Lula, na fala ao lado de Pedro Sanchez, em Barcelona, disse que o Brasil não aceitará interferências externas sobre suas reservas de terras raras e minerais estratégicos.
Veja a íntegra da declaração à imprensa
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Com agências
(Brasília-DF, 17/04/2026). Nesta sexta-feira, 17, na cidade de Barcelona, na Espanha, o o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, durante a 1ª Cúpula Brasil-Espanha, afirmou que o Brasil não aceitará interferências externas sobre suas reservas de terras raras e minerais estratégicos.
"Ninguém a não ser o Brasil será dono da nossa riqueza mineral", declarou o presidente.
Lula defendeu que o país deva controlar o processo de exploração e transformação desses recursos e destacou que o Brasil pode estabelecer parcerias internacionais no setor.
O presidente afirmou ainda que o tema será tratado como uma "questão de segurança nacional".
"O processo de transformação se dará dentro do Brasil. Nós não vamos repetir com os minerais críticos e com as terras raras o que aconteceu com os minérios de ferro e com a bauxita", complementou.
Lula também lembrou que o país já perdeu oportunidades históricas de agregar valor aos seus recursos naturais.
Ele citou ciclos anteriores de exploração, como o do ouro, em que outras economias se beneficiaram enquanto que o Brasil permaneceu em uma posição desvantajosa.
Veja a íntegra da fala:
"Visitar Barcelona, neste momento da história, tem um sentido muito especial.
Há noventa anos, esta cidade tornou-se a capital espanhola durante uma guerra civil que mudou o rumo deste país e de todo o mundo.
A Espanha foi o laboratório da Segunda Guerra Mundial.
O horror sofrido pelo povo espanhol antecipou a maior carnificina da história.
Hoje, várias regiões do mundo estão novamente conflagradas.
Assistimos atônitos a uma nova corrida armamentista.
Mulheres e crianças viram alvos e a inteligência artificial substitui a ética humana.
Por isso, meu caro amigo Pedro Sánchez, eu entendo perfeitamente quando você diz “não” à guerra.
Eu também disse não à guerra quando assumi a presidência em 2003.
Quando o então presidente dos Estados Unidos pediu que o Brasil participasse da guerra no Iraque, eu disse que a nossa guerra era outra.
Lutamos por uma sociedade justa, onde todos possam ter uma vida plena.
Trabalhamos para reduzir desigualdades dentro dos países e entre eles.
Queremos um mundo onde a soberania e as regras do multilateralismo sejam respeitadas.
Brasil e Espanha estão na mesma trincheira.
Amanhã participarei da quarta edição do Evento em Defesa da Democracia, que nasceu de uma preocupação que o presidente Pedro Sanchez e eu compartilhamos.
A democracia precisa ir além do voto e trazer benefícios concretos para a vida das pessoas.
Hoje, Brasil e Espanha firmaram um compromisso para fortalecer o apoio a microempreendedores individuais.
Também concluímos um acordo para promover a economia solidária e o cooperativismo.
A Espanha tem sido pioneira na adoção de leis e políticas que buscam responder aos atuais desafios do mundo do trabalho.
Sua experiência é muito valiosa para o Brasil.
Estamos discutindo a regulamentação do trabalho por plataformas, para promover o equilíbrio entre autonomia e a proteção.
Para muitos trabalhadores, o vínculo empregatício formal ainda é um passaporte para a garantia de seus direitos.
Ter um emprego não pode ser sinônimo de renunciar à vida familiar ou ao lazer.
Queremos pôr fim à chamada jornada de trabalho seis por um, para permitir que o trabalhador e a trabalhadora tenham dois dias de descanso semanal.
Defender a família é assegurar que todo cidadão possa passar tempo de qualidade com seus entes queridos.
A cooperação internacional para o combate ao crime organizado precisa ser feita em bases igualitárias.
É esse tipo de colaboração que estabelecemos com a Espanha.
Realizamos operações conjuntas contra o narcotráfico, que resultaram na apreensão de mais de dez toneladas de drogas.
