ESPECIAL: Você ainda acredita na classe média? Livro “Labirinto da classe média” de Gilberto Kieling chega ao mercado e a Política Real quis saber sobre as classes média dos vários brasis
O autor se propõe a um desafio desde a primeira página: compreender a si mesmo e apresentar esse olhar aos outros, porque, salvo raras exceções, todo escritor é de classe média
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(Brasília-DF, 11/09/2026) Desde quando Honoré de Balzac lançou sua obra fenomenal “A Comédia Humana”, em torno de 91 livros que só assim entendidos lá por 1.842, o mundo ocidental começou a tentar entender a chamada classe média.
Naqueles idos a classe média, ou o chamado Terceiro Estado, que tinha surgido com a Revolução Francesa ainda no final do século 18, era vista como “revolucionária”. Hoje em dia a classe média é a cara do conservadorismo. “Me deixe aqui, não tome o meu lugar e não quero que mais gente venha entrar aqui”, se assim se pode dizer.
Chegou à redação da Política Real a notícia do lançamento do livro de Gilberto Kieling ,que lança o seu “O labirinto da classe média”.
Qual o sentido da vida para quem é classe média? Que opiniões ela defende? Como seus integrantes tentam manter a própria relevância em um contexto marcado por preconceitos? Em que medida suas visões ideológicas retratam a instabilidade do Brasil contemporâneo? De que maneira seus padrões de consumo refletem a tentativa de distanciamento da pobreza e de aproximação da elite?
Essas são algumas das perguntas exploradas pelo advogado civilista e professor Gilberto Kieling. Com uma perspectiva baseada em nomes como Max Weber, Erich Fromm, Leandro Konder, Florestan Fernandes e Jessé Souza, a obra revela a origem, a definição, as contradições e os erros desse grupo à medida que pondera sobre seu papel nas decisões políticas e sociais do país.
O autor se propõe a um desafio desde a primeira página: compreender a si mesmo e apresentar esse olhar aos outros, porque, salvo raras exceções, todo escritor é de classe média. Para Kieling, se a pessoa não é detentora dos meios de produção e adquire uma certa qualidade de vida somente com o esforço do trabalho, então ela faz parte desse extrato intermediário que divide os ricos e os pobres.
Para atravessar temas densos e ainda assim alcançar o público citado no próprio título, a publicação se desvincula da linguagem acadêmica tradicional. Com um tom crítico e por vezes irônico, a exemplo dos nomes dos capítulos "À direita, por favor!", "Meu amado shopping center" e "Minha casa, meu castelo", o escritor provoca os leitores a entenderem seu lugar no desenvolvimento do país e na democracia.
"A obra lança questionamentos inadiáveis acerca do futuro da classe média e dos atuais riscos à sua permanência, bem como sua importância para a sociedade brasileira. A classe média costuma ser abordada apenas sob os ângulos do reacionarismo e da adesão quase doentia ao consumismo. Mas ignora-se o fato de que ela também define o país, muito embora seus integrantes não tenham consciência de classe", defende Gilberto Kieling.
A Política Real propôs questionamentos a partir dos muito brasis e sobre se existem várias classes médias no país
Confira a íntegra da entrevista.
Política Real: Seu livro discute como a classe média se comporta em processos sociais. O Brasil tem vários brasis. O Sr. avalia que pode se falar de uma forma única da classe média se comportar nesses vários brasis?
Gilberto Kieling : A forma como a classe média reage às transformações sociais pode variar conforme a região, visto que o Brasil é continental e as realidades socioeconômicas são diversas, O que aproxima e identifica os segmentos médios em todo o país é sua visão de mundo e suas aspirações. Parece-me que é a conformação ideológica identifica a classe média e permite compreendê-la em sentido amplo. Portanto, as distinções entre segmentos das diversas regiões brasileiras estão na forma como interagem socialmente diante de mudanças socioeconômicas locais, buscando preservar seus interesses. A visão de mundo, porém, estabelece uma forte identificação entre o que podemos chamar de classes médias “regionais”. O projeto de sociedade a que aspiram é o mesmo. Seus problemas, também.
Política Real: No Nordeste, existe uma classe média que insiste em viver no semiárido, algo que não existe pelo Mundo. Temos visto um avanço do conservadorismo em capitais de alguns estados, como Maceió e Natal. Como as classes médias se portam, em sua avaliação?
Gilberto Kieling : O avanço do conservadorismo e de posturas retrógradas, neste momento, ultrapassam as características intrínsecas da classe média. É um fenômeno que pode ser considerado mundial, pois envolve os ressentimentos com a ordem neoliberal, que prometeu avanços significativos, sem alcançá-los. O paraíso prometido não se concretizou. A classe média, frustrada e ressentida, busca culpados e abraça o conservadorismo acreditando, ilusoriamente, que todo retrocesso pode levá-la a um paraíso perdido, daí as frequentes referências ao passado e o culto ao autoritarismo. Os “culpados”, como sabemos, são os imigrantes, os operários, os sindicatos e outros. A classe média urbana é a portadora deste avanço conservador, visto que tem poder de influenciar a opinião pública. Abraça o discurso que envolve a redução do Estado, as privatizações, o louvor ao indivíduo, a flexibilização trabalhista e cortes em gastos sociais, na ilusão de uma vingança contra aqueles favorecidos por políticas públicas. Ela, ataca os pilares do estado social, erguidos arduamente ao longo do tempo, e que possibilitaram seu surgimento como grupo distinto dentro da sociedade. Não percebe, porém, que tudo isto significa a própria ruína. O neoliberalismo desmonta tudo aquilo que ajudou a formar e consolidar a classe média, jogando-a num mundo de insegurança e incertezas. Mas ela, a classe média urbana, não está percebendo isto.
