O gesto que ressoa como um grito: em defesa da renúncia de Duilio Monteiro Alves e do espírito da Democracia Corinthiana
Não é sobre futebol; é sobre política ou a falta dela, democracia ou a falta dela, filosofia ou a falta dela e como o fascismo do século 21 vem tomando conta da vida. ...
Há gestos que, à primeira vista, parecem derrota. Parecem entrega. Parecem o fim de uma linha. Mas, quando iluminados pela história e pela filosofia, revelam-se atos de profundíssima coragem. A renúncia de Duilio Monteiro Alves ao título de sócio remido, ao conselho vitalício e ao quadro associativo do Corinthians não é uma fuga — é um grito. E, como todo grito verdadeiro, ele só pode ser compreendido por quem está disposto a ouvir aquilo que os barulhos da guerra política insistem em abafar.
Para entender por que este gesto merece não apenas respeito, mas apoio explícito, é preciso voltar a dois Sócrates: o filósofo grego que ensinou o mundo a duvidar das verdades impostas e o jogador-corinthiano que, com chuteiras e pensamento, ajudou a construir a Democracia Corinthiana. Ambos, cada um a seu modo, compreenderam algo que Duilio, ao que tudo indica, decidiu viver na carne: há momentos em que permanecer dentro de uma estrutura que se corrompeu é menos revolucionário do que sair para denunciar suas entranhas.
A Democracia Corinthiana e a traição do seu próprio legado
O movimento da Democracia Corinthiana, nos anos 1980, nunca foi apenas sobre dar voto aos jogadores ou decidir em assembleia se o time viajaria de ônibus ou avião. Foi, acima de tudo, uma recusa radical ao autoritarismo que atravessava o país e também os clubes. Sócrates (o jogador) e seus companheiros entenderam que o futebol não era uma bolha apolítica — pelo contrário, era um espelho das estruturas de poder que adoeciam a sociedade. Decidir coletivamente, ouvir o diferente, horizontalizar as relações: esses eram os pilares.
O que Duilio descreve em sua carta de renúncia, no entanto, é exatamente o enterro vivo desse ideal. 'O clube se tornou ingovernável', escreve ele. 'Em vez de debater regras, responsabilidades e mecanismos de controle, preferiram criminalizar práticas próprias da vida de uma empresa que fatura R$ 1 bilhão.' O que vemos hoje no Parque São Jorge não é a democracia, mas a sua caricatura mais perversa: uma guerra nuclear em que a expulsão do opositor tornou-se a principal ferramenta política, em que leituras casuísticas do estatuto se multiplicam como metástases, e onde a ordem, como ele bem afirma, é eliminar qualquer um antes da próxima eleição. A isso denominamos fascismo!
A Democracia Corinthiana foi destruída não por seus inimigos externos, mas por aqueles que aprenderam a repetir sua retórica enquanto praticavam a mais pura exclusão. Nesse cenário, o que faz um homem que tentou, de fato, nomear opositores como diretores? Que apresentou três superávits consecutivos? Que controlou a dívida até ver a gestão seguinte catapultá-la em mais R$ 1 bilhão? O que ele faz quando seu cartão corporativo com média inferior a R$ 35 por dia é transformado em narrativa criminal?
Ele faz o que Sócrates, o filósofo, fez: bebe o veneno, mas não abre mão da verdade.
A ironia socrática como arma do desapego
O Sócrates das letras maiúsculas — o mestre de Platão, o homem que passeava pela ágora ateniense perguntando o significado das virtudes — foi condenado à morte por corromper a juventude e por não acreditar nos deuses da cidade. Sua defesa não foi uma súplica. Foi uma provocação. Ele sabia que o tribunal não queria justiça; queria um bode expiatório. E ainda assim, recusou-se a fugir da prisão. Recusou-se a negociar a verdade. Disse que uma vida não examinada não merecia ser vivida — e que, antes de trair seu próprio pensamento, preferia morrer.
Duilio não está morrendo, mas está morrendo politicamente dentro do Corinthians. Abre mão do título de sócio remido (um presente de nascença, repassado pelo avô) e do posto de conselheiro vitalício. Em um clube associativo, isso equivale a arrancar do peito algo tão visceral quanto o próprio pertencimento. E por que ele faz isso? Por vaidade? Por despeito? Sua carta responde com clareza: 'Minha retirada do quadro associativo não resolve nada disso. Mas ao menos comprova que não tenho vaidade, estou desapegado e disposto a ver o Corinthians discutir, de fato, o seu futuro.'
Eis a ironia socrática em seu estado mais puro. O gesto que muitos comemorarão como uma expulsão — 'enfim, ele saiu' — é na verdade a demonstração máxima de que Duilio nunca esteve apegado à cadeira. Quantos presidentes, ex-presidentes e conselheiros vitalícios abririam mão de seus privilégios em nome de um debate honesto sobre o futuro? Quantos aceitariam se retirar para que a pergunta dura seja finalmente formulada: 'O Corinthians será uma SAF com um dono sem voto ou será um clube controlado por interventores jurídicos, também sem voto? '
Sócrates, o filósofo, não fugiu porque sabia que sua morte ensinaria mais do que sua vida. Duilio renuncia porque compreende que sua permanência, no atual estado de coisas, só alimenta o teatro da guerra. Ele se torna, voluntariamente, o espelho que os torcedores racionais — aqueles que, segundo ele, 'perceberão que não há nada a festejar' — precisam olhar.
