Acilino Ribeiro, atendido pela Comissão da Anistia, será tema de filme documentário, retorna ao Piauí onde faz o caminho de volta à terra natal; hoje, reitor e membro diretor do PSB falou de sua história à Política Real
Em fevereiro de 2007, mudou-se definitivamente para Brasília onde iniciou uma carreira acadêmica como professor universitário
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(Brasília-DF, 26/06/2026) O advogado, ativista social e dirigente de partido político, hoje reitor de universidade popular, piauiense, de volta a Brasília(DF) faz 20 anos, onde viveu sua infância - vive um momento catártico na fase madura da vida, pois foi, oficialmente, atendido pelos plenos efeitos plenos da Lei da Anistia em processo que tramitava há 15 anos na Comissão de Anistia do governo federal.
Acilino Ribeiro faz questão de lembrar que a Lei de Anistia foi, historicamente, articulada pelo piauiense então Ministro da Justiça, senador Petrônio Portela, assinada pelo presidente João Figueiredo. Acilino Ribeiro foi um dos anistiados, na época enquadrado na Lei de Segurança Nacional – a “famigerada” LSN.
Sua longa trajetória política de mais de meio século de luta, de 20 anos contra a ditadura no Brasil e outras lutas, tanto no Brasil durante os anos 60, 70 e a década de 1980 e 90, como no exterior em países onde viveu e lutou, estudou e treinou para ser um combatente guerrilheiro, como Líbia, Rússia (na antiga União Soviética) Cuba, El Salvador, Nicarágua, Argélia, Burkina Faso, China, Iugoslávia, Alemanha Oriental, Angola e Moçambique, dentre outros para denunciar o Regime Militar em palestras como na França, Itália, Áustria, Suíça, Holanda, Portugal e Espanha .
O momento é especial para Acilino Ribeiro, pois esse período será revisitado, agora , em um projeto de filme documentário que está sendo preparado contando sua história. O projeto é de uma ONG europeia que está em fase de captação de recursos.
Acilino Ribeiro anunciou à Política Real que faz questão, antes de ir a qualquer país para celebrar o momento voltar ao Piauí para, efetivamente, onde se escondeu e viveu clandestino quando perseguido pelo regime militar.
Juventude
Acilino Ribeiro é um ex-guerrilheiro, que entrou para a juventude do Partido Comunista Brasileiro / PCB, em 1968, com apenas 15 anos de idade e aos 16 anos foi preso e processado pelo Regime Militar que o enquadrou nos Decretos Leis 228 e 477, e a partir de 1969 ficou proibido de estudar por vários anos. Foi libertado da prisão pela mãe, Maria do Socorro Ribeiro e o pai Francisco Almeida que descobriram seu paradeiro e invadiram a prisão na cidade de Alexânia, interior de Goiás, onde corria o risco de ser “desaparecido”.
Neste mesmo período, por volta de 1970, quando Acilino já vivia clandestino no Piauí, fugido de Goiás, a ditadura prendeu e assassinou um outro líder estudantil secundarista em Goiânia, Marco Antônio Dias, de apenas 14 anos de idade e que pertencia a mesma organização de Acilino, a FRE – Frente Revolucionária Estudantil.
Durante quase todo ano de 1969 viveu clandestino em Brasília (abril a dezembro) até fugir para o Piauí em fevereiro de 1970 e permaneceu escondido na fazenda do avô, Doca Ribeiro, em Piracuruca então prefeito municipal, até o início de 1971 quando voltou clandestinamente à Brasília e permaneceu escondido, mas agora como membro do MR8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro que fez diversas ações “revolucionárias” contra o governo militar, entre expropriações financeiras (assalto a bancos) para compra de armas e sustentação da luta e sequestros de diplomatas para libertar companheiros e companheiras presas.
Nesse período de 1972 a 1975, Acilino participa de várias ações guerrilheiras integrando a chamada Frente Reservada do MR8, que era o serviço secreto e de inteligência dos movimentos revolucionários, inclusive se infiltrando nas Forças Armadas, quando por orientação da guerrilha vai servir o Exército como voluntário e posteriormente consegue se infiltrar no Hospital das Forças Armadas, HFA, a partir de 1973, depois de 01 ano de serviço como soldado e ordenança do Ministro Chefe do Estado Maior das Forças Armadas - EMFA, por indicação de um militar simpatizante do MR8 e lá no HFA, subordinado ao EMFA, obtendo informações valiosas para a guerrilha onde depois é descoberto, preso, demitido e novamente processado.
