mas aguerrida e sem temor de consequências porque irracional, decerto não pensam nos milhões e milhões de vidas sacrificadas nos embates do último século contra os totalitarismos de direita e de esquerda que engolfaram o mundo civilizado em duas grandes guerras mundiais.

    Eles negam o globo terrestre, o holocausto, e até a vacina.  Daqui a pouco negarão também os quase seiscentos mil mortos na atual pandemia que a omissão deliberada do chefe de governo patrocinou.

    Não lhes interessa fazer o trabalho sério e honesto contra a inflação que já ensaia galopes nem contra a fome sentada nas panelas dos mais de quinze milhões de brasileiros desempregados. Nem contra o apagão elétrico já próximo à reta de chegada.

    Não lhes interessa trabalhar contra o ensino público sem qualidade, pelos direitos humanos ignorados no cotidiano das penitenciárias e aqui fora também. Muito menos os preocupa o sistema judiciário se inviabilizando a cada dia.

    Não lhes interessa corrigir as rotas dos partidos políticos, os quais distanciados de suas funções programáticas,  consumindo cifras milionárias dos pagantes de impostos, ocupam-se montando candidaturas que resultam nessa ilegitimidade de representação, que pelo aboletamento da mediocridade só ampliam o fosso entre a sociedade que produz trabalhando e o Estado no lado contra a cidadania gastando.

    Questões climáticas não interessam. Que passem pelas entranhas da Amazônia, em todos os Estados, as bolas de fogo e os pelotões do desmatamento. Que os rios pereçam, os riachos sequem. Sigam as estradas mal acabadas sorvendo perigosamente suas tragadas de vidas.

    Empatia? Aquele sentimento definido pelos léxicos como a capacidade de sentir o que a outra pessoa sente, de querer igualmente o que ela quer, de aprender o modo como ela apreende, ah isso nem pensar. Nem de longe pensar.

    Essa carta do Temer que Bolsonaro assinou faz lembrar aquele bilhete que Chamberlain exibiu orgulhosamente ao descer de um avião em Londres apontando a assinatura de Hitler na promessa de que não invadiria a Inglaterra. Até Stálin, que se achava um gênio político, caiu numa esparrela semelhante com aquele pacto de não agressão.

    Está na cara que ele não acredita em nada do que assinou. É mero recuo tático a lá Mao Tse Tung.

    E assim segue ganhando tempo, entretendo a maioria silenciosa, até a volta mais ruidosa e ameaçadora com novas cenas e mesmos enredos na sua próxima atração – o monstro do lago Ness no lago Paranoá.

    Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. / 10.09.2021


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