Sócrates, o jogador: a política não se faz com expulsões
Sócrates, o camisa 8 do Corinthians, foi um homem que entendeu o futebol como linguagem da liberdade. Ele não tinha medo do debate. Pelo contrário, sabia que a divergência era o oxigênio de qualquer coletivo sério. A Democracia Corinthiana nunca foi unânime — e não precisava ser. Havia discordâncias, havia tensões, mas havia acima de tudo um compromisso com a palavra e com o voto. Não se expulsava o adversário. Convencia-se o interlocutor.
O que Duilio descreve é o oposto exato disso: 'A ordem agora é expulsar todo e qualquer opositor antes da próxima eleição.' Ora, se a lógica vigente é a expulsão sistemática, que espaço resta para a democracia? Nenhum. O que resta é a guerra de trincheiras, o processo jurídico como artilharia, a criminalização da política administrativa cotidiana. Foi nesse inferno que Duilio diz ter vivido: 'Fizeram da minha vida um inferno, e eu caminho por ele, com a certeza de que tudo vai ser esclarecido.'
Apoiar sua renúncia, nesse contexto, é apoiar a interrupção da falsa narrativa de que o problema do Corinthians são pessoas específicas — Duilio, seus aliados, seus desafetos. Ele mesmo alerta: 'Amanhã, o sol nascerá, e todos terão de se fazer uma pergunta: quem será o próximo que deveremos expulsar? Ou vocês acham que acabou? ' Essa pergunta ecoa a mais socrática das intuições: o problema não é Fulano ou Beltrano. O problema é a estrutura que transforma a política em caça às bruxas.
Ao renunciar, Duilio tira o combustível dessa máquina. Ele se torna 'inexpulsável' porque já se foi voluntariamente. E com isso, deixa exposta a nudez do sistema: se continuarem expulsando alguém após sua saída, ficará claro que o alvo nunca foi ele — o alvo sempre foi a própria possibilidade de um debate livre.
Os três problemas reais e a coragem de nomeá-los
Uma das partes mais contundentes da carta de Duilio é a listagem dos três problemas que, segundo ele, 'tantos fingem não enxergar': a reforma tributária que beneficiará SAFs em detrimento de clubes associativos; a dívida que explodiu na gestão seguinte à sua (com aprovação de quem agora quer se candidatar); e a agência de fair play financeiro da CBF, que pode impor transfer bans e rebaixamentos a clubes que contratam sem pagar.
Apoiar sua renúncia é também reconhecer que Duilio, ao sair, não está fugindo desses problemas. Está, ao contrário, jogando-os na cara de quem prefere o espetáculo da expulsão ao trabalho técnico de governança. Enquanto o clube se devora internamente, questões estruturais gravíssimas avançam. A dívida não se importa com a guerra política. O fair play financeiro não suspende suas regras porque há uma CPI ou um conselho em chamas.
Duilio poderia ter saído quieto, sem alarde, sem explicar. Mas ele escolheu explicar. Escolheu nomear os fantasmas. E ao fazê-lo, prestou um serviço ao Corinthians que seus algozes jamais prestarão: o serviço da verdade incômoda.
Conclusão: Vai Corinthians, e vai com a memória de quem tentou
Não se trata de canonizar Duilio Monteiro Alves. Trata-se de enxergar que, em um campo arrasado pela guerra nuclear, um gesto de desapego e lucidez merece ser celebrado não como derrota, mas como lição. Sócrates (o filósofo) ensinou que uma consciência tranquila vale mais do que a aprovação da multidão. Sócrates (o jogador) ensinou que o Corinthians nunca foi apenas onze em campo — foi um laboratório de participação, um ensaio de como o futebol poderia ser mais generoso.
Ao renunciar, Duilio honra os dois Sócrates. Ele não se agarra ao título de sócio remido como um troféu intocável. Ele o devolve — não por desprezo, mas por amor. Amor ao Corinthians que respirava democracia, e não esta versão belicosa e cega que hoje ocupa seu lugar.
Apoiar sua decisão é dizer: sim, o caminho é este. É se retirar para não compactuar com a farsa. É dar o exemplo de que há vida fora da trincheira. É confiar que, como ele mesmo escreveu, 'o tempo' fará o resto.
Vai Corinthians. Sempre. Mas que o 'sempre' seja construído não sobre ossos de excluídos, e sim sobre a memória de quem, como Duilio, teve a grandeza de sair para que a pergunta essencial finalmente fosse ouvida: quem será o próximo que deveremos expulsar? — e que a resposta, um dia, seja ninguém.
Porque o Corinthians que Sócrates ajudou a plantar não era um clube de expulsões. Era um clube de abraços coletivos, de decisões compartilhadas, de vocação para o futuro. Que a renúncia de Duilio seja o primeiro ato de um novo despertar. E que os 35 milhões de torcedores, um dia, possam olhar para trás e agradecer a coragem de quem, no meio do inferno, caminhou com a cabeça erguida.
Vai Corinthians. E vai, Duilio. A história, ela sempre escolhe o lado de quem teve a coragem de não se calar.