A Espanha já integra o Centro de Cooperação Policial Internacional do Rio de Janeiro.
Agora designará oficial para trabalhar com os países amazônicos no Centro de Manaus e participará da Coalizão pela Ação Multilateral contra Crimes Ambientais.
A Polícia Federal brasileira está à disposição para compartilhar com a guarda civil espanhola um software desenvolvido no Brasil, chamado Sistema Rapina, que detecta abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes na internet.
Hoje também assinamos um acordo para pôr fim à violência contra as mulheres.
Não é possível avançar como sociedade quando metade da população não tem respeitado sequer o direito mais básico de todos, o direito à vida.
Temos muito a aprender com a Espanha, que conseguiu reduzir - eu disse 65%, me disseram 30%, eu estou dizendo os dois números que depois a imprensa sabe o que foi - o número de feminicídios nos últimos anos.
Minha querida Janja teve a oportunidade de conhecer o sistema espanhol de monitoramento e proteção de vítimas, que queremos levar para o Brasil, minha querida Márcia.
A Espanha criou a primeira agência de supervisão da Inteligência Artificial da Europa, uma iniciativa que visa garantir o uso ético dessa ferramenta.
O Brasil aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital.
As redes terão a obrigação de aferir a idade do usuário e modificar certas funcionalidades, como a rolagem infinita, para menores de idade.
Para garantir sua soberania digital, Brasil e Espanha estão investindo em capacidades próprias.
Vamos promover a cooperação entre o Centro Nacional de Supercomputação de Barcelona e o Laboratório Nacional de Computação Científica.
Essa colaboração vai permitir o desenvolvimento de projetos conjuntos em Inteligência Artificial e outras áreas.
A parceria que firmamos hoje com a Espanha mostra que é possível fazer diferente.
Assumimos o compromisso de cooperar em diferentes etapas da cadeia de minerais estratégicos, gerando conhecimento e agregando valor.
Queridos amigos e queridas amigas,
A união entre Brasil e Espanha foi decisiva para a aprovação do Acordo MERCOSUL-União Europeia, e eu quero aproveitar e agradecer de público ao companheiro Pedro Sanchez pela dedicação dele para que a gente conseguisse concluir esse acordo.
Os laços econômicos entre Brasil e Espanha são sólidos.
Em 2025, o país foi o quinto destino das exportações brasileiras.
O mercado espanhol é prioritário para diversas empresas brasileiras das áreas de alimentos, economia criativa e saúde.
Há duas décadas, a Espanha tem sido um dos maiores investidores no Brasil, com presença de destaque nos setores de telecomunicações, finanças, energia e infraestrutura.
Empresas espanholas arremataram cinquenta projetos no Programa de Parcerias e Investimentos brasileiro, somando mais de dez bilhões de dólares em investimentos.
Hoje fortaleceremos nossos vínculos realizando um Encontro Empresarial Brasil-Espanha.
Os milhares de brasileiros que escolheram a Espanha como lar estão contribuindo para a prosperidade deste país.
A política espanhola de regularização migratória reconhece essa contribuição.
Hoje firmamos um acordo de cooperação consular que vai fortalecer a assistência que prestamos a nossos nacionais.
Também decidimos prorrogar nosso acordo previdenciário, para garantir o acesso de nossos cidadãos à aposentadoria nos dois países.
Em um ano de Copa do Mundo, Brasil e Espanha jogam juntos no combate ao racismo, dentro e fora dos gramados.
Estipulamos um plano de ação conjunto para enfrentar a discriminação e a xenofobia.
Concordamos em fortalecer nossa cooperação cultural e assinamos o primeiro acordo sobre cultura e sustentabilidade já firmado pelo Brasil.
A relação entre dois países é construída pelos governos, pelas empresas e pelas pessoas.
Os vínculos entre Brasil e Espanha, em todos esses níveis, são algo extraordinário e muito precioso para o meu país.
Muito obrigado."
( da redação com informações de assessoria e da Ag. Gov. Edição: Política Real)