A partir de dezembro 1974, diplomatas e provavelmente membros do serviço secreto chinês no Brasil em busca de informações sobre mortos e desaparecidos políticos que tinham vivido e sido treinados na China e na Coreia do Norte, o ajudam e em 1977 após ser preso pelas ações contra as FFAA por crimes contra a segurança nacional como espionagem e sabotagem ele consegue escapar, e com a abertura política e o regime perdendo forças as pressões se atenuam.
Família, partido, Líbia, Muammar Khadafy, Miguel Arraes
Neste período de perseguições, processos e prisões a família teve que vender todos os bens para pagar despesas com viagens e advogados para liberta-lo até que pai, bacharel em Filosofia e História resolve no final dos anos de 1970 estudar e se formar em Direito para ajudar o filho que nunca abandonou a luta. Mas Acilino também sempre teve o apoio do PCB e demais organizações de esquerda que o ajudam através de vários advogados amigos e companheiros de luta no decorrer desse tempo, entre eles os ex-deputados Marcelo Cerqueira e Alencar Furtado, ambos cassados e também perseguidos políticos do regime, assim como também foram seus advogados Sigmaringa Seixas (pai) e Sigmaringa Filho, além do pai já formado a partir do final dos anos de 1976.
Proibido de estudar na UnB, em 1974, onde é aprovado no vestibular para Relações Internacionais é novamente detido quando lhe é negado o “Atestado de Bons Antecedentes Ideológico”, documento exigido na época para estudar em escolas públicas. Acilino foi considerado “nocivo a Segurança Nacional” e “terrorista procurado”.
No início de 1975, Acilino vai para Líbia, quando então passa a trabalhar com o coronel Muammar Khadafy, e consegue algum apoio para o MR8 e em 1977 vai à Argélia onde conhece Miguel Arraes. Também em 1977 vai a Moscou, na então União Soviética. Nesses três países estuda geopolítica, sabotagem, técnicas de infiltração e disfarce, uso e fabricação de armas, espionagem e artes marciais, faz treinamento militar, de estado maior e de guerrilha urbana e rural, e sempre sai e entra clandestinamente no Brasil com a ajuda dos palestinos com quem mantem relações desde 1975 quando era estudante de Economia na Faculdade Católica de Brasília.
No ano de 1979, Acilino se forma em Direito pela Universidade do Distrito Federal – UDF, e no ano seguinte em fevereiro de 1980, já de volta ao PCB, rompe com o partidão e volta para o Piauí, depois de articulações com o então líder sindical Lula Inácio Lula da Silva e funda o PT – Partido dos Trabalhadores no Estado, onde começa as articulações naquele ano para a construção do partido.
Após ajudar a fundar o PT, volta ao PCB em 1982 e nas eleições de novembro daquele ano se elege vereador de Teresina pelo MDB (o PCB continuava na ilegalidade) após ter feito um trabalho de base como advogado de vários sindicatos de trabalhadores, associações de moradores, mulheres, estudantes, camelôs, mendigos e prostitutas.
Tempos de Piauí
De fevereiro de 1980 a fevereiro 2007, quando retorna em definitivo a Brasília e nesse período viajando sempre a Líbia, organizou e liderou em Teresina e no interior do estado centenas de manifestações populares, greves, passeatas, ocupações de terra, jornadas de lutas, saques de supermercados, e invasões do Palácio de Karnak, da Assembleia Legislativa e da Prefeitura de Teresina.
Financiou diversas lutas e foi acusado de receber dinheiro da Líbia e do coronel Khadafy e ser o “Tesoureiro da Revolução”. Foi considerado o maior líder de massa do Piauí naqueles anos e também o mais radical dirigente da esquerda no Estado. Era o inimigo público número 1 dos governos da oligarquia que governavam o Estado na época. A Direita sempre o odiou e a esquerda o admirava.