Política Real: O Norte, onde a renúncia fiscal se restringe a ZFM e muito se fala das riquezas inexploradas, mesmo com muitos benefícios sociais. Em sua avaliação, por qual motivo a classe média ficou conservadora?
Gilberto Kieling : No norte brasileiro, a classe média típica ainda é relativamente pequena. Isto pode ser uma oportunidade única de construção de relações sociais virtuosas, aproveitando as riquezas naturais da região, o que inclui os povos originários, para construção de algo realmente novo para o país. Mas para ser protagonista de uma realidade nova a classe média terá de rever conceitos e posturas ideológicas. Abraçada ao consumismo e defensora de falsa meritocracia, seu papel como construtora de uma nova realidade regional é incerto. Quanto à origem do conservadorismo na classe média temos de compreender o medo com relação a conquistas por parte do operariado e de outros grupos desfavorecidos. Há o medo inerente de que a mobilidade social possa abalar os privilégios que detém, o que faz com que defenda a permanência de tudo exatamente como sempre esteve.
Política Real: O Centro-Oeste tem uma classe média fortalecida pelo agro. Como o sr., vê a cena social na região?
Gilberto Kieling : No Centro-Oeste temos uma situação paradoxal. O agronegócio se autointitula o “motor” da economia brasileira, reproduzindo o fenômeno da produção primária e exportadora, algo que caracteriza o Brasil desde os tempos coloniais. Neste “motor”, pois, não há novidade nenhuma. Há volumes de produção em expansão, sim, e é inegável que a classe média ligada ao setor cresceu, com o fortalecimento de economias de cidades médias no Centro-Oeste, em parte alimentada por formidáveis subsídios governamentais e o avanço sobre novas áreas de plantio. Mas o conservadorismo deste segmento apenas reproduz um comportamento bem conhecido. A classe média desconsidera conjunturas econômicas ao explicar seu êxito, creditando seu sucesso apenas aos próprios méritos, assumindo uma inegável postura de arrogância em relação a outros grupos sociais.
Política Real: O Sudeste tem a maior classe média do país, que tem uma juventude avessa a presença do Estado na economia. Como o sr. vê o futuro dessa classe média urbana frente aos desafios, atingida pela IA, e sua relação com o Estado?
Gilberto Kieling : Este é um cenário preocupante. A retórica do empreendedorismo seduz parte da juventude. A perspectiva de alcançar o sucesso financeiro e profissional por conta própria, no embalo de tecnologias que prometem erigir fortunas de forma rápida, está jogando nossos jovens num cenário nebuloso. Cresce o mercado informal, desregulado, inseguro e sem futuro. Fatores fundamentais como a herança cultural, as redes de apoio, a segurança diante de infortúnios, a solidariedade de classe, são ignorados. Nas grandes cidades do Sudeste isto se torna ainda mais visível, com jovens abandonando até mesmo os estudos para aventurar-se na economia informal, sem perceber que as novas tecnologias estão contribuindo para tornar o mercado de trabalho a cada dia mais precário. Por outro lado, a ideia de que o Estado deve se afastar transforma a economia de produção da vida em um território desregulado e, portanto, predatório e desumano. Algo que faz lembrar Darcy Ribeiro quando disse que o Brasil é uma “máquina de moer gente”.
Política Real: O Sul tem, tradicionalmente, a classe média mais conservadora do país que diz não precisar do Estado, mas reclama que Brasília, a cara do Estado, a segrega. Avalie esse cenário.
Gilberto Kieling: O sul do Brasil tem algumas peculiaridades. Já foi o celeiro do país, em termos de agricultura e pecuária, mas hoje tem uma economia fragilizada. Parte de sua população se formou a partir da colonização da virada para o século XX, com a chegada em massa de imigrantes europeus, notadamente alemães e italianos, que receberam do Estado territórios antes ocupados por populações autóctones, não sem inúmeros conflitos. Essa construção social dos Estados do sul, branca e europeizada, deixou uma marca que caracteriza sua classe média: o racismo. A preservação de espaços restritos à classe média se mistura à rejeição aos pobres e consolida o afastamento e a exclusão. É frequente, no seu discurso, a rejeição à presença do Estado, ignorando que é o Estado que lhe garante tudo o que a caracteriza: saúde, escola, aposentadoria, legislação trabalhista, apenas para citar alguns aspectos mais evidentes. É uma contradição em si.
Sobre o autor: Nascido no Rio Grande do Sul, Gilberto Kieling é advogado civilista, escritor e professor de literatura brasileira e latino-americana. Tem uma extensa trajetória na ficção, com diversas obras publicadas, como "O fundo invisível do olho", "A trajetória do dia", "A varanda", "Histórias nada singulares" e "Nem toda luz é manhã". O labirinto da classe média é sua estreia como ensaísta e propõe uma reflexão sobre o contexto socioeconômico do Brasil contemporâneo.
Facebook: /gilberto.kieling
Site: https://gilbertokieling.com.br/
( da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)