Ao longo de duas décadas, bancos centrais da região construíram credibilidade ancorando as expectativas de preços e reforçando a resiliência contra choques externos
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Por IMF
O conflito no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e ameaça causar uma nova onda de inflação. Na América Latina, porém, a boa ancoragem das expectativas de inflação deve ajudar a amortecer esse impacto — ainda que alguns dos principais bancos centrais tenham buscado reduzir as taxas de juros.
Para a maioria dos países da região, o choque de oferta pós-pandemia não elevou as expectativas de inflação de longo prazo —o patamar em que pessoas, empresas e analistas preveem que a inflação estará nos próximos anos —, ainda que no curto prazo os preços tenham aumentado. Nosso estudo mostra que expectativas bem ancoradas ajudam a limitar a transmissão de altas nos preços da energia e outras commodities para os preços em geral, pois ninguem espera que essas elevações temporárias se traduzam em inflação mais elevada no futuro.
Esse estudo se baseia em pesquisas anteriores do FMI que mostram como uma ancoragem mais forte reduz consideravelmente o impacto inflacionário dos choques nos termos de troca — a variação do preço das exportações de um país em relação ao preço de suas importações — nos mercados emergentes. Expectativas estáveis dão aos países da região mais espaço para poder cortar juros, mesmo com a alta dos preços do petróleo.
Com expectativas de inflação mais bem ancoradas, as principais economias da América Latina colhem agora os frutos de reformas institucionais iniciadas há cerca de 25 anos. Principalmente a adoção de regimes de metas de inflação, o fortalecimento da independência dos bancos centrais e o fim da dominância fiscal.
Essas reformas influenciaram melhoraram as percepções sobre o comportamento dos preços. Embora as previsões de inflação na América Latina continuem, em média, mais distantes da meta do que nas economias avançadas, a dispersão das expectativas é semelhante nesses dois grupos de países. Isso é compatível com a imagem de autoridades econômicas confiáveis e que atuam dentro de normas e limites institucionais.
Nas duas últimas décadas, ambos os extremos da distribuição estatística das expectativas de inflação melhoraram —aqueles que previam que os preços subiriam demais ou muito pouco. Tanto aqueles que antes previam que a inflação seria muito alta, como os que apostavam que seria demasiado baixa, mudaram de opinião e passaram a incorporar gradualmente as metas dos bancos centrais.
No entanto, essa credibilidade conquistada a duras penas também é fácil de ser perdida. Nosso estudo constata que uma política monetária mais restritiva do que o previsto produz avanços modestos nas expectativas, aumentando a ancoragem de forma moderada e com um certo atraso. Em contrapartida, uma política monetária mais expansionista do que esperado pode ter efeitos negativos muito mais fortes e, com isso, fazer com que as expectativas se descolem da meta.
Estudos de caso de países como Brasil, Chile e Argentina ilustram como mudanças na política monetária afetam as expectativas e oferecem lições importantes:
O regime monetário adequado depende do contexto. Por exemplo, metas de inflação podem não ser a opção ideal quando a inflação é muito alta, ainda que esse seja tipicamente um compontente-chave de políticas econômicas que alcançam estabilidade. Quando a inflação já é muito elevada, objetivos mais simples, como metas cambiais ou monetárias, podem ser mais adequados inicialmente.
Isso não significa que o regime de metas de inflação exija uma conjuntura perfeitamente tranquila para ser implementado. Embora o ideal seja a adoção gradual em condições macroeconômicas estáveis, esse sistema pode ajudar a ancorar expectativas mesmo quando adotado rapidamente em uma conjuntura econômica difícil. A adoção de metas de inflação no Brasil a partir de 1999 é um desses casos. Nessas condições, porém, responsabilidade e transparência são fundamentais para construir confiança nos objetivos do banco central.
Um amplo apoio institucional é essencial em quase todos os casos. Regimes de meta de inflação não terão sucesso se a política fiscal ou outras políticas prejudiquem o objetivo anunciado pelo banco central, ou quando falta um compromisso político mais amplo de baixar e estabilizar a inflação. Níveis elevados de dolarização podem agravar o desafio.
A América Latina vê agora os benefícios de reformas que começaram na geração passada. Políticas desenvolvidas em torno de metas de inflação e bancos centrais independentes ajudaram a promover a estabilidade e a encerrar uma era de inflação alta e volátil. Esse progresso é importante à medida que surgem novos choques, com expectativas de inflação mais ancoradas ajudando a compensar pressões temporárias sobre os preços.
A maior ruptura da história no mercado mundial de petróleo representa um novo desafio, mas observamos um padrão claro: quando as expectativas estão bem ancoradas, as economias conseguem absorver melhor esses choques sem desestabilizar a inflação. Essa capacidade de resistir a turbulências advém da credibilidade monetária construída ao longo de décadas, mas não está garantida. Política monetária excessivamente flexível ou mudanças abruptas podem corroer rapidamente os ganhos conquistados com muito esforço, ressaltando porque é fundamental preservar a credibilidade para manter a estabilidade quando ela é mais necessária.
— Este blogue se baseia no estudo departamental “Anchoring Inflation Expectations: Evidence from Latin America during the Post-COVID Stress Test”, de Philip Barrett, Federico Duenas, Christopher Evans, Eric Huang, Gonzalo Huertas e Tannous Kass-Hanna.
( da redação com informação do Fundo Monetário Mundial. Edição: Política Real)