Um importante jornalista piauiense amigo dele, Pires de Saboia, cunhou uma frase sobre ele que permanece viva até os dias de hoje, de que “Acilino quando está falando está agitando, quando está calado está conspirando”, dentre outros apelidos que ganhou em sua trajetória. Um dos que mais o acompanhou nestes anos foi quando ainda jovem ficou conhecido como “a formiguinha vermelha”, por fustigar greves, passeatas e bombardear o governo com todo tipo de manifestação desde a luta armada até a luta de massa.
Quando eleito vereador e passou por vários cargos públicos e era o principal líder na esquerda no Piauí seus adversários o chamavam de “a serpente vermelha”, por ser astucioso, habilidoso e fatal. Mas também teve adversários dentro de tendências de esquerda, Marxista-Leninista, um Stalinista-Maoísta-Guevarista, disciplinado e dócil, mas duro e radical defensor do “centralismo democrático”.
Posteriormente, reassumiu a direção do PCB no Piauí, quando de sua legalização em 1985, que depois se transformou em PPS. Foi Secretário Municipal de Interior e Assuntos Comunitários da gestão de Wall Ferraz na Prefeitura de Teresina, Secretário da Defesa Civil na gestão de Heráclito Fortes na capital, Superintendente do INCRA sob a presidência de Itamar Franco e Secretário de Reforma Agrária no Estado exercendo a presidência do Instituto de Terras do Piauí – INTERPI – nos dois governos de Mão Santa e seu Secretário de Reforma Agrária.
Acilino Ribeiro também foi vereador por seis anos na capital teresinense no primeiro mandato, de 83 a 88 depois pelo PCB de 90 a 92. Foi candidato a Prefeito de Teresina, a senador de República em 1998 e a governador em 2002.
De volta à Brasília
Em fevereiro de 2007, mudou-se definitivamente para Brasília onde iniciou uma carreira acadêmica como professor universitário e hoje é Reitor da UNIPOP – Universidade Popular, Secretário Nacional do PSB e Coordenador Geral do MPS – Movimentos Populares e Sociais do PSB, um segmento considerado a vanguarda popular e revolucionária do Partido Socialista Brasileiro com grande inserção na sociedade civil e ideologicamente o grupo mais à esquerda no partido.
Em entrevista recente a mídia declarou: “dedico minha anistia a todos os companheiros e companheiras de luta que tombaram no meio do caminho, como meu Comandante Chefe Capitão Carlos Lamarca e meu comandante imediato Ricardo Zarattini, ambos do MR8; aos comandantes guerrilheiros Carlos Marighela e Carlos Eugênio Paz, o Clemente, da ALN; ao Oswaldão e a Lúcia Petit do PCdoB e aos guerrilheiros do Araguaia; a Luís Carlos Prestes e todos os camaradas do PCB, aos camaradas da VPR, da VAR-Palmares, do COLINA, do MOLIPO, da POLOP, e de todas as organizações que lutaram numa época em que a morte era o preço da coragem, assim como a todos e todas que sobreviveram e venceram a morte a que estávamos destinados como as companheiras Dilma Rousseff, Inês Ettiénne, Moema Santiago, a José Dirceu, Vladimir Palmeira e Frei Beto, que hoje continuam a luta e outras e outros, mas especialmente a minha mãe, Dona Socorro e a meu pai, Seu Almeida, que participaram ativamente da luta me ensinando sobre política, me apoiando e me protegendo por todos aqueles anos luta, sonhos e chumbo”. Acilino se emocionou nesse rosário de citações de agradecimento.
Hoje, aos 72 anos de idade, aposentado, vive em Brasília. Disse que viajará a Teresina em 2026 e voltará a Piracuruca para reencontrar alguns amigos de mais de 50 anos atrás quando ficou clandestino por quase dois anos, fugindo da ditadura e se escondeu na cidade, às vezes em Teresina além de outros estados do Nordeste e em Goiás. Abraçar o tio, Raimundo Magalhães que o protegia também e lhe escondeu várias vezes no Piauí.
Acilino, finalizou à Política Real, afirmando ser contra a anistia aos golpistas do 08 de janeiro porque existe uma grande diferença entre a anistia dele e a dos bolsonaristas
“Eu lutei contra uma ditadura para derrubá-la e implantar a democracia, e eles tentaram derrubar a democracia a qual ajudei a construir e implantar uma ditadura; portanto, sem anistia”, finalizou.
(da redação com informações de assessoria. Edição: Política Real)