A ascensão artificial de Augusto Cury e o pânico da elite diante de um quarto mandato de Lula
Crescimento artificial do coach, impulsionado por “bots” revela o desespero das classes dominantes diante da possibilidade inédita de Lula vencer no primeiro turno.
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A ascensão meteórica de Augusto Cury (Avante, antigo PTdoB) nas pesquisas eleitorais, alcançando até 11% em levantamentos como o da Nexxus e variando entre 7% e 11% na Atlas Bloomberg, não é um mero acaso estatístico ou um fenômeno genuíno de popularidade.
Impulsionada por uma enxurrada de perfis suspeitos oriundos da Índia – o que já lhe rendeu o apelido irônico de “Augusto Curry” nas redes – e pelo endosso calculado de Pablo Marçal (PRTB), essa subida repentina escancara o desespero das classes dominantes brasileiras diante da possibilidade real e inédita de o presidente Lula vencer a eleição já no primeiro turno.
O que está em jogo vai muito além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Trata-se, também, de uma batalha geopolítica que opõe o ocidente em declínio – liderado pelos Estados Unidos (EUA) e seu capitalismo agonizante – ao fortalecimento crescente do BRICS como nova forma de gestão internacional.
No tabuleiro doméstico, a elite financeira, o latifúndio e a grande imprensa – o chamado PiG (Partido da Imprensa Golpista) – unem-se num esforço coordenado para evitar que o petista consolide seu quarto mandato com força legislativa, algo que poderia abrir caminho para reformas estruturais capazes de romper com o pacto colonial e com a submissão externa que vigora no país desde a redemocratização.
O candidato de direita, disfarçado de centro, seria a única opção para evitar que votos que rejeitam o PT, mas também igualmente rejeitam ainda mais o bolsonarismo, migre já no primeiro turno para o presidente Lula, ou se transforme em “não-voto” (branco e nulo). Por trás desta lógica, nota-se duas características das elites brasileiras: a perversidade e a capacidade de promover intervenções cirúrgicas quando seus interesses estão ameaçados.
Augusto Cury sabe que não tem condições de ir ao segundo turno, mas seu papel estratégico funcionaria como uma barreira, capturando o eleitor do centro-direita que está cansado da violência bolsonarista, mas ainda relutante em votar no campo progressista – fato que ocorreu em alguma medida no segundo turno de 2022.
Ao crescer agora, ele impede que esse contingente antipetista, mas moderado, acabe migrando para Lula como voto útil, pois isso pode definir os pontos percentuais que separam uma vitória de Lula no primeiro turno. Isso deixa claro o cálculo frio por trás da enxurrada de robôs.
A metodologia da pesquisa Atlas, que recruta seus respondentes por meio de anúncios em redes sociais, acaba sendo um vetor perfeito para esse tipo de manipulação. Se o candidato está bombando perfis falsos na internet – inclusive com picos de busca na Índia –, é natural que esse ambiente digital distorcido acabe superestimando seus números.
“É fácil comprar seguidores, likes e views, mas o objetivo maior é transformar a direita em algo mais palatável para captar o voto antipetista”, observou o consultor e estrategista político Amauri Chamorro em entrevista ao ICL Notícias primeira edição desta segunda-feira, 31 de agosto, ligando a “operação Cury” à tentativa de forçar um segundo turno, onde a união da direita radical, com o apoio da mídia e de operadores externos, possa tentar a virada.
Esse movimento local se conecta diretamente a uma engrenagem global mais ampla. A queda do “operador Cerimedo” na Bolívia, onde se aponta um elo entre o narcotráfico, a CIA e a tentativa de desestabilização democrática no Brasil. Desta forma, a ascensão artificial de Cury é apenas a ponta do iceberg.
“Quando você ataca um país, o centro de operações da direita não fica dentro do país; trabalha-se de fora para dentro, por questões de segurança”, destacou Chamorro, referindo-se às estruturas que já operaram em 2018, 2022 e que continuam ativas para afetar a opinião pública brasileira.
VERDADEIRO PÂNICO
O verdadeiro pânico da elite, contudo, não se restringe ao desempenho de Cury, mas ao que ele representa como sintoma de uma derrota maior. Se Lula vencer no primeiro turno – algo inédito – e ampliar sua base legislativa com o crescimento do PT, PCdoB, PV, PDT, PSB, PSOL e Rede Sustentabilidade, o presidente passará a ter musculatura política para encaminhar reformas constitucionais profundas. Entre elas, a adoção do sistema eleitoral misto combinado com a adoção do sistema de lista fechada adotada no modelo inglês, o avanço das parcerias com os demais integrantes do BRICS – deslocando o país definitivamente da órbita do dólar – e, crucialmente, a retomada do projeto de desenvolvimento nacional que foi interrompido pela ditadura civil-militar e jamais resgatado pelos governos civis.
Governos como o de Fernando Henrique Cardoso (FHC) optaram conscientemente por aprofundar a dependência ao capitalismo central, abandonando qualquer tentativa de autonomia. Hoje, a perspectiva de um quarto mandato de Lula reabre a possibilidade de avançar em promessas históricas da fundação do PT, como a realização de uma reforma agrária que finalmente mexa no intocável pacto latifundiário estabelecido ainda no período colonial.
O cansaço do povo não é cansaço de democracia; é cansaço de mentiras. O crescimento de Cury diz mais sobre o desespero da elite do que sobre a vontade popular. No campo externo, o alinhamento com o BRICS e o distanciamento do “capitalismo ianque agonizante” são vistos como ameaças diretas à hegemonia unipolar.
As classes dominantes sabem que uma vitória de Lula no primeiro turno não apenas consolidaria o deslocamento do Brasil a nova governança mundial e proporcionaria ao país uma liderança moral e política para impor uma nova agenda global, baseada na multipolaridade e na justiça social.
É por isso que investem pesadamente em candidaturas fantasmas, perfis falsos e narrativas de desgaste. Como bem ironizou a jornalista Heloisa Villela, ex-correspondente da TV Globo nos EUA e editora do ICL Notícias: “ninguém gasta dinheiro à toa; ele sabe que não vai ser presidente”, mas o investimento nele visa tentar destruir a chance de Lula vencer já no primeiro turno.
Diante desse cenário, a resposta do campo progressista não pode se limitar à denúncia. É preciso mobilizar as ruas, fortalecer as organizações populares e mostrar que a história não será interrompida por alguns gigabytes de perfis falsos comprados na Índia. O projeto de desenvolvimento soberano, a reforma agrária, a justiça social e a integração com o Sul Global são bandeiras que mobilizam muito mais do que discursos motivacionais vazios.
Restam 35 dias para que o povo brasileiro decida se quer avançar em direção à sua emancipação ou se permitirá que o desespero de uma elite decadente, aliada a interesses externos, sequestre mais uma vez o seu futuro e a sua democracia. A batalha é dura, mas a história – ao contrário dos robôs – não se compra.